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Quando a Alice Quebrou o Espelho
Original:Quando Alice Ruppe lo Specchio
Ano:1988•País:Itália
Direção:Lucio Fulci
Roteiro:Lucio Fulci
Produção:Luigi Nannerini, Antonino Lucidi
Elenco:Brett Halsey, Ria De Simone, Al Cliver, Sasha Darwin, Zora Ulla Kesler, Marco Di Stefano

por Marcelo Marchi (@marcelomarchi77)

É possível dizer que a carreira do diretor e roteirista Lucio Fulci dentro do gênero terror, do qual ele é inegavelmente um dos grandes  mestres italianos, divide-se entre alguns filmes elegantes, psicologicamente carregados, visualmente belos e mais alinhados com a tradição do giallo, como Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher (Una Lucertola con la Pelle di Donna, 1971), O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si Sevizia un Paperino, 1972) e Premonição (Sette Note in Nero, 1977), e produções em que o gore passa a dominar a estética e o sobrenatural dá o tom da narrativa, como Zumbi 2 – A Volta dos Mortos (Zombi 2, 1979), Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura nella Città dei Morti Viventi, 1980) e Terror nas Trevas (…E Tu Vivrai nel Terrore! L’aldilà, 1981). E Fulci criou obras-primas em ambas as vertentes. Porém, após o ainda muito bom O Estripador de Nova York (Lo Squartatore di New York, 1982), tudo parece ter ido ladeira abaixo.

É triste assistir a obras como O Bebê de Manhattan (Manhattan Baby, 1982), Vozes do Além (Voci dal Profondo, 1991) e este Quando Alice Quebrou o Espelho (Quando Alice Ruppe lo Specchio, 1988) e perceber um criador brilhante perdendo completamente a inspiração para trabalhar o gênero que o consagrou. E se Fulci pensou que compensaria isso injetando comédia na receita de Quando Alice Quebrou o Espelho, errou em dobro.

Embora a sequência de abertura do filme seja tremendamente bem arquitetada e conduzida, prometendo-nos aquele Fulci dos velhos tempos, o que vem depois nos faz questionar qual o objetivo dessa produção. A história de Lester Parson, um golpista em tempo integral e canibal eventualmente (sim, porque isso logo é deixado de lado), em sua busca por mulheres solteiras e endinheiradas, que ele namora, mata e depois rouba, fica pendulando de maneira equivocada e frustrante entre situações cômicas desprovidas de qualquer timing e tentativas bobas de enveredar pela temática da dupla personalidade. Aliás, nem mesmo o título do filme parece justificável, a não ser
por uma relação muito capenga entre espelho e duplicidade (ah, e a Alice é uma vítima qualquer de Parson).

Talvez o fato de as sequências cômicas se alongarem mais do que deveriam seja reflexo da necessidade de Fulci de estender as situações a fim de atingir uma duração mínima para o filme, como ele mesmo conta que aconteceu. Mas isso não explica, por exemplo, as cenas de gore parecerem dirigidas por um iniciante (ainda que não falte o fetiche de Fulci por olhos sendo arrancados ou perfurados). Não ajuda, também, a insistência irritante em uma narração de corridas de cavalo ao longo da história.

Lançado como parte de uma série de produções direto para vídeo e tevê chamada I Maestri del Thriller – da qual também faz parte outro filme de Fulci, Fantasmas de Sodoma (Il Fantasma di Sodoma, 1988) -, Quando Alice Quebrou o Espelho só vale uma assistida para completistas de Lucio Fulci (meu caso) e para almas caridosas que depois se disponham a escrever uma crítica alertando os incautos sobre essa bomba (meu caso também. De nada).

Sobre o autor do texto:

Roteirista das séries Boca a Boca (Netflix), Marias (Sony) e Sociedade da Virtude (Max) e do programa Queimando a Língua (Jovem Nerd). É professor da Pós-Graduação em Roteiro Audiovisual do SENAC, além de ministrar os próprios cursos de roteiro para cinema e tv. Estuda o cinema de terror há quase duas décadas e ministrou no MIS em São Paulo os cursos “Desvendando um Subgênero: Slasher Movie” e “25 Anos de A Bruxa de Blair e o Terror Found Footage

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