![]() THX 1138
Original:THX 1138
Ano:1971•País:EUA Direção:George Lucas Roteiro:George Lucas, Walter Murch Produção:Larry Sturhahn Elenco:Robert Duvall, Donald Pleasence, Don Pedro Colley, Maggie McOmie, Ian Wolfe, Marshall Efron, Sid Haig, John Pearce, Gary Alan Marsh |
Imaginar o futuro deve ser uma das brincadeiras mais divertidas entre os escritores de ficção científica e sonhadores de boteco. Pode-se idealizar um encontro inusitado numa esquina qualquer de nomes como Ray Bradbury, George Orwell, Aldous Huxley e Anthony Burgess num debate acalorado, inspirados nas evoluções científicas de sua época. Carros voadores, robôs altamente eficientes, exploração de planetas e viagens que desafiam a quarta dimensão poderiam passar pelas anotações de guardanapo, assim como a perda da liberdade, governos opressores e a vigilância constante para os mais pés no chão e críticos. Antes de promover guerras estelares, George Lucas desenvolveu em 1967 um curta-metragem de 15 minutos enquanto frequentava a escola de cinema da Universidade do Sul da Califórnia: Labirinto Eletrônico: THX 1138 4EB era uma amostra curiosa de como ele enxergava o futuro.
A produção foi exibida no Festival Internacional de Cinema de Edimburgo e conquistou prêmio no Festival Nacional de Cinema Estudantil, atraindo elogios de Steven Spielberg. Dois anos depois, Lucas já resenhava ideias para uma versão em longa-metragem, sendo esculpida posteriormente por Walter Murch, com o apoio de investimento de Francis Ford Coppola. Rodado entre 35 e 40 dias, exigindo que todo o elenco raspasse a cabeça em ações publicitárias inusitadas, o filme foi apresentado a Warner Bros., que não curtiu o resultado. Mesmo assim, foi lançado nos cinemas em 11 de março de 1971, com pouco interesse do público. Considerado um imenso fracasso comercial, com algumas críticas mistas sobre seu conteúdo distópico, quando George Lucas dirigiu Star Wars, THX 1138 teve mais uma chance de angariar admiradores, alcançando o famigerado status cult, uma condição que muitos cineastas odeiam por razões financeiras.
O conceito futurista apresenta um mundo de imensas restrições em que as pessoas são apenas peças de uma engrenagem, nomeados com prefixos, tendo seus sentimentos suprimidos por drogas. Devido à importância produtiva, com aparências similares envolvendo cabeças raspadas e uniformes brancos, as pessoas desse século 25 residem no subterrâneo, sendo impossibilitadas de se reproduzirem ou terem relações sexuais. Todo controle é feito por câmeras, encontros em confessionários com o cristão OMM 0000 (na voz de James Wheaton), guardas androides e vigilantes como SEN 5241 (Donald Pleasence) e LUH 3417 (Maggie McOmie), cujo parceiro de acomodação é o que leva o título do filme: THX 1138 (o recém falecido Robert Duvall).
Enquanto a Voz elogia a baixa perda de funcionários, THX trabalha na construção de androides e confessa estar se sentindo estranho, como se os medicamentos não estivessem funcionando adequadamente. Assistindo dançarinos holográficos para se masturbar e cenas de androides agredindo funcionários para controlar seus pensamentos, ele não percebe que sua colega de quarto está trocando os sedativos, fazendo-o ter desejos pelo contato de pele, culminando em um ato sexual, observado por SEN. Este faz um ato ilegal de troca de colega de quarto, colocando-o no lugar de LUH, para preservar as novas sensações — e discutivelmente por interesses próprios.
Quando THX comete um erro no trabalho, é colocado em “bloqueio mental” para depois ser conduzido a um julgamento e prisão. Os juízes não planejam destruí-lo — não usam o termo “matar” como se referisse a uma máquina disfuncional —, mas observar as mudanças químicas de seu corpo, submetendo-o a diversos testes. Como LUH também foi presa, eles têm um novo encontro sexual em uma prisão infinita na composição de um ambiente completamente sem cores, local onde revela sua gravidez e finalmente são afastados. Com a denúncia de THX, SEN também é preso, com alimentação controlada, e outros colegas, em pensamentos reflexivos e passivos à condição em que estão. THX planeja então sua fuga, buscando meios de alcançar o lado externo, considerado perigoso e inabitável.
Como se nota, THX 1138 é um experimento científico, um estudo do comportamento humano. Além de referenciar obras como a vigilância de 1984 e a manipulação psicológica de Admirável Mundo Novo, o trabalho de George Lucas retrata uma geração do final dos anos 60 que buscava todas as formas de liberdade e temia governos autoritários, com viés na história política mundial. Com reprodução de trechos do discurso de Richard Nixon nas falas de SEN, o filme promove reflexões sobre o Estado de Direito e o Comunismo, propondo uma crónica de um futuro não tão distante em que as pessoas se desenvolvem como peças de uma máquina, servindo aos interesses produtivos.
Mesmo sem uma análise mais aprofundada, pode-se elogiar a estrutura da narrativa, que, apesar de se conduzir friamente, traz a gradual transformação de uma máquina em um ser humano, com sentimentos e desejos. Duvall apresenta um protagonismo reflexivo, silencioso e observador, esperando o momento certo de sair de sua condição engessada para lutar pela liberdade — apesar da importância do filme, está bem distante de suas melhores atuações. Quem realmente se destaca na interpretação é Donald Pleasence, numa performance que é exatamente o contraponto do protagonista: falante, pouco ousado e consciente. E há méritos também a Maggie McOmie, como a apaixonada LUH, a garota que irá corromper o sistema em prol de uma paixão notada pelo seu olhar, pelo toque — uma pena que a atriz não tenha tido uma carreira mais sólida no cinema. Com um olhar mais atento, você poderá notar a participação discreta do também falecido Sid Haig, o Capitão Spaulding de A Casa dos 1000 Corpos.
Lançado no mesmo ano de outras produções significativas de ficção científica como Matadouro 5, O Enigma de Andrômeda, A Última Esperança da Terra e Laranja Mecânica, THX 1138 deve também ser visto como é: um clássico do gênero, mesmo envolto em simplicidade sob camadas política e experimental. Vale a pena conhecer o primeiro trabalho dirigido por George Lucas e também rever os saudosos Robert Duvall e Donald Pleasence, enquanto olha pela janela e aguarda a travessia de algum carro voador.






