Lovecraft Country (2020)

Lovecraft Country
Original:Lovecraft Country
Ano:2020•País:EUA
Direção:Daniel Sackheim, Yann Demange, Cheryl Dunye, Misha Green, Victoria Mahoney, Nelson McCormick, Charlotte Sieling, Jeffrey Nachmanoff, Helen Shaver
Roteiro:Misha Green, Shannon Houston, Kevin Lau, Matt Ruff, Wes Taylor, Ihuoma Ofordire, Jonathan I. Kidd, Sonya Winton
Produção:Jordan Peele, Misha Green, J.J. Abrams, Ben Stephenson, Bill Carraro
Elenco:Jurnee Smollett-Bell, Jonathan Majors, Aunjanue Ellis, Abbey Lee, Jada Harris, Wunmi Mosaku, Michael Kenneth Williams, Jamie Chung, Jada Harris

Quando falamos de H. P. Lovecraft e o seu legado com a criação do horror cósmico (aquele que mistura elementos de fantasia e ficção científica), não podemos ignorar o boom – principalmente na última década – de produtos na cultura pop que exploraram esse gênero. Mas o que não deveríamos ignorar também é a história de seu criador. Lovecraft foi uma persona não muito fácil em sua época. Assumidamente racista, misógino e antissemita, o escritor até pode ter tido alguns momentos de rever seus valores, mas definitivamente não todos, com muito da sua obra sempre se aproveitando do medo e o preconceito pelos marginalizados. E com os elementos que criou explorados a rodo agora em nossa era, a verdade é que assistir a ressignificância de sua obra em Lovecraft Country, série da HBO, vai além até de uma reparação histórica, mas o de presenciarmos aqui um dos produtos mais importantes feitos para TV nos últimos tempos.

Baseado no livro Território Lovecraft, de Matt Ruff, o nome do criador do horror cósmico não está ali exatamente para ser homenageado. Ambientada nos anos 50, com o auge da segregação racial nos Estados Unidos da Era Jim Crow, somos apresentados a Atticus Freeman (Jonathan Majors), um jovem soldado negro, recém chegado da Guerra da Coréia, que ao voltar para sua terra natal descobre que seu pai está estranhamente desaparecido. Junto com sua amiga Letitia (Jurnee Smollett) e seu tio George (Courtney B. Vance), eles embarcam para uma viagem na busca por pistas, sem saber que iniciaram uma jornada extremamente perigosa onde enfrentarão não apenas o racismo, mas horrores inimagináveis de uma ordem chamada Os Filhos de Adão, que possui o controle da magia, monstros, outras realidades e que estranhamente precisa de Atticus para alcançar um objetivo macabro.

O próprio primeiro episódio de Lovecraft Country já nos entrega com muita força o que veremos. No ônibus para sua cidade, Atticus lê A Princess of Mars, de Edgar Rice Burroughs, um escritor segregador, cujo herói é um soldado confederado. Após o ônibus quebrar na estrada e ser obrigado a continuar a viagem a pé por ser negro junto a única outra mulher negra presente, ele é confrontado por estar em tal leitura.

– O herói é um oficial confederado?
– Ex confederado.
– Ele lutou pela escravidão. Não dá pra colocar um ex na frente disso.
– Histórias são como pessoas, não tem que ser perfeitas para amá-las, basta apreciá-las e ignorar seus defeitos.
– Mas os defeitos continuam lá.

O confronto de obras literárias e suas representações segue junto ao próprio Lovecraft, quando na oficina do tio, Atticus encontra um poema do autor chamado Da criação dos negros. Leitor de Lovecraft quando jovem, o pai o obrigou a decorar o poema inteiro de forma violenta, o que o fez largar seus livros.

Mas mesmo com a futura inserção do horror cósmico na vida desses personagens, é o horror racial que mais causa medo e repulsa em Lovecraft Country. Com diversos marcos ainda em seu primeiro episódio, nenhum supera a perseguição policial sobre o pôr do sol que dá nome ao piloto. É surreal que uma cena tão tensa e aterrorizante venha do trio de protagonistas negros sendo perseguido por um policial branco simplesmente dentro do limite de velocidade. Pois sem o sol ali, aquele policial teria o direito de fazer o que quisesse com eles.

