Um Pesadelo Americano: A História do Exploitation – Parte 1

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Banquete de Sangue (1963)
Banquete de Sangue (1963)

“Um exploitation é um filme em que os elementos do roteiro e as atuações são subordinados aos elementos que podem ser promovidos. A este respeito, eu colocaria Jurassic Park como o maior exploitation de todos os tempos. Se você assisti-lo friamente, o nível da atuação é de escola primária. Os atores lêem suas falas como se estivessem lendo no Teleprompter pela primeira vez” – Hershell Gordon Lewis, Diretor de Banquete de Sangue

Você já leu em muitos dos artigos presentes aqui no Boca do Inferno o termo “exploitation” para classificar um filme. Parece que tudo o que envolve cinema rudimentar e independente possui um carimbo “Exploitation” associado, às vezes até aplicado de maneira pejorativa.

Então lhe pergunto, você sabe o que é um “exploitation“? Como e quando surgiu? O que existe de história por trás destas pérolas de baixo orçamento? Muitas destas respostas estarão contidas nesta dissecação que você está prestes a ler. Todavia um alerta: este artigo não tem, e nem deveria ter, a pretensão de ser um documento definitivo sobre este peculiar período dos bons tempos do cinema barato, marginal e injustamente esquecido atualmente em sua totalidade pelo público comum.

O assunto é tão vasto que se ficarmos debatendo sobre todas as ramificações existentes – blacksploitation, bruceploitation, sexploitation, nunsploitation, W.I.P., documentários mondo, entre outros – todas as mobilizações cinematográficas associadas e todos os países que, cada um à sua maneira, aderiu ao exploitation (incluindo Reino Unido, Itália, França, e porque não, Brasil), daria uma excelente tese de mestrado.

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Apesar de não ser muito mais que um resumo, o texto ficou tão extenso que decidi dividir o artigo em quatro partes e nove capítulos para não cansar os olhos do leitor, com cada pedaço contando um pouco deste maravilhoso mundo na periferia da sétima arte.

Portanto, o foco aqui é apenas dar uma introdução sobre os acontecimentos entre 1970 e 1985 no cinema estadunidense, a Meca do exploitation, seus mentores, suas motivações e seus ícones. Neste primeiro segmento, falaremos sobre o conceito, princípio e a opinião da critica cinematográfica frente aos filmes independentes de baixo orçamento.

Sem mais delongas, sejam bem vindos ao pesadelo americano.

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Prólogo – O que é “Exploitation”?

A primeira coisa a se esclarecer é o obvio: o que é exatamente um exploitation, ou, da forma literal traduzida um filme “explorativo“? Colocando de uma forma simples são filmes independentes realizados sem interferência de estúdios produzidos para: 1) explorar as possibilidades financeiras de um gênero popular; 2) responder rapidamente a um interesse atual em um tópico contemporâneo; e/ou 3) ganhar em cima de um sucesso comercial recente. Menos prejudicial do que parece, portanto, o termo se refere a explorar o interesse da audiência em um tema ou colocando em palavras mais pomposas, para “suprir a demanda“.

Na essência existe pouca diferença entre o que as grandes distribuidoras e a indústria paralela do exploitation faziam em termos de práticas de negócio: as gigantes também conduziam projetos pessoais de diretores renomados (como Um Corpo que Cai, de Hitchcock em 1958) ou apostavam em filmes mais experimentais vindo de diretores europeus, contudo geralmente elas atiçavam um determinado público para a película que saía.

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Já os cineastas, produtores e distribuidores independentes se diferenciavam por ser muito mais furiosos e acelerados, retirando tudo o que era “gordura” no filme e deixando apenas os elementos essenciais do pacote, elevando os pontos comerciais ao extremo, depois produzindo quantas variantes forem possíveis no menor espaço de tempo, se valendo do menor orçamento cabível, para maximizar o sucesso financeiro enquanto a demanda do público ainda estava fresca.

