Dia dos Namorados Macabro (1981)

4.8
(8)

Dia dos Namorados Macabro
Original:My Bloody Valentine
Ano:1981•País:Canadá
Direção:George Mihalka
Roteiro:Stephen A. Miller, John Beaird
Produção:John Dunning, André Link, Stephen A. Miller
Elenco:Paul Kelman, Lori Hallier, Neil Affleck, Keith Knight, Alf Humphreys, Cynthia Dale, Helene Udy, Rob Stein, Thomas Kovacs, Terry Waterland, Carl Marotte, Don Francks

Dentre a grande leva de slashers realizados pós-Halloween (1978) e Sexta-Feira 13 (1980), Dia dos Namorados Macabro (My Bloody Valentine, 1981) é um dos mais populares. A trajetória do assassino com roupas de minerador foi bastante complicada, seja pela baixa bilheteria adquirida na época, o que justifica a não realização de uma sequência, ou pelos problemas com os órgãos de censura, ainda aterrorizados pelo recente assassinato de John Lennon. Com o passar dos anos, o longa foi se tornando cult, recebeu elogios do cineasta Quentin Tarantino, e até teve suas cenas violentas disponibilizadas, incentivando o diretor George Mihalka a pensar em uma continuação. Contudo, a maldição de Harry Warden só permitiu uma refilmagem em 3D, em 2009, sob o comando de Patrick Lussier.

Dia dos Namorados Macabro foi desenvolvido praticamente em uma sala de reuniões. Com a onda de sucesso dos filmes de assassinos em série, a Cinepix Productions contratou o diretor para comandar dois projetos, sendo um de terror. A ideia era realmente homenagear algum feriado ou data comemorativa, mas sem muito alarde para evitar que a ideia pudesse ser copiada. Deram início à produção do filme com o título camuflado de The Secret, embora desde o começo já soubessem qual seria o adotado, e contrataram John Beaird para escrever o roteiro de imediato. Empurrado pelo sucesso dos slashers Trem do Terror e Baile de Formatura, ambos de 1980, o novo projeto iniciou as filmagens em setembro desse mesmo ano em Sydney Mines, Nova Escócia, uma pequena cidade mineradora, repleta de minas fechadas, abandonadas e clandestinas. A escolhida para as gravações foi a Princess Colliery Mine, com a equipe tendo todos os cuidados para evitar explosões e desmoronamentos.

Em novembro de 1980, a fotografia principal já havia sido concluída, com um orçamento estimado em pouco mais de dois milhões de dólares. Uma parte do dinheiro foi utilizada na composição do equipamento, temendo problemas com o metano do subsolo, e para dar à mina um aspecto sombrio, sujo, pois assim que contrataram o espaço os proprietários fizeram uma faxina no local, deixando-o “limpo e colorido, semelhante à Disneylândia“. Foi preciso, então, pintar as paredes de cores escuras para ampliar a atmosfera aterrorizante, como se propõe em um filme de terror slasher. Com as gravações encerradas, a Paramount Pictures o levou aos cinemas em 11 de fevereiro de 1981, aproveitando a proximidade do Dia de São Valentim. O filme fez pouco mais de 5 milhões nos cinemas, decepcionando a produtora e encerrando qualquer possibilidade de realização de uma parte 2. É uma pena, porque tinha potencial para ampliação da mitologia proposta.

A crítica da época foi bem dividida. Houve jornalistas que elogiaram o conceito, mas reclamaram da escuridão das filmagens, principalmente as que ocorrem no interior da mina. E ainda aqueles que apontaram o fato do filme ter sido financiado em parte pela Canadian Film Development Corporation, e que teria usado dinheiro dos impostos para imitar o clássico de John Carpenter. Apontaram como pontos positivos o respeito do filme pelas mulheres, sem a necessidade de mostrá-las todas nuas ou entregues sexualmente – à exceção da morta no prólogo -, ou, como disse Richard Zoglin, do The Atlanta Constitution, trata-se de um “slasher bem comportado“, contido até mesmo na violência. É claro que o filme levado às telas foi a versão com cinco minutos de cortes, sem a exposição do cadáver na máquina de lavar, da cabeça degolada ou da picareta cravada no queixo e que fez um dos olhos de uma vítima saltar.

A trama é bem simples. Começa com a chegada de dois mineradores a um local numa mina onde possam ficar à vontade. A garota (Pat Hemingway) tira a roupa, exibindo a tatuagem de um coração vermelho no peito, e utiliza parte do equipamento de seu companheiro para se insinuar sexualmente. Ele coloca a picareta ao lado dela e logo depois a empurra na direção dela, fazendo a ferramenta atravessar seu corpo por trás, com a ponta surgindo exatamente pela tatuagem, numa bela sequência inicial. Depois é mostrada a cidade de Valentine Bluffs se preparando para comemorar o Dia de São Valentim, 20 anos após uma tragédia, posteriormente contada. O resgate da festa está empolgando o prefeito Hanniger (Larry Reynolds), sua paixão não declarada Mabel (Patricia Hamilton), que trabalha na lavanderia, e vários jovens mineradores e suas namoradas: Gretchen (Gina Dick), Dave (Carl Marotte), o gordinho simpático Hollis (Keith Knight), Patty (Cynthia Dale), Sylvia (Helene Udy), o engraçadinho Howard (Alf Humphreys), Mike (Thomas Kovacs), John (Rob Stein), Tommy (Jim Murchison) e Harriet (Terry Waterland).

