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Calls
Original:Calls
Ano:2021•País:EUA, França
Direção:Fede Alvarez
Roteiro:Fede Alvarez, Aidan Fitzgerald, Noah Gardner, Timothée Hochet, Nick Cuse, Rodo Sayagues
Produção:Aaron Greenberg, Alexei Tylevich
Elenco:Aubrey Plaza, Clancy Brown, Nika Futterman, Matt Lauria, Salli Saffioti, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Paul Walter Hauser, Mark Duplass, Rosario Dawson, Nicholas Braun, Stephen Lang, Judy Greer, Lily Collins, Pedro Pascal, Jennifer Tilly, Fede Alvarez

Tem uma lei não escrita no horror que sobrevive a qualquer geração de cineastas: o que não se vê assusta mais do que o que se mostra. Hitchcock sabia disso quando preferia mostrar a bomba debaixo da mesa a fazê-la explodir. Toda uma linhagem de diretores depois dele aprendeu a mesma coisa: a imaginação do espectador é mais cruel do que qualquer efeito especial que o orçamento pague. Calls, a minissérie de 2021 criada por Fede Álvarez, diretor de Evil Dead (2013), Não Respire (2016) e Alien: Romulus (2024), parte exatamente daí e leva a premissa às últimas consequências com uma ousadia que raramente se vê no audiovisual, e mais raramente ainda se executa tão bem.

A minissérie nasce como remake de uma produção francesa de mesmo nome, criada por Timothée Hochet. A original foi um fenômeno de nicho: aclamada pela crítica especializada como uma experiência sem precedentes no formato televisivo, mas construída sobre um princípio ainda mais radical do que o remake. Para Hochet, o que as pessoas não conseguem ver é mais aterrorizante do que qualquer coisa que possam assistir. A série francesa funcionava como um drama de rádio puro: gravações de caixas-pretas de avião, fitas de gravador, mensagens de secretária eletrônica, ligações para a polícia, tudo testemunhando eventos trágicos de épocas diferentes, todos conectados a um grande evento iminente. O aspecto visual era deliberadamente quase inexistente. A aposta era total na imaginação do ouvinte, e nada mais.

Quando a Apple TV+ adquiriu os direitos em 2018 e chamou Álvarez para dirigir, estava contratando alguém que havia construído uma carreira comprimindo terror em espaços fechados e situações de limitação extrema. É só lembrar de como ele, em Não Respire, transformou um porão e um cego em um universo inteiro de suspense. Então, a pergunta que ficava no ar era meio que óbvia: o que esse cara faria com uma forma ainda mais crua? Sem atores para filmar, sem cenários, sem iluminação? A resposta de Álvarez foi não simplesmente traduzir o conceito e o idioma originais, mas introduzir uma camada que muda tudo: os visuais abstratos.

Antes de seguir em frente, vale estabelecer o critério dessa crítica aqui: Calls será avaliada pelo que se propôs a ser, e não pelo que o espectador imaginaria que iria encontrar. Essa distinção importa mais aqui do que em qualquer outra obra, porque Calls é exatamente o tipo de projeto que pode provocar uma rejeição imediata em parte da audiência, uma rejeição que diz mais sobre expectativas frustradas do que sobre falhas reais da série. Taxá-la de “podcast glorificado” é o mesmo que condenar Janela Indiscreta (1954) por ser um filme de um homem sentado numa cadeira. A restrição formal não é o problema: ela é a matéria-prima.

Calls tem nove episódios, cada um com entre 13 e 20 minutos, protagonizados exclusivamente por vozes. O elenco (Aaron Taylor-Johnson, Pedro Pascal, Nick Jonas, Aubrey Plaza, Lily Collins, Rosario Dawson, Karen Gillan, Nicholas Braun, Riley Keough, Judy Greer, entre outros) nunca aparece em tela. O que se vê são formas geométricas, linhas pulsantes, ondas sonoras codificadas em cor e movimento: animações que às vezes representam linhas em um mapa e às vezes se torcem em padrões inidentificáveis. A intenção é clara: usar a linguagem da cor, do movimento e do ritmo para transmitir emoções da mesma forma que um diretor usaria iluminação, enquadramento ou velocidade de câmera, exceto que aqui não há câmera. Há geometria a serviço do terror.