Diferente de Hollywood, com suas equipes imensas, vagões enormes de estrelas e diretores temperamentais, um exploitation poderia ir do roteiro para a tela em coisa de três ou quatro meses, com outro filme a caminho logo em seguida. Era uma verdadeira linha de montagem de películas. O resultado pode não ser tão sofisticado quanto os filmes de arte, todavia eles são possuídos de uma energia rude e vitalidade capazes de se sobressaírem ante aos produtos das grandes produtoras.

Correndo o risco de me repetir, a palavra “exploitation” então é meramente um sinônimo de dar as pessoas o que elas querem ver, um credo compartilhado pelas empresas grandes e pequenas.
Lá pelos anos 70 o termo ganhou conotação negativa com a ascensão do feminismo e sua influência na crítica cinematográfica. Um exploitation sugeria algo sinistro, com o elenco e equipe sendo explorados com atos imorais, o que ecoa até a temida exploração sexual da mulher a contragosto das atrizes, dado o amor dos cineastas pelas cenas de nudez e estupro em suas produções filmadas com realidade brutal.

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Na verdade, não ocorriam menos “testes do sofá” numa saleta de um cineasta de exploitation quanto havia entre os magnatas de Hollywood, ainda assim os distribuidores tentaram mudar seu rótulo para “Independente“. Entretanto as películas classificadas pelo termo “independente” ou “indie” tomaram formas completamente diferentes através dos tempos (vide as obras dos irmãos Cohen ou de Steven Sodenbergh) e os filmes daquela época voltaram a ser conhecidos como o bom e velho exploitation.

Capítulo 1 – 1930-1968 – As Raízes do Exploitation – Filmes Educativos, pornografia soft, Hershell Gordon Lewis e George Romero

Pode-se dizer que o exploitation começou antes até do que o cinema. Os parques de diversões e circos dos Estados Unidos sabiam aplicar muito bem o tipo de marketing agressivo – e na maioria das vezes enganador – do que futuramente seria característico dos exploitations: prometiam maravilhas e aparições monstruosas nos chamados side-shows e freakshows com aqueles anunciantes típicos gritando e apresentando cartazes com dizeres chocantes – tipo pessoas de duas cabeças, homens-répteis, armas de criminosos famosos e outras coisas assim.

Só que quando se pagava o ingresso e adentrava o recinto, o “assustador” ou “impressionante” era um boneco de plástico, uma escultura de argila ou coisa que valha. Claro que às vezes era horripilante mesmo, mas estas eram as exceções. Pelo potencial chocante e atrativo não é coincidência, portanto, que dentre tantos outros o horror foi o gênero mais agraciado pelos diretores de exploitation.

E nos anos 30 e 40 fazer um filme era difícil, caro, penoso, e para completar o pacote, somente a elite tinha acesso aos cinemas mais badalados. A forma encontrada de se fazer bizarrices em celulóide eram os “filmes educativos” de curta e média duração exibidos nos pequenos cinemas para os estudantes e seus pais – estes foram “os homens de neandertal” dos filmes exploitation.

O negócio era bom para os dois lados: os diretores tinham total liberdade criativa, por serem quase incensuráveis e por não ter o rabo preso com os grandes estúdios, podia ser feito com mínimo de recursos e eram rápidos de rodar. O público, no caso os alunos e outros interessados, tinha a chance de ver consumo de drogas e nudez muito antes da televisão de fim de noite e da Internet dar isso de bandeja para eles.

Os ditos “filmes educativos” renderam pérolas da delinquência juvenil como Child Bride (1938) – sobre os problemas de homens mais velhos se casarem com garotas mais jovens – Sex Madness (1938), sobre doenças venéreas, Mad Youth (1940) sobre como as mulheres mais “saidinhas” podem se tornar prostitutas, The March of Crime (1936), o bisavô de Faces da Morte e o exageradíssimo e impagável Reefer Madness (1936) – que até ganhou uma versão musical em 2005 – sobre consumo de maconha, que fez um sucesso tão grande que poderia ser lançado nos estabelecimentos de luxo das cidades grandes e dar um bom lucro.

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Aliás, boa parte deles, como Modern Motherhood (1934), Sins of Love (1932) e Street Corner (1948) formavam filas imensas de pessoas querendo assistir a produção, um êxito inquestionável para películas tão ultrajantes e o que garantia a sobrevivência das redes de cinemas independentes do interior dos Estados Unidos.

