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Assassinatos na Fraternidade Secreta
Original:The House on Sorority Row
Ano:1982•País:EUA
Direção:Mark Rosman
Roteiro:Mark Rosman, Bobby Fine
Produção:Mark Rosman
Elenco:Kate McNeil, Eileen Davidson, Janis Ward, Robin Meloy, Harley Jane Kozak, Jodi Draigie, Ellen Dorsher, Lois Kelso Hunt, Christopher Lawrence, Michael Kuhn, Michael Sergio

Uma bengala para matar a diversão

por Mari Dertoni

A paranoia que nasce da dúvida é um elemento constantemente explorado no cinema noir e no suspense. Já o slasher, em sua forma mais purista, não costuma prezar por tramas com muitos enlaces narrativos, embora frequentemente incorpore influências valiosas do cinema clássico. Assassinatos na Fraternidade Secreta (The House on Sorority Row, 1982) é uma pérola obscura escondida na filmografia do diretor americano Mark Rosman, que, como muitos de sua geração, iniciou a carreira no horror antes de seguir por caminhos completamente diferentes. No caso de Rosman, ele migrou para as comédias românticas, como A Nova Cinderela (2004) e Paixão de Aluguel (2005), entre outras. Trata-se de um filme sangrento que segue os elementos primordiais do slasher, mas que também incorpora referências e elementos do cinema de horror das décadas de 1940 e 1950.

O primeiro longa do diretor se desenvolve a partir de um elenco formado quase inteiramente por mulheres e um enredo simples: sete meninas que fazem parte de uma fraternidade desejam celebrar a formatura organizando uma festa na casa onde residem. A dificuldade é passar pela aprovação da severa senhora Slater, conservadora e misteriosa matriarca da fraternidade, interpretada por Lois Kelso Hunt. Dona da casa que abriga a irmandade feminina há várias gerações, Slater não quer permitir que a comemoração aconteça.

O fato de toda a trama girar em torno do universo feminino, com uma potencial assassina — também mulher — chama atenção, pois era fora do comum à época associar brutalidade à figura feminina, geralmente colocada no papel de vítima frágil e dependente de uma figura masculina forte. As mulheres em Assassinatos na Fraternidade Secreta possuem personalidade e buscam, por meios nada bondosos, alcançar o que desejam. Mesmo quando assumem o papel de vítimas, nunca recorrem a personagens masculinos para salvá-las, tudo acontece entre mulheres.

Com um pequeno prólogo em preto e branco que evoca ares de suspense hitchcockiano, Assassinatos na Fraternidade Secreta inicia exibindo influências interessantes em uma trama que dialoga com o estilo conhecido por seus plot twists (termo utilizado para descrever viradas inesperadas no roteiro) tão característicos do mestre do suspense. Diante de um parto traumático vivido pela senhora Slater, entre gemidos e gritos de dor, observamos um médico e sua assistente tentando salvar o bebê em uma noite conturbada, através do reflexo de um pequeno espelho. Despedimo-nos do prólogo com um grito horripilante da mulher que não esperava acordar sem seu filho nos braços.

As imagens em preto e branco e todo o tom que remete ao passado desaparecem junto com o urro de sofrimento da jovem Slater. Em seguida, somos introduzidos ao ambiente caótico, elétrico e juvenil das meninas por meio de planos-detalhe de seu cotidiano: lábios sendo preenchidos com batom vermelho, uma pilha de roupas coloridas crescendo sobre a cama, unhas sendo esmaltadas de maneira desleixada, giletes, secador de cabelo ligado e malas prontas para desocupar os quartos da residência universitária. Logo de início, a mãe de uma das meninas chama atenção para a piscina localizada na propriedade: ela está inutilizada, com água turva e extremamente suja.

A piscina, que se tornará peça-chave de um incidente macabro, é o elemento que Rosman utiliza para referenciar e homenagear o cultuado longa francês As Diabólicas (Les Diaboliques, 1955), dirigido por Henri-Georges Clouzot, que assina também a produção e participa da elaboração do roteiro. 

No filme de Rosman, as meninas resolvem pregar uma peça na moralista senhora Slater como punição por sua intransigência ao proibir a festa de despedida no casarão da fraternidade. O que deveria ser apenas um susto termina com o corpo de Slater submergido no fundo da piscina imunda, enquanto a festa começa ao som de uma banda de rock e muita bebida. Rosman cria um ambiente envolvente ao fazer a câmera passear pela sala decorada, captando o clima de flerte e a casa cheia, enquanto utiliza o cenário externo — na penumbra ao redor da piscina — como um espaço mórbido e perigoso que contrasta com o interior festivo da casa, escondendo o segredo macabro das sete amigas.

O número de meninas vai diminuindo aos poucos, seguindo o padrão do gênero, quando alguém começa a assassiná-las friamente pelos arredores da casa utilizando a bengala de Slater. A partir do início das mortes cria-se uma atmosfera de dúvida acerca da morte da matriarca e da possibilidade de ela ter saído da piscina com vida, retornando para se vingar da brincadeira macabra.

