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A Freira Sangrenta do Mosteiro de Santa Catarina
Original:The Bleeding Nun of St. Catherine's
Ano:1801•País:UK
Autor:T. I. Horsley Curties•Editora: Sebo Clepsidra

“…ele viu, parada em pé ao lado de sua cama, a pálida figura de uma forma feminina, vestida com hábitos de freira e segurando numa das mãos uma vela, enquanto o outro braço sustentava a forma medonha de um bebê morto reclinado sobre o peito”.

Na literatura controversa de Matthew Gregory Lewis, “O Monge“, publicada em 1796, a passagem sobre a Freira Sangrenta é uma das mais interessantes e curiosas por se tratar de um capítulo sobrenatural à parte da narrativa do polêmico Ambrósio. Lewis confessou que a inspiração advinha de um manuscrito alemão, evocado na produção escrita de Johann Karl August Musäus (1735-1787), a partir da compilação satírica “Volksmärchen der Deutshen“, publicada em cinco volumes entre 1782 e 1787. No conto “Die Entführung” (O Sequestro), lançado em 1787, ele conta sobre o fantasma de uma freira no Castelo de Lauenstein, local onde vive a infeliz Emilie, apaixonada pelo soldado Fritz. Ao tentar resgatá-la, em um plano em que ela fingiria ser a assombração, ele erroneamente leva consigo a entidade em vez da amada, similar ao que aconteceria com Agnes, no Castelo de Lindenberg.

A inspiração seria também vista na produção escrita do britânico Thomas Isaac Horsley Curties (também creditado como T. J. Horsley Curties). “A Freira Sangrenta do Mosteiro de Santa Catarina” (The Bleeding Nun of St. Catherine’s) é um excerto do conto gótico “As Ruínas da Abadia de Fitz-Martin”, que por sua vez faz parte do romance “Ancient Records, or, The Abbey of Saint Oswythe“. É a chamada narrativa emoldurada, também conhecida como “história dentro da história“. Ambos os trechos compôem a antologia “Romances and Gothic Tales“, lançada em 1801, e editada por Ann Lemoine, uma livraria e editora britânica de chapbooks especializada em Gothic Blue Books, disponibilizando noveletas, histórias curtas e trechos avulsos, em um serviço que ajudou na disseminação do horror gótico. Apesar de serem excertos, não constituindo enredos completos, valem alguns bons arrepios, compensando a busca pelas publicações no Sebo Clepsidra através da série Raridades do Conto Gótico, com apresentação contextualizada de Cid Vale Ferreira e tradução de Carlos Primati.

Em dado momento de “As Ruínas da Abadia de Fitz-Martin”, Rosaline, a filha do barão Fitz-Martin, encontra numa torre decrépita um manuscrito sobre a Freira Sangrenta. Ela fica sabendo da trajetória infeliz de Anna, filha do inescrupuloso Sir Emanfred, durante o reinado de Eduardo I. A jovem está sendo condenada pelo pai a se casar com o nobre Lorde Osmand, algo que ela considerava um destino horroroso, uma vez que “ela não tinha seu coração disponível“, pois havia conhecido nas sombras de um bosque o estranho Vortimer. Sem conhecê-lo bem, mesmo assim a garota se entregou de corpo e alma para aquele que poderia lhe trazer a salvação, unindo-se em núpcias secretas, com o apoio de um monge do mosteiro.

O fidalgo, tomado pela fúria, não aceitou a união de sua filha com um estranho e ainda anunciou que em três dias ela iria se casar obrigatoriamente com o Lorde. Anna procurou pelo amado nas matas e bosques, mas só encontrou uma resposta embaixo de seu travesseiro: uma carta pedindo que ela fuja para o mosteiro de Santa Catarina e lá aguarde pela vinda de seu salvador Vortimer. Ela assim o fez, sendo mal recebida pela arrogante abadessa, que insistia que ela só se estabeleceria ali se fizesse seus votos de uma vida monástica. Sem alternativas, envolta em absoluta infelicidade, Anna aceitou a condição, revelando posteriormente pela mudança física que estaria grávida.

Mais uma vez condenada, desta vez a ter que habitar as profundezas da masmorra do mosteiro, sem alimentação, para que pense no que fez até o fim de seus dias, evitando assim que suas ações maculem a instituição, a sofredora Anna morre, juntamente com o seu bebê, restando a ela uma vingança sobrenatural contra o “falso Vortimer“, visitando-o do além para perturbá-lo em vida. Se ela foi esquecida por ele em vida, agora, depois de morta, ele jamais a tirará da lembrança.

Essa passagem tétrica, no monólogo aterrorizante da alma penada, também é recordada na obra “O Monge“, quando Agnes, depois de perder mais uma vez seu amado Raymond, vai parar no convento onde, depois que descobrem sua gravidez, sofre torturas físicas e psicológicas, sendo mandada para os confins do mosteiro para um destino cruel. Contudo, durante a revolta da procissão, o irmão dela Lorenzo a salva da morte para um final mais otimista do que o proposto por Curties. Lewis optou por transformar sua Freira Sangrenta em um inferno pessoal de Raymond, até ele descobrir meios de colocar o fantasma para finalmente descansar.

A Freira Sangrenta do Mosteiro de Santa Catarina” é um conto de horror sobrenatural para ser contado em fogueiras e festas do pijama para despertar arrepios. É uma narrativa curta, rápida, com um contexto que expressa a época, quando as mulheres eram oprimidas e obrigadas a viver conforme as regras dos homens, principalmente os nobres. Traz elementos góticos, desde a descrição das matas até o mosteiro, em um enredo simples mas que vale a pena conhecer para quem aprecia a gênese da literatura gótica, que se espelhou entre autores e ajudou na construção do gênero.

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