![]() As Ruínas da Abadia de Fitz-Martin
Original:The Ruins of the Abbey of Fitz-Martin Ano:1801 •País:UK Autor:Thomas I. Horsley Curties•Editora: Sebo Clepsidra |
A velha abadia de Fitz-Martin carrega uma lenda sobre uma figura fantasmagórica feminina, vestida com hábito, que circula pelos cômodos em um ruído tétrico, carregando uma vela e um bebê natimorto. Este é mais um dos contos góticos que ajudaram a moldar o gênero e serviu de influência para outros autores, ainda que também não seja muito original. Temos conhecimento desse fragmento de horror graças a Ann Lemoine, que, em 1798, estabeleceu-se em Londres e produziu um catálogo de mais de 400 chapbooks e bluebooks, dando visibilidade para autores como Sarah Wilkinson e Thomas Isaac Horsley Curties. Entre suas produções, destaca-se a antologia Romances and Gothic Tales, de 1801, com seis excertos, incluindo os dois primeiros, “As Ruínas da Abadia de Fitz-Martin” e “A Freira Sangrenta do Mosteiro de Santa Catarina“, que fazem parte de um mesmo universo.
Ambas as histórias, escritas por Curties, estão conectadas e estabelecem o que a literatura chama de “narrativa emoldurada” ou “história dentro da história“. É a gênese do link, como se o leitor estivesse lendo sobre “As Ruínas da Abadia de Fitz-Martin” e clicasse no título “A Freira Sangrenta do Mosteiro de Santa Catarina“, para saber mais sobre algo mencionado. Uma estratégia que traz uma imersão curiosa a todo um conteúdo, e que, de certa forma, obriga quem está lendo a buscar a conexão para uma compreensão absoluta do que está sendo narrado.
As primeiras páginas de “As Ruínas…” conta a história da abadia de Santa Catarina em seus momentos áureos, quando um de seus senhores, um barão sem escrúpulos, exigiu enorme quantia para que o local continuasse servindo de apoio à guerra entre Eduardo I e os escoceses, alegando que o mosteiro foi maculado pela ação de uma freira que teria desrespeitado seu celibato vestal — o leitor que já conhece o prelúdio desta já sabe se que trata da infeliz Anna, de “A Freira Sangrenta…“. Como o monarca não aceitou as condições, ele revelou toda a verdade, criando atritos e investigações até ter o absoluto controle do local, transformando-o numa residência principesca, aproveitando as regalias do que lhe foi oferecido, até que a assombração conhecida como Santa Anna passasse a lhe incomodar até seus últimos suspiros.
Atravessando gerações e herdeiros, o local foi completamente abandonado sob o domínio da lenda que o envolvia. O último de seus proprietários foi Thomas Fitz-Martin, que, após a morte de sua esposa, resolveu assumir o lugar como refúgio de suas dores, levando consigo funcionários supersticiosos e a filha curiosa Roseline. Boa parte das páginas seguintes são dedicadas à chegada de Sir Fitz-Martin, no encontro a um ambiente inóspito, circundado por matas e sons desconcertantes, com o autor descrevendo a abadia e apresentando os temores pelas lendas conhecidas, além da busca por uma reforma e estadia.
Disposta a conhecer a trágica história de Anna, Rosaline resolve se aventurar numa torre decrépita, acreditando que ainda existam registros e documentos com narrativas sobre a temível freira fantasma. E essa busca vai trazer um encontro com o espectro e ainda estabelecer a conexão com o conto seguinte, “A Freira Sangrenta do Mosteiro de Santa Catarina“, que traz semelhanças óbvias com a publicação polêmica de Matthew Gregory Lewis, “O Monge“, publicada em 1796, em duas passagens. Curties se mostra um bom contador gótico, com descrições que focam nos aspectos aterrorizantes, como o ossuário presente no último leito de Anna. Contudo, é lembrado pelo plágio de autores como Lewis e Ann Radcliffe, até mesmo na sua última publicação, “O Monge de Udolpho” (1807), um amálgama das obras “O Monge” (1796) e “Os Mistérios de Udolpho” (1794).
Se a própria trama do monge Ambrósio já traz características da literatura de Radcliffe e resgatava o episódio da Freira Sangrenta do alemão Johann Karl August Musäus, isso evidencia o quanto autores góticos se espelhavam em suas criações, recriando conceitos ainda que explore novos arrepios. Para quem se interessar em conhecer a gênese do horror gótico, vale a pena buscar esses livretos no site do Sebo Clepsidra, com apresentação contextualizada de Cid Vale Ferreira e a tradução de Carlos Primati.



