![]() Medo
Original:Angst
Ano:1983•País:Áustria Direção:Gerald Kargl Roteiro:Gerald Kargl, Zbigniew Rybczynski Produção:Gerald Kargl, Josef Reitinger-Laska Elenco:Erwin Leder, Robert Hunger-Bühler, Silvia Ryder, Karin Springer, Edith Rosset, Josefine Lakatha, Rudolf Götz, Claudia Schinko |
Aparentemente inspirado na vida do serial killer austríaco Werner Kniesek, o filme Medo, de Gerald Kargl, consolida uma das mais inquietantes representações de um assassino em série no cinema. Sem glamourizar a violência, o longa chega às bordas de um horror existencial ao mergulhar no cotidiano brutal de seu protagonista, expondo o vazio moral que sustenta suas ações.
De cara, já somos apresentados ao nosso anfitrião, o assassino não identificado (Erwin Leder). É ele quem nos introduz em sua jornada e nos guia pelos corredores de sua vida, a qual acompanhamos de camarote narrada sob sua perspectiva. Algo muito parecido com o que Lars von Trier faria anos depois em A Casa que Jack Construiu, só que sem o excesso de artifícios decorativos.
O resultado é uma cinematografia crua, que preza pelo realismo, entre outras características que rapidamente se destacam em Medo: a câmera caminhante que segue o protagonista como se tivesse acoplada ao corpo dele; a narração de seus pensamentos e reflexões, que amplificam muito seus movimentos em cena e destacam ainda mais a surpreendente atuação de Erwin Leder, repulsivo como os mascarados do cinema comercial nunca conseguiram ser sem forçar a barra; entre outros detalhes que lançam uma veracidade constrangedora em cena.
Mas voltando, o assassino sem nome acabou de sair da prisão, após mais de um de seus sucessivos períodos na cadeia. A perspectiva do roteiro, no entanto, não o vê como um bandido convencional. O tempo inteiro sabemos que o assassino sem nome é uma pessoa doente, com um compulsão sexual em possuir corpos humanos de todas as formas, e que inclusive pede ajuda, quando inicia sua jornada de “aceitação” – que não vai exatamente pelo caminho que esperamos.
Já em suas primeiras horas de liberdade, ele “escapa” de matar pessoas em duas situações. Notadamente confuso, com pensamentos que oscilam entre suas “necessidades” e o medo do retorno à prisão, ele se perde nos sentimentos e desdobramentos de um último momento de satisfação.
O ator Erwin Leder faz um trabalho sensacional como o assassino sem nome. Seus olhos agitados e sua expressão confusa alinhadas à narração em off que o tempo inteiro apresenta seus passos tornam tudo tão angustiante que não tinha como o título do filme ser outro (Angústia – no original).
O ritmo do filme, inclusive, é ditado por essa angústia. A cinematografia, realista e minimalista, crua na medida, suportando longas sequencias de ação, foram suficientes para inspirar algumas referências do nosso tempo. Chris Nash, roteirista e diretor de Uma Natureza Violenta já declarou em entrevistas que Medo foi uma influência direta para seu primeiro longa.
Medo está disponível no Darkflix. É um “invasão de domicílio” brutal. Constrangedor e repulsivo, expõe de forma crua algo muito primitivo e destrutivo que se esconde nas pessoas. Assim como em Henry – Retrato de um Assassino, Medo não apresenta um arco redentor, nem uma solução satisfatória, dispondo ao público apenas um olhar frio e incômodo diante de uma realidade irredutível e aparentemente incontornável.





