![]() A Grande Inundação
Original:Daehongsu / The Great Flood
Ano:2025•País:Coreia do Sul Direção:Byung-woo Kim Roteiro:Byung-woo Kim, Moisés Velasco Produção:Chun-Kyoung Kim Elenco:Kim Da-mi, Park Hae-soo, Kwon Eun-sung, Yuna, Kim Min-Gwi, Ahn Hyun Ho, Kim Kyu-na, Jung Min-joon, Park Mi-hyeon, Lee Dong-chan |
por Matheus Santos Rangel
Em 1912, milhares de pessoas iam às farmácias comprar “pílulas anti-cometa”, pois a mídia defendia que os gases tóxicos de Halley, que então passava pela Terra, acabariam com a vida no planeta. Algum tempo depois, em 1938, os marcianos de A Guerra dos Mundos causavam pânico e destruição nas ruas, embora jamais tenham sido capazes de escapar do rádio. Em 2000, um enorme bug provocaria o colapso de todos os computadores do mundo; no entanto, o milênio comemora agora seu vigésimo sexto ano, apesar de tudo. Em 2012, nosso mundo acabou… (ou os maias apenas ficaram sem folhas no calendário!)
Em A Grande Inundação, a humanidade enfrenta seu mais inédito cataclisma: um meteoro caí nas geleiras polares, elevando o nível d’água e provocando intensas tempestades. Não demora muito para que ferozes tsunamis cubram o globo terrestre, provocando a destruição do mundo como conhecemos. Nesse pandemônio aquático, uma cientista tenta escapar junto de seu filho, enquanto um misterioso homem a guia naquilo que supostamente não é apenas sua salvação individual, mas sim de toda raça humana.

Quando decidi assistir ao mais novo filme de Byung-woo Kim, que também assina a direção do excelente thriller The Terror Live, já imaginava que se trataria de um iceberg profundo, considerando que outras de suas produções seguem a mesma cartilha de surpreender o telespectador, que frequentemente acredita estar ciente daquilo que está prestes a consumir, apenas para ser surpreendido. Aqui, o que parece ser mais um filme sobre desastres naturais toma um rumo inédito. Passadas as primeiras cenas introdutórias, A Grande Inundação se revela como uma ficção científica das mais mirabolantes, que talvez penda demais para a megalomania.
Com toda certeza, os melhores momentos dessa produção são as reviravoltas da trama, que sempre proporcionam aquele sentimento de novidade. Durante o desenrolar dos eventos, a única constância é que algo novo está prestes a acontecer, e isso cria um dinamismo único à experiência. O mistério geral é interessante e a progressão dos eventos é satisfatória; não demora até que as situações em que os personagens de Kim Da-mi e Park Hae-soo se tornem cada vez mais desesperadoras, adicionando camadas de tensão à aventura. No entanto, por mais que o corre-corre e grita-grita geral entretenha por alguns minutos, o desenrolar do projeto parece infelizmente nos levar a um oceano de nada-nada (ok, essa foi péssima…)
Se mergulharmos mais fundo, é fácil notar que A Grande Inundação deseja abordar temas mais complexos do que simples catástrofes naturais e melodrama asiático: o ponto central da história está na relação entre uma mãe e seu filho. Quando pensamos nas constantes notícias envolvendo a queda da taxa de natalidade no continente, torna- se fácil correlacionar os assuntos. O roteiro, então, decide misturar essa discussão a clonagens, avanços da inteligência artificial, simulações à la Matrix e, claro, tsunamis, criando uma mistureba amorfa que, no fim, não consegue dizer muito além do óbvio. E, se a intenção é convencer os sul-coreanos a terem filhos, com certeza o carisma de Kwon Eun-sung causa o efeito contrário, porque eu não consigo pensar em uma criança que me irritou tanto antes (e olha que eu já dei aulas em salas lotadas, no ensino fundamental e médio!)
Tão profundo quanto uma piscina rasa, A Grande Inundação pode até entreter, mas dificilmente vai além. As cenas de ação bem coreografadas e as sequências de desastre mantêm um ritmo coeso; o roteiro, porém, frustra quem deseja embarcar nos elementos sci-fi apresentados e, de quebra, ainda pode espantar aqueles que só queriam relaxar vendo algumas catástrofes terríveis que talvez voltem a nos assombrar, em um futuro não tão distante (alô, aquecimento global!)
Muito mais complicado do que precisava ser — ou talvez mais simples do que o necessário —, A Grande Inundação encontra sua melhor definição naquela expressão que costumamos usar diante de algo que não agrada, mas também não ofende: “nhé”.




