![]() Lá Fora
Original:Outside
Ano:2025•País:Filipinas Direção:Carlo Ledesma Roteiro:Carlo Ledesma, Anton Santamaria Produção:Paul Soriano, Mark Victor, Bianca Trinidad, Simon Heo, Jose Arturo Tugade Elenco:Sid Lucero, Beauty Gonzalez, Marco Masa, Aiden Tyler Patdu, James Blanco |
por Matheus Santos Rangel
Para começo de conversa: eu sou obcecado por zumbis.
Não importa se são os haitianos enfeitiçados de Zumbi Branco, os consumistas incansáveis de Despertar dos Mortos ou os corredores ensandecidos de Guerra Mundial Z; se tem morto-vivo na tela, pode ter certeza de que estarei assistindo — e, na maioria das vezes, torcendo pelos monstros! Talvez eu devesse procurar um psicólogo e investigar de onde vem essa fascinação por criaturas infernais devorando seres humanos? Muito provavelmente. Mas, enquanto não descubro uma cura para esse vírus — ou, quem sabe, para esse antigo encantamento — que me assola, decidi assistir a mais uma produção do subgênero. E, desta vez, o resultado foi surpreendente.
De tanto assistir a esses bichos mastigando gente, acabei, inevitavelmente, conhecendo os famigerados clichês que cercam projetos do tipo. Eles são muitos e foram tão repetidos e consolidados ao longo do tempo que hoje é quase impossível encontrar alguma produção que ofereça o mínimo de novidade dentro desse nicho zumbilesco. Sempre tem aquele personagem que esconde a mordida até ser tarde demais, o momento em que alguém faz barulho e atrai uma horda inteira, o sacrifício heroico às vésperas do final… e por aí vai. Por sorte, esse não é o caso de Lá Fora, produção filipina que aposta em caminhos menos óbvios para revitalizar o subgênero.
Na trama, habilmente dirigida por Carlo Ledesma, uma família busca abrigo em meio ao apocalipse zumbi. Ao se depararem com a aparente segurança da antiga casa onde o patriarca do grupo passou a infância, não demora para que descubram perigos ainda maiores à espreita.
Sem dúvida, a grande força do projeto está em seus personagens. Os holofotes recaem sobre Sid Lucero, mas todo o elenco se destaca ao transpor o roteiro para a tela com entrega e precisão. Diferente de muitas narrativas do gênero, Lá Fora se interessa por temas infinitamente mais pesados do que a violência gráfica, tão comum nesse tipo de produção. Aqui, é o terror psicológico que assume o protagonismo. Abuso infantil, ciclos de violência, machismo estrutural e outras temáticas degradantes são exploradas sem pudores; o filme não hesita em encarar o abismo e saltar em sua direção, afundando-se progressivamente na loucura.
As interações entre os atores sustentam a tensão mesmo quando os mortos-vivos não estão em cena. Ainda assim, quando as criaturas finalmente surgem, o resultado é um verdadeiro espetáculo de horror. Amparados por uma composição de cenas afiada, maquiagem caprichada e uma integração eficaz entre efeitos práticos e digitais, os zumbis de Lá Fora guardam ainda uma cartada na manga; para além de grunhidos e rosnados, as bestas apresentam uma característica inédita — e mais do que bem-vinda à mitologia zumbi: enquanto caçam suas vítimas, cerrando os dentes amarelados, gritam as últimas palavras que disseram em vida, antes da transformação. O resultado são momentos de pura adrenalina, em que os personagens fogem em disparada de perseguidores que berram, aos quatro ventos, frases desconcertantes — que, com toda certeza, garantem aquele friozinho na barriga do espectador. É um detalhe brutal, que adiciona uma camada extra de horror à experiência.
Possivelmente, a lentidão do filme represente um obstáculo para os mais ávidos por ação e, em alguns momentos, determinadas cenas se estendem de maneira tão antinatural que acabam soando enfadonhas. Há sequências que parecem testar a paciência e a suspensão de descrença do espectador, afetando diretamente no desenrolar da trama. Ainda assim, considero Lá Fora uma grande experiência para quem, assim como eu, estava faminto por novidades no subgênero zumbi — e, por que não, por uns nacos de carne de família desestruturada!





