A Bruma Assassina encontra A Névoa

A Bruma Assassina (1980) (1)

Hollywood está mesmo sem ideias. O cúmulo dessa afirmação foi a intenção de refilmarem A Bruma Assassina, que, mesmo sendo um bom filme, convenhamos (e olha que eu sou um de seus maiores fãs) nunca foi importante para o cinema fantástico. Filmes como O Massacre da Serra Elétrica e Despertar dos Mortos até que têm um por quê de serem refilmados devido à grande fama que alcançaram, mas refilmar A Bruma Assassina? Um ótimo, mas talvez o menos famoso filme de John Carpenter no gênero? Como um grande fã do filme original – costumo colocá-lo em qualquer lista dos 10 filmes mais importantes da minha vida- resolvi fazer esse artigo. Tentarei aqui ser o mais imparcial possível, mas é impossível que não haja comparações. Prometo, no entanto, conter a fúria adolescente que se manifesta quando alguém faz besteira em algo que gostamos muito.

A refilmagem de A Bruma Assassina (lançada aqui como A Névoa) tomou ares de lenda urbana. Isso porque foi anunciado, teve trailers nos cinemas e até pôsteres pendurados. Em um cinema da minha cidade o pôster ficou semanas, até depois da distribuidora ter cancelado a estreia nos cinemas nacionais e dito que iria lançar diretamente em DVD. Isso porque o filme foi um fracasso (merecido) de bilheteria e de crítica. No Rotten-Tomatoes, um site famoso de críticos de internet, a cotação do filme ficou abaixo de House of the Dead! Teve críticos dizendo coisas hilárias como Onde está Tom Atkins quando se precisa dele? hehehe. Aqui houve um período de silêncio gigantesco, muita gente nem estava se lembrando que havia uma refilmagem de A Bruma Assassina até que finalmente o filme chegou às locadoras.

A Névoa (2005) (2)

A Névoa se passa em Antonio Bay, Oregon e, não, Antonio Bay Califórnia como no filme original. Do farol, a radialista Stevie Wayne (Selma Blair) comanda o programa de rádio local, ao mesmo tempo que dá aviso aos navegantes sobre qualquer coisa estranha no mar. A tal cidadezinha se prepara pra comemorar seu centenário e com isso homenagear os membros fundadores, mas pra quem viu o filme original sabe que boa coisa não vem aí. O interessante do remake é que diferente de muitos remakes atuais, os personagens do original são mantidos, assim como há uma Stevie Wayne, há um Nick Castle, uma Elizabeth, um padre Malone, etc…

A Névoa (2005) (5)

Nick Castle no caso foi interpretado por Tom Welling, o super-homem da série deTV Smallville. Nem preciso dizer que a escolha foi totalmente errada, não tanto pelo ator que é gente fina, mas é o tipo de papel que nunca convence mesmo se Tom Welling fosse o melhor ator do mundo! É o mesmo que colocar Brad Pitt como um cobrador de ônibus. Há certos atores pra certos papéis – isso é fato -, e Tom Weeling neste poderia ser tudo menos um pescador! Bem, poderia ser um modelo-pescador…hehe

A Névoa (2005) (1)

Bem, Nick Castle, assim como no original, é responsável pela traineira Sea Grass e vive na cidadezinha de Antonio Bay amargando um fora que levou da namorada Elizabeth Willis (Maggie Grace, de Lost), que foi pra Nova York há seis meses. Pra quem não se lembra, Elizabeth é o mesmo personagem interpretado por Jamie Lee Curtis no original, só que, no original, ela conhecia Nick Castle (Tom Atkins): ao pedir carona, então deram início a um relacionamento amoroso. Na refilmagem, eles já tinham um relacionamento até que a moça resolve ir pra Nova York. O bonitão que faz? Resolve dar uns pegas na Stevie Wayne..hehehe

Só que Elizabeth retorna pra cidadezinha e volta para o amado Nick. só que a menina começa a ter visões (???) estranhas do tipo que-explicam tudo-e-são-mais-úteis-que-ler-um-diário-que-conta-toda-a-trama. Paralelo a isso uma névoa que se move contra o vento começa a invadir a cidade vagarosamente. Durante uma noite no mar, os amigos de Nick levam umas piranhas pro Sea Grass para uma festinha, até que são atacados impiedosamente pela neblina. Durante todo o filme, podem reparar, a neblina parece ter fetiche em atirar pessoas pela janela, tamanha a quantidade de cenas assim.

A Névoa (2005) (6)

Nessa refilmagem NADA, mas absolutamente NADA se salva. Seja analisando como remake ou filme independente, é uma bomba, cheia de furos (consegue ter mais furos que o filme de Carpenter), e nenhum, mas nenhum mesmo momento de suspense. No minha análise sobre A Bruma Assassina comentei que uma das coisas mais legais do filme era não usar flashbacks, pois chegava a ser muito mais interessante imaginar o terror que se abateu sobre Blake e seus homens do que simplesmente acompanhar os acontecimentos. Aqui é tudo mostrado, tintin por tintin através dos flashbacks pro pessoal que não gosta de imaginar muito..