A bengala em Assassinatos na Fraternidade Secreta é um objeto poderoso e pontiagudo, que conta com um pequeno pássaro metálico em sua extremidade. Trata-se de uma arma incomum dentro do slasher, mas que já foi utilizada como tal em outros gêneros cinematográficos. Stanley Kubrick a utiliza no clássico ultraviolento Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), no qual Alex e sua gangue percorrem a cidade cometendo atrocidades, assassinatos e espancamentos com o auxílio de uma bengala que se converte em punhal. Também aparece em Fúria Cega (Blind Fury, 1989), cult dirigido por Phillip Noyce, no qual o protagonista cego interpretado por Rutger Hauer utiliza sua bengala — semelhante a um cajado — que se transforma em uma afiada katana para derrotar seus inimigos.

No começo do longa, a bengala de Slater rasga um colchão d’água onde uma das meninas protagoniza uma cena de sexo com o namorado, brincando com a regra não oficial do slasher de que “quem transa morre”. Ao mesmo tempo, o momento sugere vestígios de um desequilíbrio psicológico da antagonista — personagem marcada por sequelas advindas da noite do nascimento de seu filho. A bengala também é um objeto de apego e o motivo pelo qual a matriarca termina na piscina, quando as meninas a fazem buscá-la sobre uma boia sob a ameaça de uma arma de fogo.

Entre perfurações e decapitações, o objeto torna-se um símbolo icônico e punitivo nas matanças do filme de Rosman. O diretor opta por cortes precisos, mostrando vestígios, silhuetas das mortes e rastros de sangue, focando mais nos resultados dos ataques do que no ato de matar em si.

Em As Diabólicas, clássico de horror e suspense francês de Clouzot, duas mulheres se unem para planejar o assassinato de Michel Delassalle, um homem cruel e marido abusivo responsável por um internato de meninos. No longa, o corpo de Michel também termina no fundo de uma piscina de águas turvas e, assim como no filme de Rosman, esse corpo desaparece. A água, que assume a função de túmulo e dissimula a veracidade dos fatos, amplia a tensão da dúvida.

A relação direta com o suspense e a união secreta entre mulheres para encobrir um crime aproxima essas duas obras tão distantes no espaço-tempo, conferindo ao filme sangrento de Rosman certo charme com ares de noir. Sobretudo o ocultamento do corpo e seu repentino desaparecimento, que sugerem a possibilidade de uma realidade pós-morte — ou da sobrevivência do vilão.

Entre as referências a Alfred Hitchcock, é interessante citar Festim Diabólico (Rope, 1948), no qual dois amigos cometem um assassinato e escondem o corpo em um baú que permanece constantemente no ambiente onde circulam os convidados da vítima, gerando enorme desconforto diante desse segredo mórbido. Algo semelhante ocorre no filme de Rosman e no de Clouzot, em que a piscina constantemente chama a atenção e cria tensão pela possibilidade de haver um corpo em seu interior. Em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) e A Sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt, 1943), também há uma atmosfera de paranoia e suspeita que permeia as tramas e levanta dúvidas sobre a identidade de um possível assassino.

Assassinatos na Fraternidade Secreta ganhou um remake em 2009, intitulado Pacto Secreto (Sorority Row), dirigido por Stewart Hendler. O filme mantém o fio narrativo principal, mas perde bastante em originalidade ao abraçar um roteiro confuso que expande o núcleo de sobreviventes com um elenco pouco carismático, incapaz de gerar empatia. No original de Rosman, ao contrário, as atuações são mais genuínas e contam com uma forte final girl, vivida por Kate McNeil (Instinto Fatal, 1988, de George A. Romero).

Hendler opta por influências mais contemporâneas, que soam como colagens de filmes como Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, 1997), de Jim Gillespie, e Pânico (Scream, 1996), de Wes Craven. A versão de 2009 apresenta um vilão encapuzado muito semelhante ao do filme de Gillespie e mortes mais explícitas, como as do longa de Craven. A bengala também aparece como referência no remake, porém de forma solta e sem o devido contexto. A arma principal é substituída por uma chave de roda modificada com terminações afiadas.

As mortes em Assassinatos na Fraternidade Secreta são sangrentas, mas fogem de uma linguagem excessivamente explícita. Limitam-se a poucas sequências mais violentas, como quando um convidado da festa circula pelos arredores da piscina e tem a garganta brutalmente perfurada pela bengala. Outra cena marcante ocorre quando uma das meninas se esconde no banheiro e acaba decapitada, terminando em um banho de sangue com a cabeça enfiada dentro do vaso sanitário. No restante do filme, embora as mortes continuem ocorrendo, Rosman opta por retratá-las de forma mais indireta. O diretor utiliza a iluminação a seu favor, recorrendo a tons quentes em cenas noturnas e a vermelhos que evocam o sangue que, muitas vezes, não aparece diretamente em tela.

Assim como em As Diabólicas e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, os personagens em Assassinatos Na Fraternidade Secreta têm que lidar com um segredo fatal e com o fato de que alguém de fora vem a descobri-lo, ameaçando suas vidas. Rosman consegue conectar o trauma e a figura obscura, moralista e extremamente instável de Slater, com a ingenuidade palpável das jovens meninas em protagonismo colocadas em cena para morrer. Com base em referências sólidas, o diretor constrói bom clima e muitas atmosferas de suspense ao longo da trama.

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