Além deles, destacam-se o triângulo amoroso composto por Sarah (Lori Hallier), o atual namorado Axel (Neil Affleck) e o filho do prefeito T.J. (Paul Kelman), que acabara de retornar à cidade depois de uma partida repentina anos atrás. Quando o chefe de polícia Jake Newby (Don Francks) recebe uma caixa de bombons contendo um coração humano – o da garota do prólogo – e versinhos macabros, ele sente que talvez um antigo minerador, o louco Harry Warden (Peter Cowper), possa ter retornado ao saber das comemorações de Dia dos Namorados. Ele resolve pedir ao prefeito que o baile seja cancelado, mas não conseguirá evitar que os jovens da região decidam comemorar por conta própria.

Mabel é a segunda vítima. O famoso cadáver da máquina de lavar choca Jake, que resolve buscar informações sobre Harry, que estaria internado em um sanatório desde os acontecimentos do passado. O “Crazy Ralph” (personagem do senhorzinho de Sexta-Feira 13 que avisa dos perigos), barman da cidade, alerta ao grupo sobre o passado e a maldição que envolve o minerador assassino. Tudo teria acontecido quando dois supervisores teriam deixado cinco mineradores sozinhos no trabalho sem verificar os níveis de gás metano para curtir o baile, assim como os monitores que esqueceram Jason Voorhees em Crystal Lake. Uma explosão no local prende os trabalhadores na mina, durante dias, obrigando Harry Warden a se alimentar das carnes dos mortos para sobreviver. Enlouquecido, no ano seguinte, ele assassinou os dois supervisores, colocando seus corações em caixas de bombons com o aviso sobre nunca mais comemorar a data.

Com a chegada do Dia dos Namorados, a festa acontece, e o assassino começa a empilhar corpos, seja fervendo o rosto de um em uma panela de salsichas – à la Acampamento Sinistro – ou cravando a picareta no queixo de outro; empalando um casal em um momento íntimo (uma morte que infelizmente nunca foi recuperada dentre os cortes realizados, e que ocorreu duas vezes na franquia Sexta-Feira 13), ou uma moça no chuveiro, com a água corrente descendo pela boca. Será que Harry realmente está por trás dessa matança ou seria outra pessoa, traumatizada por algum episódio do passado, e que também não quer que o evento aconteça? A resposta virá no último ato, no interior da mina, destacando o triângulo amoroso e a provável chegada da polícia e dos locais.

Mesmo depois de quarenta anos, Dia dos Namorados Macabro ainda se mostra interessante. Com a grata versão da Versátil, no box Slashers Vol. II, é possível conferir o filme na íntegra, sem os cortes da censura e com todas as sequências violentas. É um filme que ainda funciona pela proposta de identificação do assassino, pelos personagens simpáticos que lutarão pela vida e pela atmosfera incômoda de ameaça constante. Há bons momentos em cena, como o da garota “atacada” por roupas de mineradores e o do barman, na tentativa de pregar uma peça nos jovens. Como todo bom slasher, os jovens se mostram ingênuos ao ponto de resolverem comemorar o Dia dos Namorados na própria mina em que trabalham à noite, mas têm a desculpa de simplesmente não saberem das primeiras mortes, algo que poderia ser impedido se a polícia tivesse os alertado.

A boa trilha de Paul Zaza, que ainda faz alusão aos crimes de Harry Warden e sua maldição, torna a experiência ainda melhor. Também vale elogios para a fotografia de Rodney Gibbons, que, mesmo escura, favorece o clima, sem esconder nada do espectador; e aos bons efeitos de maquiagem, com destaque para a exposição do cadáver de Mabel e para a sequência bem realizada do degolamento. É claro que o roteiro de John Beaird facilita as ações para o assassino, que consegue de uma cena à outra vestir a roupagem de minerador para depois voltar “ao normal“, curtindo a festa que ele mesmo queria que não acontecesse. A revelação do assassino é bem melhor do que a refilmagem, embora seja válido que tenham tentado mudar os rumos.

Se tiver uma oportunidade, reveja o filme sem os cortes da censura. Curta um slasher bem realizado, mesmo que tenha inspiração nas datas comemorativas do período, e nos filmes que fizeram sucesso, com o resgate do Crazy Ralph ou do personagem que se finge de ferido, ambos presentes em Sexta-Feira 13. Vale a pena retornar a Valentine Bluffs, nem que seja para receber uma caixa de bombons com algo sinistro dentro.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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