Expresso do Amanhã (2013)

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Expresso do Amanhã
Original:Snowpiercer
Ano:2013•País:Coreia do Sul, República Tcheca
Direção:Bong Joon Ho
Roteiro:Jacques Lob, Benjamin Legrand, Jean-Marc Rochette, Bong Joon Ho, Kelly Masterson
Produção:Tae-sung Jeong, Wonjo Jeong, Steven Nam, Chan-wook Park
Elenco:Chris Evans, Jamie Bell, Tilda Swinton, Kang-ho Song, Ed Harris, John Hurt, Octavia Spencer, Ewen Bremner, Ko Asung, Alison Pill, Luke Pasqualino, Vlad Ivanov, Adnan Haskovic

O “expresso do amanhã” transporta o que restou da humanidade, em uma representação bastante interessante da sociedade em qualquer época. Já é um assunto retratado em diversas produções apocalípticas, quando se justifica as ações insanas do ser humano em situações de desespero, revelando sua verdadeira face egoísta, porém está fazendo ainda mais sentido atualmente, em plena pandemia do coronavírus. Muitas das atitudes questionáveis de personagens políticas da graphic novel de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette refletem o que se pode ver hoje em dia, pela vontade de manter a máquina funcionando, nem que para isso sejam necessários sacrifícios.

Embora tenha sido publicada em 1982, Le Transperceneige só foi pensada como adaptação em 2005. Bong Joon Ho (o mesmo de O Hospedeiro e do recente Parasita) a comprou em uma revistaria próxima à Universidade Hongik e sem se afastar do local já havia completado a leitura, fascinado pelo modo como o trem possuía vagões que separavam classes sociais, com a nítida diferença entre os que habitam a cauda e os que estão mais próximos dos setores frontais. Após mostrar o material aos amigos Park Chan-wook e o produtor Lee Tae-hun, ela já estava consciente que uma adaptação necessitaria de uma composição própria, devido á estrutura complexa e o modo como foram desenvolvidas as personagens. Sem cortes em muitas passagens, não haveria como a versão para o cinema se transformar em um produto de apenas duas horas.

A empresa de Chan-wook, Moho Film, adquiriu os direitos pela obra em 2006, mas daí até o filme começar a ser desenvolvido foi uma longa batalha, de roteiros reescritos em várias versões. Em uma delas, por exemplo, havia se imaginado uma história romântica para o protagonista, interpretado por Chris Evans, que só entrou para o projeto em janeiro de 2012, juntamente com outros do elenco como Tilda Swinton e Jamie Bell. As filmagens aconteceram nos meses seguintes, durante 72 dias, nos estúdios Barrandov Studios, sendo concluídas em 14 de julho para início do processo de pós-produção. Expresso do Amanhã estreou em julho de 2013 na Coreia do Sul, e nos meses seguintes alcançou outros países, com grande parte de suas críticas favoráveis; no Brasil, só chegaria, sem soar o apito do trem, em 27 de julho de 2015.

Deveria ter uma apreciação melhor por aqui por ser uma obra interessante, profunda e extremamente atual. No roteiro de Bong Joon Ho e Kelly Masterson, em 2014, uma tentativa de evitar o aquecimento global teve resultados catastróficos, levando o planeta a uma nova era do gelo. Os poucos sobreviventes embarcaram em um expresso, desenvolvido anos antes pelo magnata Wilford (Ed Harris), em uma necessária e constante volta ao mundo até que a terra possa voltar a ser habitada. Os mais pobres ocupam a traseira do trem, tendo que trabalhar e obedecer determinadas regras impostas pelos mais bem sucedidos, em situação de conforto e diversão.

Não satisfeitos com a condição miserável ao qual se encontram, tendo como alimento pequenas barras de conteúdo desconhecido produzidas mais a frente, um grupo pretende uma rebelião, como já fora tentada outras vezes nos ensinamentos de História para as crianças. Curtis (Evans) tem o apoio do veterano e ex-parceiro de Willford, Gilliam (John Hurt), nas ações de invasão, contando ainda com Tanya (Octavia Spencer), cujo filho fora levado recentemente pelos guardas para um propósito especial, entre outros. Crentes que as balas já foram extintas e as armas são usadas apenas para intimidar, eles colocam o plano em ação, libertando o especialista em segurança Namgoong (Kang-ho Song) e sua filha vidente Yona (Ko Asung), com a promessa de mantê-los abastecidos com uma droga.

A cada avanço pelos vagões, o grupo rebelde descobre como as coisas funcionam no expresso, assim como enfrenta desafios como um exército de guardas com armas brancas, e com óculos de visão noturna, para aproveitar a passagem por um túnel escuro. Participando como um novo passageiro, o espectador fica impressionado com a divisão das funções, o modo como é produzido alimento, preservada a natureza, a neve é derretida e filtrada, e como a parte da frente é mantida sob controle e proteção. A proposta é muito interessante e curiosa, e ainda tem toda a sua carga metafórica de representação de uma sociedade que privilegia os mais ricos.

Expresso do Amanhã é favorecido pelo excelente elenco – a construtora de personagens estranhos, Tilda Swinton, faz de sua Mason ainda mais peculiar -, pelos ótimos efeitos especiais, pela direção acertada de Bong Joon Ho e pelo enredo claustrofóbico e intenso. Traz sequências divertidas de combate e luta pela sobrevivência, e a repulsa pelo modo como é conduzida a escolinha em aulas que exploram o passado para a compreensão do presente. O olhar estupefato dos sobreviventes à professora e à cantoria das crianças reflete bem o estado de espírito dos que eram até então obrigados a se alimentar de insetos e acatar ordens para não sofrerem castigos. Pode-se apontar como falha, no entanto, o fator hollywoodiano de mostrar o mundo sob o domínio americano, mostrando que somente eles foram capazes de sobreviver à catástrofe. Muito melhor seria se os vagões explorassem estrangeiros e nações diversas, sem manter o foco exclusivamente nos residentes na América – à exceção de Namgoong e Yona, que não falam inglês.

Como resultado pelo ótimo material original, a trama se transformou em uma série, já em sua terceira temporada, desenvolvida por Josh Friedman e Graeme Manson, e que conta com a atriz Jennifer Connelly no elenco. Está disponível na Netflix, para aqueles que querem continuar a viagem. De toda forma, prestigiem também esse filmaço de 2013!

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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