por Matheus Santos Rangel
Quando assisti aO Babadook pela primeira vez, em 2016, eu tinha 14 anos e estava acostumado aos filmes de terror mais baratos possíveis.
Na época, eu ainda não possuía o repertório nem a experiência que tenho hoje com o gênero cinematográfico. Até então, as cenas de gore da remasterização de Sexta-Feira 13 e os zumbis alucinados de Guerra Mundial Z eram mais do que suficientes para satisfazer meu interesse pelo universo do medo. Eram tempos mais simples, em que clichês seculares — que já assombravam o mercado — pareciam novidades extravagantes, e o único requisito para um filme de terror alcançar uma boa avaliação, segundo meus duvidosos critérios, era a quantidade de sustos que conseguia me provocar.
Porém, no instante em que percebi que a proposta de O Babadook era abordar um tema infinitamente mais sério do que violência gráfica excessiva e jumpscares previsíveis, um novo mundo se abriu diante dos meus olhos.
Na trama estrelada pela incrível Essie Davis, uma mãe solteira precisa enfrentar seus maiores medos enquanto tenta proteger o filho dos ataques de uma entidade maligna. O problema é que nem sempre as monstruosidades de nossas vidas se manifestam como seres sobrenaturais que vestem casaco e cartola e não cortam as próprias unhas, mas sim como um mal silencioso que nos corrói por dentro. É exatamente aí que reside a genialidade da obra: em O Babadook, o verdadeiro horror não está em uma criatura grotesca perseguindo mulheres e crianças, mas em um subtexto poderoso que aborda, acima de tudo, as mazelas da depressão.
Contudo, se no passado a construção dessa mensagem redefiniu meus conceitos cinematográficos e, sem dúvida, contribuiu significativamente para o meu interesse pela escrita e pelo cinema, após uma revisão da obra algumas de minhas percepções mudaram. Embora eu ainda considere a direção de Jennifer Kent excelente — sobretudo na montagem de suas transições e na forma como trabalha a discrepância entre luz e sombra — e categorize O Babadook como uma produção essencial para os fãs do bizarro, não pude ignorar certos pontos que me fizeram questionar o nível de sofisticação que eu antes acreditava estar presente no projeto. De fato, aquilo que o filme se propõe a transmitir é extremamente relevante; hoje, porém, não creio que sua temática seja desenvolvida da maneira mais eficaz. Pelo contrário, em alguns momentos, a execução acaba comprometendo o impacto final da obra.
Se, em sua introdução, o filme habilmente pincela a exaustiva rotina dos personagens principais e, em seu desenvolvimento, apresenta ao espectador a iminente ameaça de uma força misteriosa — que transforma uma mulher batalhadora e gentil em uma criatura extremamente apática e igualmente raivosa —, a conclusão de O Babadook limita-se a explicitar, ainda que não de maneira literal, mas com tamanha obviedade que se torna impossível chegar a qualquer outra interpretação que não seja a pretendida, o seu roteiro.
De uma hora para a outra, a produção parece deliberadamente reduzir seu próprio nível, como se tentasse agradar a todos, mesmo que, para isso, precise sacrificar aquilo que justamente a tornava tão única. Os simbolismos enigmáticos são trocados por diálogos expositivos, o
suspense latente perde espaço para exageros vergonhosos. É como se a recompensa — a grande chave para adentrar o escuro porão onde se esconde o maior dos mistérios — deixasse de ser tão impressionante justamente porque, na verdade, a porta sempre esteve aberta.
Em outras palavras, evitando as licenças poéticas de alguém que nem tem tanta paciência assim para poesia: é como um banho de água fria… no inverno. Assim, em minha opinião, O Babadook acaba caindo na mesmíssima armadilha de muitos filmes de terror do gênero: trata-se de uma narrativa corajosa até os 45 do segundo tempo, quando o técnico resolve mexer no time que está ganhando e substitui o atacante decisivo por um perna de pau que, por acaso, tem boa relação com a comissão técnica. Toda a autonomia do projeto é descartada, alterada em favor de algo que se assemelha a uma sátira de si próprio. Não é a pior coisa do mundo — e ainda vale a experiência —, mas é apenas uma sombra de seu verdadeiro potencial.
No fim das contas, tudo o que eu mais queria era que O Babadook concluísse sua narrativa com a mesma coragem com a qual a personagem Amelia luta contra o maior dos pesadelos. No entanto, a vida real não é um filme, e o resultado pode ser, frequentemente, decepcionante. Ainda assim, temos que continuar tentando — até porque, não sei vocês, mas prefiro muito mais enfrentar os boletos no fim do mês do que a personificação dos meus próprios problemas psicológicos!