A Bruma Assassina (1980)
A Bruma Assassina (1980)

Outra coisa legal do The Fog original era o fato de simplesmente sugerir do que mostrar. Praticamente não há sangue e é tudo sugerido; os fantasmas sempre estão envoltos em neblina e escuridão. E não há sangue, só que mesmo assim consegue ser mais violento que a refilmagem! Também no âmbito do sugerir, compare as duas versões onde um cadáver do necrotério volta à vida pra dar um recado à Elizabeth. Na versão de Carpenter o suspense estava totalmente no fato de vermos aquele vulto embaçado atrás de Jamie Lee Curtis caminhando vagarosamente em direção a ela, nem precisávamos ver o estado de sua face, já que o legista havia dado informações aterrorizantes sobre o estado do corpo em questão. No remake, o cadáver levanta (e o diretor faz questão de mostrar seus olhos furados) vai até Elizabeth e ainda tem tempo de dizer uma frase antes de cair estatelado no chão!

A Névoa (2005) (8)

Outra característica do The Fog original que expus na crítica foi o fato do roteiro ser dividido em núcleos e esses núcleos se encontrarem (com exceção de Stevie Wayne) no clímax do filme na igreja do padre Malone. Aqui praticamente todos se conhecem, na verdade chega a dar a impressão que a cidadezinha só tem meia dúzia de pessoas já que as coincidências são inúmeras. O personagem do padre Malone é um porre (nos dois sentidos)! Passa o filme todo bebendo e falando asneiras e alertanto, igualzinho aqueles velhos sem nada pra fazer da série Sexta-feira 13. Selma Blair, no entanto se destaca. A seu modo consegue ser tão sexy quanto Adrienne Barbeau no filme original, mas mesmo assim ela não convence como mãe. A não ser que tenha tido o filho com uns 15 anos de idade, porque ela está com cara e trejeitos de adolescente em muitos momentos.

A Névoa (2005) (7)

Sem contar que o roteiro é cheio de furos. Durante o ataque ao Sea Grass, um personagem sobrevive e consegue filmar a tragédia. Mais tarde a polícia passa a desconfiar do tal personagem, pensando que ele mesmo foi que assassinou os outros, mas claro que ele tinha a filmagem como prova! A anta do Nick Castle o que faz? Rouba a câmera da cena do crime, entrega para Elizabeth e diz: Essa talvez seja a prova da inocência dele. Putz, mas pra que esconder da polícia? Não era mais fácil entregar para os policiais, assim não iriam desconfiar de seu amigo? Além do mais, todos os personagens do filme parecem ter sido reprovados no teste de QI, pois é um festival de asneira só. Em certo momento, Elizabeth acorda e vê que no teto pegadas molhadas se formam e depois há batidas suspeitas na porta. A genial garota o que faz? Abre a porta e fica de calcinha lá fora vendo se tem alguém! Ainda tem o fato do filme ser chato demais! Tem aproximadamente uma hora e quarenta minutos, mas parece ter umas 3 horas! Não foram poucas as vezes que apertei o botão do menu DVD pra ver quanto tempo faltava de filme.

Quando os produtores contataram Carpenter sobre fazer o remake, o velhinho nem pensou duas vezes: Vão em frente, me façam rico!, disse em certa ocasião. Carpenter acabou sendo o produtor executivo, assim como sua parceira velha de guerra Debra Hill, que infelizmente faleceu antes do filme estar pronto. Ela estava com um câncer que a obrigou a amputar as duas pernas, mas estava firme na produção do projeto. Uma pena que a grande Debra Hill tenha se despedido com essa bomba colossal, mas isso no fundo não importa pois Carpenter e Hill serão mais lembrados por um filme pequeno com neblina feito no fim dos anos 70 do que por uma refilmagem esquecível do novo século.

Há uma postura cultural hoje em dia que diz que tudo que tem mais de 15 anos é velho e fora de moda (John Carpenter, no Making Of de A Névoa)

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Bruno C. Martino

Bruno C. Martino

É escritor e ator. E tem uma predileção por filmes de vampiros saltitantes chineses.

2 comentários em “A Bruma Assassina encontra A Névoa

  • 23/03/2015 em 14:47
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    Remakes são uma forma de ganhar dinheiro que alguns “diretores” encontraram! Odeio aquele discurso de ” atualizar para as plateias atuais”, é só grana e ponto.99% das refilmagens são uma porcaria, 1% que presta são de diretores renomados que refilmam algumas produções dando uma roupagem tão única que não dá nem pra chamar de remake ex: a mosca, a bolha assassina, scarface, piranha 3D entre outros.

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