Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é um dos nomes mais conhecidos dos fãs de filmes de terror. Mas ao mesmo tempo, ele também consegue ser uma das figuras menos conhecidas do gênero. Talvez porque não tenha feito parte dele, mas com certeza foi um dos responsáveis pela sua criação. Se você hoje sente medo no cinema com obras de mistério, fantasmas ou assassinos psicopatas, saiba que tudo começou nos primeiros manuscritos de Poe e que a influência dele vai muito além das adaptações de suas obras para o cinema.

Poe é considerado, juntamente com Jules Verne, um dos precursores da literatura fantástica e de ficção científica modernas. Mas foi através da literatura gótica que ele conquistou o gosto do público e tornou-se um dos principais nomes da literatura norte-americana. Fez da morte um dos seus temas principais e soube conduzir tramas que serviram como pilar do medo no século XIX.

O criador do texto O Gato Preto nasceu em 19 de janeiro de 1809, em Baltimore. A data do seu bicentenário lamentavelmente não motivou grandes homenagens nem relançamentos, tanto no Brasil quanto no exterior. O mais recente título a chegar às livrarias brasileiras é a competente edição de bolso de Histórias Extraordinárias, com seleção, tradução e apresentação de José Paulo Paes.

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Estão lá os essenciais O Poço e o Pêndulo e O Barril de Amontillado. Há ainda exemplos daqueles textos considerados os primeiros contos policiais da literatura ocidental (A carta Roubada e O Escaravelho de Ouro) e os representantes do horror psicológico, como O Coração Delator. Além disso, textos relacionados com a morte estão presentes O Gato Preto, O Caixão Quadrangular e Pequena Palestra com uma Múmia.

CREEPSHOW

O material apresentado em Histórias Extraordinárias pode ser definido como pequenos contos de horror e medo. As tramas são curtas e seguem o formato de informações diretas sem demora para explicar a ação principal. Se fomos pensar em formato fílmico, basta lembrar das saudosas produções que traziam em uma única fita (VHS) cerca de quatro ou cinco histórias de terror. Inclusive alguns dos textos presentes nesta coletânea já foram adaptados para a tela grande, como O Gato Preto.

Tais enredos geralmente são enxutos e fogem do parâmetro da normalidade ou de situações tipicamente corriqueiras. No caso dos contos publicados em Histórias Extraordinárias, alguns dos textos têm pouco mais de 10 páginas o que torna a leitura ainda mais direta, mas não menos interessante. E será justamente para quem recorda desses filmes estilo Creepshow, que o livro vai soar especialmente interessante.

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Mas falar das adaptações das obras de Poe para a tela grande não representa novidade para os fãs do gênero já que, desde os primórdios do cinema, as produções baseadas nas publicações do norte-americano eram produzidas. Desde a primeira versão de O Poço e o Pêndulo dirigida pelo francês Henri Desfontaines, em 1909, passando por películas assinados por Roger Corman, como Muralhas do Pavor (1962), O Enterro Prematuro (1962) e O Corvo (1963).

FORMATOS

Em seus contos, Poe se concentrava no terror psicológico. A essência do medo vinha do interior de seus personagens ao contrário dos demais autores que se concentravam no terror externo, no terror visual se valendo apenas de aspectos ambientais. Geralmente, os personagens sofriam de um terror avassalador, fruto de suas próprias fobias e pesadelos. Em termos práticos, é como descobrir o que nos dá medo, provavelmente em decorrência de um trauma de infância e utilizar isso para nos colocar em uma situação extrema.

A vida de Poe sempre foi marcada por eventos trágicos e excessos. Perdeu a mãe aos dois anos, foi abandonado pelo pai e foi morar com os tios na Inglaterra. Seus amores morreram de forma prematura ou o abandonaram. Em 3 de outubro de 1849, o escritor foi encontrado delirante, largado pelas ruas de Baltimore e (detalhe insólito) usando roupas de terceiros. Faleceu quatro dias depois num quarto de hospital.

Casa de Poe em Baltimore
Casa de Poe em Baltimore

Desta forma, é quase certo dizer que os medos internos de seus personagens representem os próprios sentimentos do poeta. Nenhum de seus contos é narrado em terceira pessoa, desse modo, vê-se como realmente é sempre “ele” que sente e vive o mais profundo e escandente terror. Em quase todos os contos, sempre há um mergulho, em certas profundezas da alma humana, em certos estados mórbidos da mente, em recônditos desvãos do subconsciente.

Como resultado, temos um terror mais psicológico e menos gráfico. Como exemplo, podemos citar o conto Pequena Palestra com uma Múmia, o segundo do livro, no qual o não-morto não ressuscita em cenas repulsivas ou de pavor. No lugar disso, o cadaver em questão acorda e calmamente conversa com aqueles que estão presentes diante dele. Sem uma linha que expresse terror gráfico, o texto é bastante sufocante ao acompanhar os diálogos civilizados entre os vivos e aquele que eles pensavam estar morto. É um medo íntimo e por isso mesmo, muito mais devastador do que algo explícito.

IDENTIDADE

Tal formato pode ter mexido com os medos dos leitores do século XIX e com certeza ainda penetram no nosso universo de temores reais e oníricos. No entanto, o mesmo material pode não agradar a um público pós-adolescente fascinado por sangue em excesso e gritaria gratuita. Claro que dentro de um gênero tão vasto quanto o do terror, cujos pilares vão além do cinema, fica difícil falar de um produto que agrade a todos em geral.

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Mas mesmo para quem nunca tenha lido nada de Poe, fica aqui o conselho de começar justamente pelas Histórias Extraordinárias. Talvez algumas tramas sejam “chatas” para quem espera por uma carnificina. Mas mesmo assim, é possível perceber os elementos tão comuns ao gênero representados em cada uma das histórias. Lembre-se que antes de ter medo de fantasma, tememos o escuro. Antes de termos medo do assassino, tememos o barulho do lado de fora da janela.

No caso da obra de Poe, o medo é como um instinto. Faz parte da nossa vida e é mais simples do que se imagina chegar até ele. Boa leitura.

Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias
Seleção, tradução e apresentação de José Paulo Paes.
2008. Companhia de Bolso.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

3 comentários em “Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias

  • 10/11/2014 em 13:57
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    O universo de Poe é incrível, recentemente eu pude adquirir o “Contos de Imaginação e Mistério” e o meu destaque vai para as maravilhosas ilustrações de Henry Clarke, elas completam a obra de Poe de um jeito fantástico!

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  • 25/10/2014 em 15:54
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    Maravilhoso! tenho esse livro e recomendo a todos! Edgar allan poe É um gênio! Seus contos são aterrorizantes e com certeza concordo com a reportagem, o autor esta presente em todos eles, imortalizado pelos seus próprios medos…

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  • 23/10/2014 em 15:13
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    brilhante, o primeiro escritor de terror que li

    junto com stephen king, clive barker e lovecraft, obrigatorio para qualquer fan de terror que se preze

    gostava muito, alem do gato preto, tambem dos contos a queda da casa de usher e a mascara da morte rubra, ambos com adaptaçoes para o cinema tambem

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