O Mensageiro do Último Dia (2020)

4.7
(3)

O Mensageiro do Último Dia
Original:The Empty Man
Ano:2020•País:EUA
Direção:David Prior
Roteiro:David Prior
Produção:Ross Richie, Stephen Christy
Elenco:James Badge Dale, Marin Ireland, Sasha Frolova, Owen Teague,, Stephen Root, Aaron Poole, Robert Aramayo, Samantha Logan

Alguns meses atrás eu escrevi uma notícia aqui para o Boca do Inferno sobre o lançamento de um filme da 20th Century Fox chamado O Mensageiro do Último Dia (The Empty Man). Era uma notícia estranha. Apesar de ser um filme de um grande estúdio, ele não estava ganhando divulgação nenhuma; e o trailer fora lançado uma semana antes da data de estreia dos cinemas. Não parecia existir a menor vontade de lançamento por parte do estúdio e era difícil se quer encontrar alguma entrevista com o diretor do filme ou com o elenco. Parecia ser um filme que queria ser esquecido de propósito.

O resultado disso é óbvio: o filme ganhou pouquíssimo tempo nas salas de cinema dos Estados Unidos, resultando em uma bilheteria que não pagou os custos do filme. E as notas por parte da crítica foram baixas e a conclusão foi que O Mensageiro do Último Dia era um filme ruim, sem ter tido muito a chance de lutar contra isso.

Antes de começar essa crítica devo dizer que nem todos vão gostar desse filme. Com quase 2h30 de duração, O Mensageiro do Último Dia é um filme que surpreende justamente por não entregar os clichês que todos esperam, mas sim uma história completamente surreal e extremamente bem dirigida. O título em inglês pode lembrar tranqueiras como Slender Man ou Bye-bye Man mas este é um trabalho muito maior.

Baseada na Graphic Novel homônima lançada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey, a estreia de David Prior como diretor acaba fugindo até mesmo do formato convencional que grandes estúdios de Hollywood costumam impor sobre seus diretores. Logo de início somos levados há 1995 no Vale do Ura, no Butão, acompanhando um grupo de de quatro amigos fazendo uma escalada pelas montanhas do país.  Tudo parecia estar dando certo até que Paul (Aaron Poole) acaba caindo em um buraco de uma caverna e se depara com o esqueleto de uma criatura bizarra. Quando seu amigo Greg (Evan Jonigkeit) desce para ajudá-lo, ele encontra Paul em uma espécie de transe em frente ao esqueleto. Ao se aproximar, ele escuta Paul dizer uma única frase: “Se você tocar em mim, você vai morrer”. Greg acaba por conseguir levar seu amigo de volta para a cabana em que estavam, e então somos entregues a uma das sequências mais impressionantes e bizarras do terror atual.

O interessante aqui é que essa sequência inicial tem quase 25 minutos e funcionaria perfeitamente como um curta ou como o primeiro episódio de uma série. David Prior, logo de início, mostra muito bem que sabe criar tensão em suas cenas, usando o jumpscare como um recurso verdadeiramente satisfatório e não como uma artimanha para fisgar um público que já está cansado desse tipo de artifício. É apenas depois desse prólogo que somos apresentados ao título do filme, o que já serve para mostrar que estamos prestes a embarcar em uma viagem nada convencional.

Após essa sequência somos levados para 2018 no Missouri, acompanhando James Lasombra (James Badge Dale), um ex-policial. Em meio a flashes e lembranças entendemos que James agora vive sozinho, após perder sua esposa e filho de alguma maneira traumática. A única pessoa com quem James parece ter algum contato é sua vizinha Nora (Marin Ireland), que vem até James após o desaparecimento de sua filha Amanda (Sasha Frolova). A polícia diz que por hora não pode continuar a investigação, já que Amanda tem 18 anos e poderia muito bem ter apenas fugido de casa, mas James percebe que algo não está certo ao encontrar uma mensagem no espelho do banheiro de Amanda escrita em sangue: “O Homem Vazio me fez fazer isso.