O grande mérito de adicionar esses visuais (em relação à versão francesa, que apostava no escuro total) é também seu ponto mais delicado, e voltaremos a ele. Por enquanto, basta dizer que o resultado, ao menos na primeira assistida, funciona com uma eficácia que surpreende: as formas reagem às vozes, amplificam a tensão, transformam o que seria apenas uma trilha de áudio em um objeto audiovisual coerente. Temos linhas que conectam, temos círculos que se ligam, temos distâncias que transmitem separação. Um banquete digital completo. O equivalente visual de um zumbido grave que vai crescendo.

E na estrutura narrativa é onde Calls mostra sua ambição mais sofisticada. Os episódios parecem, a princípio, histórias independentes, e não vou descrevê-los aqui, porque acredito que já estragaria parte da experiência que seria o equivalente a pousar vendado de paraquedas, e descobrir que está na borda de um vulcão. Mas vale pontuar que cada um tem seu arco, sua tensão, sua textura emocional própria. Mas desde os primeiros episódios há indícios de que talvez as histórias girem em torno de uma verdade maior. Álvarez ainda deu a isso uma estrutura não-cronológica: o primeiro episódio se chama “O Fim“, o que significa que, talvez, o espectador deva prestar bastante atenção desde os primeiros (ou últimos?) momentos.

O design de som, que em qualquer outra produção seria coadjuvante, aqui é o protagonista absoluto. O resultado é uma textura auditiva densa e precisa: as interferências, os silêncios, as quebras na voz, os ruídos de fundo que surgem e somem, tudo calibrado para construir uma atmosfera que nenhum visual tradicional conseguiria com a mesma eficácia. Quando os diálogos tomam direções que soam sobrenaturais, estão ancorados em um terror auditivo completamente tangível. As performances também merecem menção. Trabalhar só com a voz é uma disciplina que a maioria dos atores de cinema raramente pratica isoladamente, e o nível de precisão emocional exigido aqui (transmitir medo, desespero, confusão ou amor apenas pelo timbre, pelo ritmo, pelas pausas) é considerável e o elenco responde à altura. O episódio ambientado no avião, com piloto, comissária, controle em terra e uma criança de voz suave, é um exercício modelar de terror construído só pelo som e pela atuação de voz.

Há episódios mais fortes e mais fracos, o que é inevitável em qualquer formato antológico. Alguns repetem o mesmo tipo de situação, com o “acontecimento” central visto sob a ótica de outras pessoas, sem acrescentar perguntas novas nem responder às que estavam abertas. Nesses momentos a série roda em falso, entregando tensão emocional sem progresso dramático. São episódios que poderiam ser cortados sem que o arco maior perdesse nada.

ALERTA DE SPOILERS

Rever Calls revela camadas que a primeira assistida não alcançava, mas também expõe rachaduras que o encantamento inicial mantinha escondidas.

O primeiro problema que aparece é justamente o que havia sido apontado como virtude: os visuais abstratos. Na primeira vez, as formas geométricas e as ondas pulsantes criam uma textura hipnótica que amplifica a experiência sonora. Na segunda, quando o mistério já está resolvido e a atenção fica mais livre, percebe-se que em vários momentos os visuais distraem dos diálogos em vez de potencializá-los. Há sequências em que a sofisticação da animação acaba roubando o foco de um trecho de texto particularmente denso: você está seguindo o padrão visual enquanto deveria estar processando o que está sendo dito. A versão francesa, em sua aposta radical no som puro, não tinha esse problema justamente porque não competia com si mesma.

O segundo problema é mais estrutural, e é aquele que assombra qualquer produção que precise justificar a existência das imagens, ou o que eu chamaria de o equivalente audiovisual da “câmera ligada” do found footage. Em A Bruxa de Blair (1999), as câmeras estão ligadas não só porque os personagens as estão carregando, mas eles precisavam delas para iluminar a escuridão. Deu para entender: para acreditarmos que alguém estaria filmando aquilo tudo, precisamos de uma espécie de operador diegético. Em Calls, as perguntas equivalentes seriam: quem gravou essas ligações? Como elas chegaram até nós? Por que elas foram, inicialmente, gravadas?