E é interessante como após o impacto do primeiro episódio, a série passa a nos dar mais e mais impactos simplesmente em sequência. É verdade que o confronto direto junto a Ordem já no segundo episódio dá uma queda na qualidade apresentada no anterior, mas o ritmo segue de forma excelente a partir do terceiro, quando – ainda que dando continuidade a história de Atticus – cada episódio funcionará de forma quase independente, com uma história de terror própria e um personagem diferente sempre em maior evidência.

No episódio três, temos basicamente uma história de casa mal assombrada, onde Letitia de forma magnífica toma o protagonismo para si. No episódio quatro, o atormentado pai de Atticus é o centro de uma aventura estilo Indiana Jones junto a um final surpreendente. No quinto (e talvez meu favorito), temos o foco em Ruby (Erin Z. Young) – irmã de Letitia – numa história de body horror macabra e cruel junto a uma das mais incríveis tiradas da série. Já no sexto, vamos a Coréia para conhecer Ji-ah (Jamie Chung) e o horror de uma guerra onde o racismo de brancos com negros não significa nada para os coreanos vítimas de um conflito brutal. Com o sétimo retornando para os Estados Unidos, Hippolyta (Aunjanue Ellis) é a estrela de um episódio de pura ficção científica, mais metafórico e poético, sobre não se diminuir e deixar de sonhar com aquilo que realmente deseja. Para o oitavo, uma das histórias mais arrepiantes da temporada fica reservada para a pequena Dee.

Mas é de longe o episódio 9 que mais impacta naquilo que Lovecraft Country se apresenta. Se com a série de Watchmen em 2019 a HBO já havia colocado no mapa da história o chocante e quase apagado Massacre de Tulsa, aqui ele se torna gráfico. A recriação do Massacre de todo um relevante e bem sucedido bairro negro por brancos racistas é mostrado em detalhes, com cenas icônicas de dor e desespero, principalmente na visão de Montrose, sobrevivente quando criança, mas marcado por um trauma sem igual. A cena do bombardeio, que praticamente encerra o episódio, é poderosa, de arrepiar e nos revoltar.

Em seu último episódio, a série toma um tom apressado para a conclusão, mas que funciona. Até mesmo a personagem de Christina, muito bem construída por ser enigmática e repleta de dualidade, toma de vez o papel de grande vilã para si, responsável por momentos dolorosos e cruéis, onde a resposta final de violência é pouco questionável quando o oprimido já sofreu horrores incalculáveis por uma força opressora que vai além da raça, mas que possui o domínio da magia na base da apropriação de povos e culturas.

A série, que contou com nomes de peso em sua produção, tem traços marcantes dos estilos dos consagrados Jordan Peele e J. J. Abrams, mas é Misha Green quem brilha aqui como showrunner e roteirista, responsável por elementos de grande força narrativa, sendo o principal deles a desmistificação do estereótipo de personagens, desde a feminilidade onde mulheres negras são em geral apresentadas exageradamente fortes e sexualizadas, a masculinidade que aqui possui grandes traços de sensibilidade e camadas profundas em suas personalidades. Letitia é forte pelas circunstâncias que a obrigam a ser e às vezes se esconde por essa fachada, sempre se revelando absurdamente mais complexa. Atticus, mesmo gigante em músculos, é repleto de empatia e conflitos internos na mesma proporção, sem receio de assumir seus medos quando entende seu papel ali. E Montrose, que por tantas vezes na série nos desperta raiva, também nos emociona fortemente com as consequências de uma vida onde nunca pode ser ele mesmo.

O nada sutil toque do uso de discursos de personalidades negras como trilha sonora em momentos chaves da série também é poderoso e impactante.

Mas como toda grande obra dotada de tamanha ousadia narrativa, Lovecraft Country também tem alguns deslizes. O ritmo pode ser inconstante para o grande público em alguns momentos, com destaque para os apressados segundo e último episódios. Os efeitos especiais digitais acabam sempre ficando abaixo dos efeitos práticos. Mas nada disso incomoda de verdade. O verdadeiro grande problema em seu discurso é a retratação de personagens LGBTQIA+, onde simplesmente três deles seguem uma das tropes mais comuns no que se refere a esse grupo, a bury your gays (enterrem seus gays, em tradução livre), com destaque para um personagem intergênero cujo fim pareceu gratuito e gerou até mesmo um pedido de desculpa dos produtores.

Ainda assim, é fato que entre séries de superprodução, nunca houve um trabalho para a TV americana tão profundo em confrontar o papel da cultura na propagação do racismo como Lovecraft Country. Seu resultado é inspirador e, com o momento que este mundo dividido vive, ele definitivamente é histórico.

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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