Iniciando uma investigação por conta própria, o ex-policial resolve conversar com os amigos de Amanda e tentar descobrir quais foram os últimos passos da garota. É ao conversar com Devara (Samantha Logan) que James descobre que Amanda e seus amigos tentaram invocar O Homem Vazio recentemente. A lenda diz que se você soprar uma garrafa vazia em uma ponte à noite, o Homem vazio vem até você. Na primeira noite, ele te escuta. Na segunda noite, ele vem até você. Na terceira noite, você o sente. É claro, a lenda do Homem Vazio parece remeter a tantas outras lendas apresentadas em filmes e até esse momento eu estava esperando apenas mais uma história de bicho-papão, talvez melhor dirigida do que a maioria das bobagens que chegam até a gente todos os anos.

Mas é impressionante como Prior consegue levar sua história para o mais longe possível disso, ao fazer James descobrir que o desaparecimento de Amanda e o Homem Vazio parecem estar ligados a uma sociedade secreta que é obcecada por conceitos de física quântica. Prior vai quebrando a estrutura convencional dos filmes de terror de Hollywood para uma história que vai se tornando cada vez mais surreal. É a partir daqui que o filme talvez vá dividir o público: aqueles que se entregarem a experiência proposta por Prior vão encontrar sequências assustadoras e memoráveis, uma história que vai caindo cada vez mais para um terror cósmico e um final que cria uma ligação com o prólogo do filme de uma maneira que vai fazer você pensar por dias como todas as partes dessa história se encaixam.

Aqueles que estavam entusiasmados por ver mais uma história sobre alguma lenda urbana da Internet ser contada do ponto de vista de adolescentes, recheada de sustos que nós já prevíamos, provavelmente vão se decepcionar bastante.

Queria destacar aqui como a direção de David Prior é bem executada em todo filme. Provavelmente os fãs do cinema de Ari Aster vão se esforçar ao máximo para pegar todos os detalhes que são colocados em tela, que sempre apresentam uma ligação com a história que está sendo contada, fazendo com que seja o tipo de filme que assistir pela segunda vez é uma experiência tão boa quanto a primeira, porque é nesse momento que encontramos o que não entendemos de início e começamos a ligar os pontos de uma história muito maior.

A história do filme se torna tão maior do que aquilo que era esperado que até seus 137 minutos parecem se tornar pouco para contar tudo que é proposto, por isso o terceiro ato do filme se torna acelerado demais e deixa um pouco a desejar. Prior foi tão ambicioso em sua história que precisava de mais tempo para contá-la.

Mas a existência de um filme como O Mensageiro do Último Dia é surreal por si só. Parece que a Fox entregou um orçamento milionário nas mãos de Prior e disse para o diretor criar um filme baseado em uma Graphic Novel que eles haviam comprado os direitos. Prior então entrega um filme de 137 minutos completamente surreal, que foge de inúmeros clichês que o público alvo desses estúdios parece tanto gostar. O resultado disso? Prior teve que lutar para ver seu filme ganhar alguma atenção, e a compra da Fox pela Disney no meio do processo de pós-produção do filme também fez com que o longa do diretor fosse deixado de lado pelo estúdio.

É difícil dizer se alguma justiça será feita pelo O Mensageiro do Último Diaos fãs vão descobrir esse filme? Ele vai receber o crédito que realmente merece? Acho que só o tempo vai dizer. Ao verdadeiro fã de terror deixo aqui minha defesa a esse filme e proposta para aqueles que não viram mergulharem de cabeça nessa história surreal. Como eu disse no começo desse texto, nem todos vão amar O Mensageiro do Último Dia, mas tenho certeza que alguns ficaram maravilhados pela experiência desse filme e vão desejar, assim como eu, que o Homem Vazio consiga de alguma maneira transmitir sua mensagem no infinito cósmico.

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Lucas Crizza

Motion designer, apaixonado por tudo que envolve o mundo do horror. Quando criança descobriu a seção de terror nas videolocadoras e nunca mais foi o mesmo.

One thought on “O Mensageiro do Último Dia (2020)

  • 08/04/2021 em 15:48
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    Baita filme e baita crítica . Assisti no cinema e gostei muito.

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