Intacto (2001)

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Intacto
Original:Intacto
Ano:2001•País:Espanha
Direção:Juan Carlos Fresnadillo
Roteiro:Juan Carlos Fresnadillo, Andrés M. Koppel
Produção:
Elenco:Max von Sydow, Eusebio Poncela, Leonardo Sbaraglia, Mónica López, Antonio Dechent, Guillermo Toledo, Alber Ponte

“Você se considera uma pessoa de sorte?”.

E se a sorte fosse uma coisa palpável, um dom que se pode aprimorar, como a escrita e a fala? Ou o conceito de sorte é apenas a cética série de coincidências movidas por uma fé cega? É sobre estes questionamentos que se trata o filme Intacto, uma produção espanhola de 2001, um intrigante exercício de suspense e tensão que joga o espectador para o centro de um jogo diferente onde o destino é o personagem principal.

Federico (Eusebio Poncela de Olhos Mortais) trabalha em um cassino que fica isolado do mundo. Neste cassino as apostas são altas e quando alguma pessoa começa a ganhar mais vezes do que deveria seus serviços são necessários.

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Só que o ofício de Frederico não é matar os vencedores ou trapacear para que percam o dinheiro, mas simplesmente tocar nelas. Acontece que Frederico tem um raro dom, ou uma maldição, que consiste em “drenar” a sorte das pessoas.

Hoje o dia de Frederico será diferente: ele vai embora do cassino e se despede do dono, um homem conhecido apenas como “O Judeu” (Max von Sydow, de O Exorcista e Duna), com a maior sorte do mundo e cujo rosto apenas Frederico conhece. Antes de sair, “O Judeu” dá um abraço em Frederico sugando assim todo o “poder” do homem.

Sete anos se passam e conhecemos um ladrão de bancos chamado Tomás Sanz (Leonardo Sbaraglia, de Utopia). No entanto não foi por causa de “mero” assalto que Tomás ficou famoso, mas por ser o único sobrevivente de um desastre de avião – uma chance em 237 milhões, segundo o filme.

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Frederico, que por ter seu orgulho ferido, está sedento em busca de alguém que seja capaz de derrotar Samuel (o verdadeiro nome d’O Judeu) em um jogo de azar que nunca perdeu. Procura por Tomás, que além de ficar tentado pelas propostas de enriquecimento e poder oferecidas por Frederico, também aceita por ser uma forma de escapar da custódia pelo assalto, ficando a policial Sara (Mónica López) responsável pelo caso.

Tomás foge com a ajuda de Frederico e o inicia em um restrito circulo de “apostadores” que acreditam ter muita sorte.

O primeiro jogo consiste apenas em um inseto e quatro pessoas com melaço espalhado nos cabelos; bens de valor são apostados e aquele que o inseto “escolher” é o vencedor. O intuito de Frederico é ver se Tomás realmente tem o dom que Samuel tirou dele. O ladrão, à medida que ganha, começa a ficar cada vez mais convencido de que é um homem afortunado.

 

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Os jogos se seguem cada vez mais perigosos, as apostas maiores, enquanto o desafio contra Samuel se aproxima.

O jogo que Samuel, o judeu que milagrosamente escapou do holocausto, propõe e nunca perdeu há 30 anos é uma roleta russa com apenas um espaço vazio no tambor. O oponente começa. Tomás aceita e, além da vida, aposta algo que considera ainda mais precioso: a sorte de sua namorada Ana (Paz Gómez).

Estranho dizer desta forma, trabalhar com o conceito de que um atributo como a sorte pode ser trocada, tirada ou transferida, mas à medida que a trama se desenrola isto acaba ficando perfeitamente plausível. E mesmo que ao final da projeção você não goste do resultado, deve, pelo menos, admirar a tentativa de se fazer algo diferente (note o número de vezes que eu estou usando a expressão “diferente” nesta análise).

intacto-2001-4Juan Carlos Fresnadillo, responsável pela direção e roteiro (escrito junto com Andrés M. Koppel), desenvolve seus personagens daquele jeito europeu que nem todo o público está acostumado (especialmente os que esperam da produção um novo clipe da MTV), pois apesar de o foco do filme estar na história de Tomás, não há mocinhos ou bandidos – todos eles são movidos por razões mais humanas e verídicas como orgulho e ambição. Na cadeira de diretor, Fresnadillo alterna com sobriedade os momentos dramáticos e tensos, fazendo um contraste da atmosfera limpa e sofisticada na maior parte das locações internas e o suspense impregnado nela (como o cassino de Samuel).

O ritmo imprimido por Fresnadillo é lento na maior parte do tempo e, desta forma, é suficiente para desenvolver uma simpatia com os personagens, mesmo os que deveriam ser os vilões como Samuel e Sara. Resumindo: ele sabe o que quer e faz bem feito.

A produção inteira é incrível. No entanto, existem duas sequências que eu queria destacar: a primeira ocorre na floresta que quem já assistiu deve ter ficado com o coração na mão; a segunda, é o jogo final, que transparece que a ideia do filme é apenas uma preparação para ele.

Também é preciso entregar parte do sucesso do filme ao inspirado elenco e a Max von Sydow, sua principal cabeça. O veterano ator dignifica seu personagem, pontuando sua pessoal história dramática na atmosfera de tensão que é o seu jogo de roleta russa. Não que os outros sejam ruins, mas ficam ofuscados por Sydow.

O filme foi tão aclamado pela critica que, além de ser exibido com sucesso em diversos festivais de cinema e arrebatar vários prêmios, garantiu ao diretor Fresnadillo um passe para a cadeira de diretor do filme Extermínio 2, continuação do igualmente aclamado Extermínio. Colocando em poucas palavras, sendo totalmente fora do convencional, Intacto fez sucesso por suas próprias qualidades e não tem nada de sorte nisso.

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Gabriel Paixão

Gabriel Paixão

Colaborador e fã de bagaceiras de gosto duvidoso. Um Floydiano de carteirinha que tem em casa estantes repletas de vinis riscados e VHS's embolorados. Co-autor do livro Medo de Palhaço, produz as Horreviews e Fevericídios no Canal do Inferno!

Um comentário em “Intacto (2001)

  • 03/12/2016 em 10:36
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    Excelente. Filmes europeus estão entre os melhores

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