Depois do Apocalipse (2017)

4.8
(4)

Depois do Apocalipse
Original:Hostile
Ano:2017•País:Bélgica, França
Direção:Mathieu Turi
Roteiro:Mathieu Turi
Produção:Olivier Chateau, Hicham Hajji, Thomas Lubeau, Eric Gendarm
Elenco:Brittany Ashworth, Grégory Fitoussi, Javier Botet, Jay Benedict, David Gasman, Laura D'Arista Adam, Richard Meiman

Recentemente, ao noticiar sobre o curioso Meander, notei que o diretor, Mathieu Turi, é o mesmo do filme Depois do Apocalipse (Hostile, 2017), com o qual esbarrei em algumas consultas ao catálogo da Amazon Prime. Passava despercebida pelo fato do pôster e título nacional me fazerem achar que eu já havia visto. Quando descobri que não havia uma crítica sobre ele no Boca do Inferno, resolvi lhe dar uma “nova chance” até perceber de bom grado que ainda era inédito até mesmo para mim. E a empolgação se ampliou pela proposta de envolver um ambiente único e uma protagonista em apuros e pelo trailer convidativo, que traz uma ameaça bastante assustadora.

No entanto, a prévia esconde mais de 50% do filme, que é ambientada em um mundo normal em uma história de amor entre duas pessoas bastante diferentes. Assim, ao conferir o trabalho, você percebe o erro da distribuidora em intitulá-lo “Depois do Apocalipse“, tendo em vista que não se trata exatamente de uma produção apocalíptica. Na verdade, existem as duas narrativas: o antes (de uma sociedade comum, com pessoas no seu dia-a-dia) e o presente, em um deserto, com poucas pessoas, escassez de água e alimento, e a presença de humanoides, criaturas magras e pálidas que se alimentam dos seres humanos (lembrei da terrível Menina Medeiros, de [REC], e não foi à toa, uma vez que ambas criaturas foram interpretadas pela mesma pessoa, o “homem-monstroJavier Botet). Como uma realidade se transformou na outra, não importa.

O que interessa é acompanhar nos primeiros dez minutos a exploração de Juliet (Brittany Ashworth, de Exorcismos e Demônios, 2017), com uma máscara no rosto que nos traz um triste deja vu, em alguns ambientes em busca de alimentação, enquanto conversa por walkie-talkie com alguém. Depois de encontrar um homem ferido próximo a um trailer e entrar para enfrentar o que ele prendeu no seu interior, numa cena muito bem dirigida em que a câmera circula o veículo, enquanto ela luta com o monstro, atingindo janelas e a lateral, Juliet segue viagem para o acampamento até que, ao rever uma foto tirada com um rapaz perde o controle do carro e capota.

Com a perna quebrada e presa, ela desperta à noite, horário em que as criaturas que temem a luz saem para caçar. Ela precisa então entrar em contato com a equipe para pedir um resgate enquanto confronta um exemplar que a rodeia, ao passo que a narrativa se alterna com os momentos em que conheceu e começou a se relacionar com o rico artista francês Jack (Grégory Fitoussi, que fez uma ponta em Guerra Mundial Z, 2013). O artista se encanta pela jovem que resolveu se abrigar em sua galeria para fugir da chuva, e tenta se aproximar, percebendo que ela é uma garota simples mas dependente de drogas. As diferenças sociais se evidenciam, mesmo que ele não se importe com a simplicidade dela em se adaptar a uma vida de luxo e facilidades. Mas, para isso, ela precisaria abandonar o que a destrói e, quem sabe, corresponder ao “eu te amo“.

Embora os fãs de thrillers de ficção e horror se empolguem com as sequências em que ela luta contra a criatura que circunda o carro, o roteiro, do próprio Turi, busca meios de se esquivar para uma realidade segura, cuja ameaça é sua própria maneira de viver. É, de fato, uma história de amor e superação, de encontros e de luta pela sobrevivência. Os tais inimigos da geração apocalíptica são bem assustadores, e deixa o espectador interessado em vê-los em cena por mais vezes, E talvez essa definição de todo um contexto, que até justifica algumas das ações da protagonista isolada em um lugar ermo, sem proteção, pode não agradar a todos. Então, críticas como esta podem servir de apoio para que o público entenda do que se trata, sem se enganar pelo título ou por imagens.

Trata-se de um bom filme, bem realizado, e com cenas de tensão e suspense, com uma protagonista cheia de falhas na concepção de uma anti-heroína. Com a boa interpretação de Brittany Ashworth, que consegue distanciar suas duas realidades até que elas se confrontem, recomendo que assista Depois do Apocalipse para se animar ainda mais com o futuro projeto do diretor.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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