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Jantar Secreto
Original:Jantar Secreto
Ano:2016•País:Brasil
Autor:Raphael Montes•Editora: Companhia das Letras

por Juliana C.V. Fernandes

Até onde estamos dispostos a ir em prol do nosso próprio benefício?!

Jantar Secreto é um livro difícil de digerir. Quatro jovens amigos deixam a pequena cidade de Pingo d’Água rumo às grandes faculdades do Rio de Janeiro. A mudança de cidade, a divisão do apartamento e o começo da vida adulta são apresentados de maneira leve e cotidiana, cheios de sonhos e projetos. Porém, alguns imprevistos e uma dívida enorme colocam tudo em risco.

É aí que surge, como uma brincadeira de mau gosto, a ideia de organizar um jantar com carne humana. Um único jantar acabaria com toda a dívida e, com um médico no grupo, seria fácil arranjar um corpo, sem matar ninguém. Aos poucos, a brincadeira passa a parecer a única saída. O que eles não esperam é tudo o que começa a surgir a partir desse jantar.

A escrita única de Raphael Montes faz você se imaginar no lugar de cada personagem e se perguntar se, naquela situação, não tomaria decisões semelhantes. O que mais assombra no livro é reconhecer nossas próprias emoções e humanidade em personagens capazes de atos tão desumanos. Com cenas que beiram o gore e descrições vívidas e detalhadas, é um livro que causa asco e repulsa.

E, como se não bastasse, o livro nos obriga a encarar uma série de preconceitos e racismos enraizados na sociedade brasileira. Isso fica claro no parágrafo que viralizou nas redes sociais:

“O Brasil já exporta muita coisa, Dante. Carnaval, futebol, caipirinha e mulata. Mulher gostosa, puta. Está na hora de exportar gastronomia. Tem gente de sobra no mundo. A China está toda fodida com a superpopulação. A África, a Índia… Já viu quanto mendigo tem por aí? E as favelas? Parecem formigueiros! Ainda tem essa cambada que vagabundeia e vive de subsídio do governo. Bolsa Família, cotas, nem sei mais o quê. Pega essa gente toda e fatia. Faz bife. Carpaccio. Pobre à milanesa. Vai revolucionar a cozinha no mundo. E vai dar uma esvaziada boa, uma limpada.”

Um livro que vai muito além do canibalismo, despertando curiosidade e fazendo você torcer para que os personagens consigam sair dessa encrenca absurda, enquanto aponta problemas estruturais da sociedade com humor ácido e um final extremamente chocante e imprevisível, daqueles que fazem questionar se o autor é um gênio ou um psicopata.

Para quem tem estômago forte e apetite por terror psicológico, esse livro é o cardápio completo.

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