Neste antro, entre todos estes, foi o filme do inescrupuloso produtor e distribuidor Kroger Krabb, junto com diretor William Beaudine, que entregou náuseas para os estudantes desavisados. Mom and Dad, de 1945, era vendido para os incautos espectadores como uma saga erótica, mas todos eles foram pegos de surpresa quando o filme mostra cenas reais de um nascimento humano!
A propaganda sugeria que seria uma chance de ver uma mulher exposta na sua mais feminina intimidade – apenas para mostrar contorções de uma vagina dilatada, membranas se rompendo e fluidos escapando em um trabalho de parto. Mais grosseiro e picareta impossível!

Herschell Gordon Lewis e David Friedman
Herschell Gordon Lewis e David Friedman

Krabb foi a principal influência de outro produtor, David Friedman, que após trabalhar com ele um pouco, descobriu que era possível ganhar uma grana dando ao povo um pouco daquilo que eles queriam ver – nesta época a censura estava mais aberta e não era mais necessário disfarçar uma produção sensacionalista através de um “programa de utilidade pública”. Foi quando então um homem chamado Herschell Gordon Lewis entrou em cena e se associou com Friedman que a lenda se formou.

Se você já leu a Horrorgrafia publicada no Boca, sabe o que acontece, mas não custa resumir: depois de, como muitos diretores de sua estirpe, se entregar as comédias eróticas e “documentários” sobre campos de nudismo (a forma mais arcaica de fonte de masturbação masculina no final dos anos 50 e início dos 60), que lhes rendeu um sucesso moderado, Lewis, ambicioso e esperto, pensou que podia ir além do nudismo (sexo explícito não podia na época) e buscando alternativas encontrou o “algo mais” que queria.

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E este “algo mais” era sangue em profusão! O tabu foi desfeito com Banquete de Sangue (Blood Feast) em 1963, inaugurando o cinema de mau gosto e o exploitation para as massas. Lewis sabia que tinha um campeão nas mãos: “Nós estreamos em um drive-in em Peoria com o sentimento de que se caíssemos duros ninguém daria falta. Era uma sexta-feira. No sábado, a fila de entrada do drive-in estava tão longa e congestionada que a polícia estadual precisou aparecer para organizar o trânsito. Eu olhei para o David e lhe disse ‘acho que começamos alguma coisa‘”.

A vulgaridade, crueldade e simplicidade da produção – e das demais de Lewis após esta – foi tamanha para a época que o horror moderno certamente ainda tem um cromossomo dele, em toda a linhagem violenta desde Sexta-Feira 13 (1981) a O Albergue (2006). Nos anos que seguiram aos filmes de Lewis, poucos tentaram “desafiar” seu posto (nenhum com o mesmo sucesso). No entanto se Herschell Gordon Lewis foi o estopim, George Romero foi a dinamite que faltava para que o exploitation reinasse.

A Noite dos Mortos-Vivos (1968)
A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

Foi a estreia do diretor Pittsburgh que colocou uma nova marca no cinema independente. Aí você me pergunta: no que A Noite dos Mortos Vivos contribuiu para o avanço do exploitation? Não vou me repetir demais no que já está escrito no artigo sobre ele, porém o debut de Romero tem o que Lewis não conseguiu fazer, transmitir inteligência (Lewis é uma pessoa muito inteligente, porém seus filmes não são bons veículos para demonstrar isso), um senso de urgência jamais visto antes e uma selvageria implícita que soterrou a violência quase cômica dos filmes de Lewis. A resposta teve mais peso dada a conjuntura histórica e política da época com a guerra do Vietnã. O palco estava formado e o público recebeu de braços abertos, mas a opinião intelectual não era a mesma.

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Gabriel Paixão

Colaborador e fã de bagaceiras de gosto duvidoso. Um Floydiano de carteirinha que tem em casa estantes repletas de vinis riscados e VHS's embolorados. Co-autor do livro Medo de Palhaço, produz as Horreviews e Fevericídios no Canal do Inferno!

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