Zumbi Branco (1932)

Zumbi Branco (1932) (3)

Zumbi Branco
Original:White Zombie
Ano:1932•País:EUA
Direção:Victor Halperin
Roteiro:Garnett Weston, William Seabrook
Produção:Edward Halperin, Phil Goldstone
Elenco:Bela Lugosi, Madge Bellamy, Joseph Cawthorn, Robert Frazer, John Harron, Brandon Hurst, George Burr Macannan, Frederick Peters, Annette Stone, John Printz, Dan Crimmins, Claude Morgan, John Fergusson, Velma Gresham

O ano era o de 1968 quando George Romero dirigiu um dos filmes que definiria o gênero terror. A Noite dos Mortos-Vivos mostrava um grupo de sete pessoas trancadas em uma fazenda enquanto zumbis comedores de carne humana estavam do lado de fora. Independente das (ótimas) críticas sociais, a obra de Romero colocou os zumbis em destaque no gênero e nunca mais eles voltaram para as suas tumbas. Desde então, filmes com os mais variados tipos de mortos-vivos passaram a ser produzidos, alguns com mais destaques ou qualidade do que outros.

No entanto, não foi Romero quem inaugurou a temática dos zumbis no cinema. A estreia dos mortos-vivos aconteceu três décadas antes em uma produção da Universal estrelada por Bela Lugosi. Com o título original de White Zombie (zumbi branca em tradução literal), a trama é bem diferente do estilo que ficou conhecido nas películas onde os mortos costumam se levantar de suas tumbas. Aqui os zumbis não são agressivos ou comedores de carne humana. O enredo traz estes personagens muito próximos de lendas do Haiti, onde a figura do zumbi possui uma interpretação diferente daquela que passou a ser comum no cinema.

De acordo com pesquisadores, costumes e lendas falam que era comum no Haiti a cerimônia conhecida como “venda da alma”. Neste caso, um homem ou mulher negocia com o feiticeiro o espírito de outra pessoa. Após a perda da alma, a vítima começa a ficar fraca e logo morre. Na noite depois do enterro, o bruxo vai até o cemitério com o espírito roubado dentro de uma garrafa e chama o futuro zumbi pelo nome. Este é acordado e como a alma está com o feiticeiro, o morto se torna escravo. Esta é apenas uma das formas de criar um zumbi de acordo com o folclore do Haiti.

Zumbi Branco (1932)

Toda esta mitologia naturalmente serviria de inspiração para o cinema de terror e a trama de White Zombie bebe nesta fonte. No filme, acompanhamos o noivado de bela Madeleine (Madge Bellamy) com Neil (John Harron) e sua chegada ao Haiti. Logo no começo da trama, o casal está seguindo de carruagem para a casa do banqueiro Charles (Robert Frazer), que conheceu Madeleine em uma viagem de navio justamente a caminho do Haiti. Não demora muito para que o cocheiro pare e observe que zumbis estão próximos. O casal não acredita e segue para a casa de Charles.

No meio do caminho, Madaleine é vista pelo misterioso Murder Legendre (Lugosi pós Drácula). O fazendeiro é dono de uma fazenda de açúcar e feiticeiro que transforma homens em zumbis para trabalharem de graça para ele. Não demora para Charles procurar Murder e pedir ajuda para conquistar Madeleine. O personagem de Lugosi sugere transformar a moça em zumbi e os dois partem para colocar o plano em prática. Uma vez transformada em morta-viva, Charles se decepciona com o resultado, já que a mulher está acordada, mas não reage a estímulos e sequer fala. Ele pede para que o feitiço seja desfeito, mas Murder quer Madaleine para ele próprio.

Zumbi Branco (1932) (4)

Zumbi Branco serve hoje como um interessante exercício de análise de uma temática tão recorrente no cinema de terror. Independente do seu valor histórico, o filme é funcional e mantém seu ritmo até o final. Aqui a inevitável comparação é com estes primeiros zumbis, que não possuem maquiagem, não são agressivos, obedecem aos comandos do mestre e não comem pessoas vivas. Na verdade a única questão visual que denuncia os mortos-vivos é referente ao olhar esbugalhado e jeito lento de caminhar.

Também é inegável o destaque da participação de Lugosi. Figura importantíssima do gênero, o ator húngaro que ficou imortalizado como Drácula na produção da Universal de 1931, está muito bem como o feiticeiro Murder. O sotaque ajuda ainda mais na concepção deste fazedor de zumbir. Anos depois o ator teria lamentado que concordou em participar do filme por apenas US$ 800 e apenas quando a produção se mostrou um sucesso foi que ele percebeu que poderia ter recebido um cachê maior.

White Zombie é a adaptação de uma peça chamada apenas de Zombie que estreou nos Estados Unidos em fevereiro de 1932. Uma curiosidade referente ao filme apontada por críticos se dá na questão cultural. Na época das filmagens, o Haiti estava ocupado pelos Estados Unidos. Dentro desta realidade, a população local foi retratada como supersticiosos e ignorantes. Além disso, parte do elenco branco teve o rosto pintado de preto para servirem de extras. Além disso, nenhum ator do filme é do Haiti.

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De qualquer forma, White Zombie tem o seu lugar na galeria dos filmes de terror clássicos por ter sido o que trouxe o tema dos zumbis, embora tão diferentes daqueles idealizados por Romero ou mesmo que fazem tanto sucesso em produções atuais. Curiosamente a sensação que fica ao assistir ao filme hoje é como seria uma releitura atual da película utilizando a temática e o folclore haitiano daqueles que roubam almas e criam zumbis escravos.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

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