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O Exorcista: Segredos e Devoção
Original:The Exorcist: BFI Film Classics
Ano:2023•País:UK
Autor:Mark Kermode•Editora: DarkSide Books

por Matheus Santos Rangel

Existem obras que mudam o mundo. O Exorcista é, sem sombra de dúvidas, uma delas.

Se, em sua adaptação cinematográfica, o diretor William Friedkin teve êxito ao provocar medo e repulsa no grande público da época — e, por que não, também no atual —, o livro de William Peter Blatty alcança um feito ainda mais impressionante: por meio de parágrafos dinâmicos e de uma voz narrativa singular, o autor constrói um verdadeiro labirinto de incertezas, conduzindo o leitor a uma miríade de interpretações. Nesse percurso, temas como ciência e religião, fé e ceticismo, beleza e repulsa servem de contexto à mais aterrorizante das histórias de terror.

O enredo de O Exorcista é, em essência, o mesmo da adaptação cinematográfica, com a adição de algumas passagens e a ausência de outras criadas especificamente para o filme. Nesse contexto, o que mais me impressionou durante a leitura foi, sem dúvida, a forma como a narrativa se constrói. Não necessariamente pelos eventos — que são excelentes —, mas pela linguagem empregada pelo autor. Trata-se de um livro com cerca de 300 páginas que devorei com uma velocidade surpreendente, pois era incapaz de interromper a leitura para me dedicar a qualquer outra atividade.

Da primeira à última página, Blatty conduz uma insana jornada rumo à putrefação, sem conceder ao leitor qualquer pausa para descanso. Ao mesmo tempo, porém, não há um senso de pressão que poderia transformar a leitura em uma espécie de martírio, como ocorre em outras obras. Não: em O Exorcista, há uma necessidade orgânica de prosseguir, um impulso constante de virar a próxima página, o que torna a experiência tão envolvente quanto prazerosa.

Outro aspecto notável da obra reside na construção de seus personagens, especialmente na forma como Blatty os humaniza diante do inexplicável. Longe de serem meros instrumentos do horror, figuras como Karras e Chris MacNeil carregam conflitos internos profundos, que transcendem o fenômeno sobrenatural. A crise de fé de Karras, por exemplo, funciona como o verdadeiro coração da narrativa, estabelecendo um ponto de tensão contínuo entre razão e crença. Já o desespero de Chris ancora a história em uma dimensão profundamente humana: a de uma mãe que assiste, impotente, à degradação de sua filha. É justamente essa base emocional sólida que intensifica o terror, pois não se teme apenas o desconhecido, mas aquilo que ele é capaz de destruir.

Ademais, minha característica favorita do livro — e que, nesse caso, a meu ver, supera o filme — é justamente a ausência de uma conclusão definitiva sobre o que, afinal, aconteceu na residência de Chris MacNeil durante as longas semanas de absoluto caos que antecedem a intervenção dos padres Merrin e Karras.

Trata-se de uma possessão demoníaca, fruto de entidades invisíveis trazidas ao mundo dos vivos pela influência de um tabuleiro ouija? Ou seria tudo resultado de um trauma psicológico, desencadeado pelo abrupto divórcio dos pais? Quem sabe uma histeria coletiva, alimentada pela leitura de artigos sobre o mundo espiritual? E o que dizer da força sobrenatural da criança presa à cama, que se contorce sem cessar? Ou de seus aparentes poderes psíquicos, que, há quase um século, já encontram algum respaldo em explicações científicas — ainda que insistamos em atribuí-los ao sobrenatural? O Exorcista é, acima de tudo, um livro sobre a pluralidade de ideias, sobre o embate entre diferentes formas de compreender o mundo. Semelhante ao badalar de um pêndulo, a narrativa transita entre o real e o imaginário, e a resposta final — a solução para o enigma que ela própria constrói — talvez nem seja assim tão importante.

O verdadeiro núcleo da obra reside na jornada de seus personagens: do paraíso ao inferno e, então, de volta ao ponto de partida. Talvez seja um mistério indecifrável, um enigma sem solução… tal qual a própria vida! Assim como um ser divino, O Exorcista não precisa se provar…

Ele apenas “é.

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