![]() Não Feche os Olhos
Original:Come True
Ano:2020•País:Canadá Direção:Anthony Scott Burns Roteiro:Anthony Scott Burns, Daniel Weissenberger Produção:Steven Hoban, Mark Smith Elenco:Julia Sarah Stone, Landon Liboiron, Carlee Ryski, Christopher Heatherington, Tedra Rogers, Brandon Vanderwijn, John Tasker, Austin Baker, Shane Ghostkeeper, Tiffany Helm |
Não Feche os Olhos (Come True, no original; ou Torne-se Realidade, em sua tradução literal para o português) é uma combinação de ficção científica com horror escrita e dirigida pelo canadense Anthony Scott Burns. Lançado em 2020, o longa mostra uma evolução considerável do cineasta em relação a Ecos na Escuridão (2018), seu trabalho anterior. E se Come True ainda não representa a maturidade de Burns, indiscutivelmente impressiona pela estranheza e estilo, sobretudo se levarmos em conta o provável baixo custo da produção. Em tempos, embora o orçamento de Come True não tenha sido divulgado, o filme claramente não se enquadra na categoria de superprodução ou blockbuster, mesmo sendo tecnicamente muito bem-acabado.
No enredo, Sarah Dunne é uma jovem estudante que, para fugir de casa e dos problemas familiares, aceita participar de um estudo médico sobre o sono no qual deve dormir todas as noites em uma universidade, onde será observada por cientistas. Contudo, entre a fadiga de noites mal dormidas e o caos de uma existência inquietante, uma viagem inesperada e assustadora tem início. E esta perigosa jornada pelo inconsciente, em que os pesadelos e o real se confundem, pode custar não só o que resta de sua sanidade, mas também libertar forças incompreensíveis que não poderão ser controladas.
O longa-metragem de Scott Burns se destaca acima de tudo pelo eficiente desconforto causado por uma fotografia quase sem cores, onde os pesadelos parecem ainda mais desbotados; todas as imagens e personagens mergulhados nesta iluminação entristecida é ainda embalada por uma trilha sonora inusitadamente vertiginosa criada pela dupla Electric Youth e pelo próprio Burns (sob o pseudônimo Pilotpriest). Para se ter ideia da importância da trilha sonora, ela foi composta antes mesmo do roteiro estar finalizado. A trilha, baseada em sintetizadores, não é apenas um complemento, mas um componente fundamental para expressar a desordem interna e emocional da protagonista, replicando o efeito no espectador; além de reforçar a atmosfera retrô da produção.
No entanto, é inegável que Não Feche os Olhos seja fortemente influenciado pelo cinema do também canadense David Cronenberg (apesar da ausência do body horror), em especial pela temática de um roteiro que explora a tecnologia e seus limites que, ultrapassados levam a um horror inevitável. Este horror, por sua vez, reflete condições humanas complexas e frágeis, como a ansiedade e o desejo sexual reprimido. Outra influência que poderíamos citar é a do americano David Lynch, famoso pela exploração do subconsciente em narrativas oníricas e surreais. Para este que vos escreve, são inspirações muito mais do que bem-vindas.
E como são mostrados os sonhos e pesadelos de Sarah Dunne? Estas sequências repetem um padrão em que a imagem em primeira pessoa (o ponto de vista da personagem) desliza lenta e infinitamente para frente, esbarrando em cenários monocromáticos onde corpos que lembram manequins, oras estão mutilados e atravessando paredes, oras estão pendurados no teto. Muros, portas e corredores são atravessados um a um até que um vulto misterioso cujos olhos iluminados é encontrado. Esta recorrência remete a uma espécie de encarceramento em um inconsciente quase vazio, escuro e oprimido.
No elenco, Julia Sarah Stone (Honey Bee, 2018) é muito hábil na construção de sua personagem. Com uma atuação forte e de poucos diálogos, ela consegue transmitir a desorientação e o cansaço da protagonista. O restante do elenco, igualmente competente, é composto por atores pouco conhecidos no Brasil, como Landon Liboiron (Verdade ou Desafio, 2018) e Carlee Ryski (When the Devil Knocks, 2010), que interpretam os médicos-cientistas responsáveis pelo tratamento da personagem principal.
Contudo, apesar da fotografia interessante, trilha sonora muito acima da média e bom desempenho da protagonista, o roteiro (escrito por Anthony Scott Burns com a colaboração de Daniel Weissenberger) apresenta alguns pontos que podem ser questionados. Há um pequeno problema em relação ao ritmo, um pouco descompassado e deficiente de um clímax efetivo. Mas a problemática maior talvez esteja relacionada ao desenvolvimento do enredo, que espalha algumas ideias boas, porém não as explora a ponto de colher os resultados. Outra controvérsia é o plot twist final que parece inserido de última hora e que acaba invalidando boa parte do que foi apresentado até aquele momento.
Para o infernauta curioso, nesta abrupta e desnecessária reviravolta final – leia por conta e risco, spoilers a seguir – descobrimos que tudo o que estamos vendo é o inconsciente da protagonista. Esta primeira metade do plot twist era parcialmente esperada. Entretanto, também é revelado que Sarah Dunne está em coma há mais de uma década. Em seu inconsciente ela recebe uma mensagem, que os médicos estão enviando, pedindo que ela acorde. Sim, caro leitor, fomos enganados e toda a trama era uma espécie de embuste. No mínimo, questionável.
Uma curiosidade é a divisão da trama em quatro capítulos que fazem referência aos conceitos estabelecidos pelo psicanalista Carl Jung à respeito da estrutura da psiquê humana. São eles: A Persona, A Anima e o Animus, A Sombra e O Eu. A Persona é a “máscara” que usamos para o mundo exterior, atendendo às demandas socio-culturais; a Anima e o Animus são os arquétipos que representam o lado oposto do nosso gênero presente no inconsciente (para o homem é o feminino e para as mulheres, o masculino); a Sombra é a parcela do nosso inconsciente onde estão os instintos menos desejáveis e mais primitivos; já o Eu é o arquétipo que representa a totalidade da psiquê, a junção do consciente e inconsciente. É claro que os títulos dos capítulos não foram escolhidos à toa. Esta divisão reflete esta fragmentação da psiquê da personagem e também estabelece os passos da viagem pelo inconsciente da protagonista.
Entretanto, o resultado final é bem razoável e a experiência é muito satisfatória. O tema principal ajuda bastante, já que o sonho é um enigma para grande maioria das pessoas e até mesmo para ciência. Outras produções do gênero sci fi e horror já exploraram o tema, como A Cela (2000), Morte nos Sonhos (1983) e a cinessérie A Hora do Pesadelo (1984).
Para os que se interessaram, enquanto este texto é escrito, Não Feche os Olhos (2020) está disponível no catálogo da plataforma de streaming Prime Video. Em resumo, se você procura uma produção ousada e com estilo mais singular, este filme canadense é um belo pesadelo que vale a pena ser experienciado.