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Frankenstein
Original:Frankenstein
Ano:2025•País:EUA, México
Direção:Guillermo del Toro
Roteiro:Guillermo del Toro, Mary Shelley
Produção:J. Miles Dale, Guillermo del Toro, Scott Stuber
Elenco:Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Kammerer, Charles Dance, David Bradley, Lars Mikkelsen, Christian Convery, Nikolaj Lie Kaas, Kyle Gatehouse, Lauren Collins, Sofia Galasso, Joachim Fjelstrup, Ralph Ineson, Peter Millard, Peter MacNeill

Em seu cinema de beleza e poesia, Guillermo del Toro mostrou que sabe lidar com monstros. A fantasia e o medo caminharam lado a lado, acompanhadas de aberrações, de naturezas obscuras ou conhecidas. Antes de conquistar estatuetas por A Forma da Água (2017), o cineasta já havia mostrado outras criaturas, sejam demônios oriundos de HQs ou vampiros, assombrações, trolls e até baratas humanoides. Dentre todos os monstros que passeiam pela sua filmografia, nenhum deles se mostrou tão eficaz na composição de repulsa como o homem, numa mensagem vista à exaustão, ainda que bem-vinda e funcional.

Nesse sentido a recriação de Frankeinstein surge de maneira orgânica em seu monstruário, deixando a impressão de que a Criatura sempre esteve ali. Pode-se dizer até que foi feita sob medida em sua prateleira, faltando apenas saber em qual altura, se entre os destaques ou escondida por produções mais bem conceituadas. Analisando como cinema com a assinatura de del Toro, trata-se de um trabalho visualmente encantador em uma combinação acertada de fotografia, figurinos e desenho de produção — e não se podia esperar menos que isso. Não há como questionar os aspectos técnicos que circulam pelas mais de duas horas de duração, ainda que o teor gótico seja visto discretamente e o visual do Monstro não tenha agradados a todos os troianos.

Contudo, o que atrai a atenção, além da expressividade de Mia Goth e o carisma de Christoph Waltz, é um roteiro que parece a própria Criatura, montado com partes de ideias que não condizem com o material original. Não que precisasse seguir à risca a obra clássica de Mary Shelley até porque muitos outros cineastas fizeram trabalhos que honraram o texto em adaptações bem fiéis, mas a liberdade criativa pode, de certa forma, incomodar se os caminhos escolhidos não forem os melhores. No caso do roteiro de del Toro, o problema está em seus excessos e até em ferir sua essência.

Frankenstein tem uma relação muito próxima com a paternidade. A Criatura, feita a partir de cadáveres, caminha por um limiar entre a compreensão sobre sua própria concepção e a conexão com o seu criador. O pai ausente incomoda tanto quanto entender o seu papel no mundo. E ela alcança sua humanidade quando é vista com outros olhos, além de um ser grotesco, abandonado e quase destruído, percebendo que precisaria buscar outros caminhos, desde que tenha uma companhia. E talvez sejam esses caminhos que permeiam as escolhas incorretas.

Em 1857, com a embarcação presa no gelo das águas congeladas do Polo Norte, o Capitão Anderson (Lars Mikkelsen) e seus tripulantes encontram um ferido Victor Frankenstein (Oscar Isaac) sendo perseguido por um homem resistente e muito forte (Jacob Elordi). Depois que conseguem fazê-lo submergir, Victor começa a relatar sua jornada, desde a infância, atravessando o desespero da perda da mãe, seus experimentos para criar vida. Em 1855, no Royal College of Medicine, ele mostra o busto de um cadáver e o reanima com eletricidade, sendo considerado uma abominação profana por todos, exceto o rico Harlander (Christoph Waltz), que planeja auxiliá-lo nas pesquisas almejando uma troca no futuro.

Afastado do irmão William (Felix Kammerer) desde a infância, no reencontro, ele se encanta por sua noiva, Elisabeth (Mia Goth), trazendo o casal para o seu laboratório, numa torre, após procurar cadáveres dentre os enforcados ou nos destroçados pela guerra, compondo um ser absoluto que, com o auxílio da eletricidade, logo ganha vida. Victor opta por mantê-lo acorrentado no subterrâneo, tentando ensinar algumas palavras até tratá-lo com desprezo, atribuindo a morte de Harlander a uma ação dele. Mesmo com o fascínio de Elisabeth para saber mais sobre o Monstro, Victor desdenha de seu feito, arrependido, pensando em exterminá-lo.

A segunda parte do longa conta as experiências do Monstro após fugir da torre em destruição para buscar abrigo com uma família de camponeses, principalmente um homem cego (David Bradley), com quem aprende a ler, durante os ensinamentos para a pequena Anna-Maria (Sofia Galasso). Ali, ele perceberá sua capacidade de regeneração, entenderá sua concepção e buscará Victor, almejando uma companheira. Como se percebe, tragédias irão acompanhar o Monstro em sua trajetória até a perseguição pelos ambientes gélidos.

A versão de del Toro segue a linha narrativa conhecida na mesma proporção que se esquiva da fidelidade ao material original. Opta por transformar Victor Frankenstein em um vilão tenebroso, movido pelo egocentrismo até se perder na insanidade de seu poderio intelectual. Acentua a simbologia do homem como o verdadeiro monstro, desde a apresentação de seu pai, Leopold (Charles Dance), com uma aparente preferência pelo filho mais novo — William aqui não é apenas uma criança como no texto, e ele ainda rouba Elisabeth do triângulo que formaria com o Monstro e Victor. Por fim, há o acréscimo de Harlander ao enredo, sem que ele chegue a figurar como o Igor, do imaginário popular, ou o Fritz, da versão teatral de 1823.

Dentro de seus excessos, incluindo a longa duração, estão a capacidade regenerativa do humanizado Monstro e os efeitos digitais artificiais, além da necessidade de referenciar Percy Shelley como uma justiça tardia ou verbalizar sobre as virtudes da humanidade. Dividir a obra em duas partes, a partir de dois narradores, deixa a dúvida sobre a franqueza de seus contadores, não presentes em todos os momentos narrados, sem o contraponto que poderia nascer daí. Quando o Monstro resolve mostrar sua versão, deixa a impressão de que o que fora mostrado antes será recontado por outro prisma, sendo apenas um complemento da primeira parte.

A caracterização da criatura, considerada bela demais por alguns críticos para alguém composto por partes mortas, não me incomodou, tanto quanto os excessos poéticos do enredo. Se a imagem cansativa de Goth é passível de ser criticada, Oscar Isaac faz um Victor convincente, envolto em loucura, genialidade e paixão. E nem precisa tecer elogios sobre Waltz, bem melhor do que quando precisou encarar Drácula, naquele filme ruim de Luc Besson.

Distante de ser um trato definitivo da obra, o Frankenstein de del Toro tem seus méritos, mas também — desculpe o trocadilho — é carente de energia, algo que possa marcar profundamente na pele do infernauta com uma importância significativa no universo das adaptações. É uma versão encantadora em um nível artístico de excelência para ser admirada uma vez só, sem que seus defeitos saltem das águas frias.

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