Na primeira assistida, o ritmo e a tensão permitem ignorar essas questões. Mas elas se tornam inevitáveis: num universo que, conforme revelado, se “reiniciou” depois da anomalia temporal, todos aqueles eventos simplesmente não teriam acontecido da forma registrada. As gravações pressupõem um ponto de vista externo à linha do tempo: um arquivo impossível. Há também conversas que jamais teriam sido gravadas ou catalogadas, porque ocorrem em contextos de terror privado sem que nenhum personagem estivesse pensando em registro. E há diálogos que são difíceis de imaginar sendo ditos por telefone, momentos em que o que está sendo comunicado pressupõe um contexto visual que uma ligação normal não comportaria.

Isso não desfaz a série. Mas coloca Calls numa família de obras que funcionam melhor como experiência do que como objeto de escrutínio, e que pedem uma cumplicidade do espectador que nem sempre é explicitamente solicitada. É o problema inverso dos grandes thrillers de lógica apertada: enquanto esses convidam ao escrutínio e saem fortalecidos, Calls sai um pouco fragilizada quando submetida ao mesmo teste.

E um pequeno parágrafo para o final da minissérie. Numa série que construiu sua grandeza sobre a sugestão, sobre o horror que mora nos espaços entre as palavras, o último episódio comete o erro de mastigar tudo. Quem assistiu à minissérie O Inocente (2021), baseada em um livro de Harlan Coben e dirigida por Oriol Paulo, talvez saiba do que estou falando: uma ótima minissérie, e que só não é excelente porque o existe o último episódio. Nesse paralelo, em Calls temos um último episódio com personagens que chegam a conclusões numa velocidade que beira o inverossímil, arcos dramáticos de décadas que se resolvem em minutos, e o mistério, tão cuidadosamente preservado até ali, destrinchado com uma didática que soa como desconfiança na inteligência do espectador. Tal qual Coben em quase todos os seus livros. O episódio deveria ter sido excluído ou totalmente refeito. Do jeito que está, funciona como um antídoto involuntário à própria série e um lembrete de que o terror eficaz vive exatamente no só no que não se mostra, mas também no que talvez não se diga.

FIM DOS SPOILERS

Calls é uma obra que pede para ser avaliada pelo que se propõe, e o que se propõe é ambicioso o suficiente para justificar suas poucas imperfeições. Álvarez, que com Evil Dead e Não Respire já havia se provado um promissor diretor de terror do tipo visceral quando se propõe a enclausurar sua narrativa (e seu elenco), usa Calls para levar sua própria lógica ao extremo: se a limitação do espaço produz tensão, o que produz a eliminação total do espaço físico? A resposta, ao menos na primeira assistida, é algo extraordinariamente próximo do pânico. Não o pânico dos jumpscares, mas aquele pânico quieto de perceber, por uma voz ao telefone, que algo está fundamentalmente errado no mundo, e não saber exatamente o quê.

Comparada à original francesa, a versão de Álvarez é mais acessível, mais sofisticada na construção serial e mais ambiciosa no escopo. Hochet apostou no minimalismo absoluto, na recusa da imagem como um ato de fé no poder do áudio. Álvarez encontrou um meio-termo que, sem trair essa fé, entrega uma experiência mais palatável para uma audiência de streaming. Se o trade-off tem um custo (e tem, especialmente na reassistida), ele é pequeno diante do que a série entrega naquela primeira passagem.

O resultado é que Calls funciona menos como antologia e mais como um mosaico: cada peça é autossuficiente na sua intensidade imediata, mas uma forma mais completa emerge depois que o último episódio termina. Ou, mais precisamente, quando se volta ao primeiro. Talvez seja uma minissérie que não será para todo mundo. Exige uma atenção concentrada, auditiva, paciente, que vai na contramão dos hábitos de consumo que o próprio streaming ajudou a criar. Mas para quem aceita os termos, oferece algo raro: a confirmação de que o que não se vê ainda pode ser, até hoje, a coisa mais aterrorizante de todas.

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