A Chorona da vila

Para muitos, a Bruxa do 71 foi uma Chorona mais assustadora do que a do filme de Michael Chaves.

Apesar da Chorona ser uma das lendas mexicanas mais assustadoras, boa parte do público brasileiro, e provavelmente da América Latina, possui uma referência mais cômica e bastante divertida da entidade. Trata-se das “participações” da personagem no programa humorístico Chaves.

O comediante Roberto Gómez Bolaños criou episódios memoráveis de Chaves e alguns destes flertavam com temas sobrenaturais. Basta lembrar da “morte” de seu Madruga, do “fantasma” de seu Barriga, ou quando as crianças decidem assistir filmes de terror tarde da noite. Sem contar os episódios de Chapolim com direito a lobisomem, casas assombradas e fantasmas de piratas. Claro, tudo de forma lúdica pelo próprio teor do programa.

O episódio Os Espíritos Zombeteiros (no original Sonâmbulos) foi ao ar pela primeira vez em 1977. A trama, dividida em duas partes, acompanha Seu Madruga (Ramón Valdés) em constantes crises de sonambulismo. No meio da noite, ele se levanta do sofá no qual dorme, pega um prato e leva até o barril do Chaves. No dia seguinte, ele não se lembra do ocorrido, mas começa a perceber que estão faltando pratos na casa dele.

Ao escutar o relato de Seu Madruga, a Bruxa do 71 (Angelines Fernández) afirma que tratam-se dos espíritos zombeteiros e insiste para a realização de uma sessão espírita na casa de Seu Madruga, que se mostra contra a ideia. Em determinado momento do episódio, novamente na calada da noite, Chaves (Bolaños) e Kiko (Carlos Villagrán) estão conversando e Kiko começa a falar de filmes com monstros feios como o lobisomem, o “Frankenstein” e o Pedro de Lara.

Chaves logo fala que não tem medo desses filmes, mas sim da Chorona. Na definição dele, trata-se de uma mulher que “sempre sai andando e que grita onde estão meus filhooooos”. Não demora muito e a própria Bruxa do 71, também sonâmbula, entra em cena com um camisolão amarelo e braços para frente. Chaves fica paralisado e Kiko chama pela sua mamãe. O que segue é o humor pastelão típico com seu Madruga aparecendo e levando uma bofetada de Dona Florinda (Florinda Meza), que também entra em cena sonâmbula.

No dia seguinte, nem a Bruxa do 71 e nem a Dona Florinda se lembram do ocorrido. Ao final, acontece a sessão espírita em um dos momentos mais divertidos da série inteira. A sessão é comandada pela Bruxa do 71, que tenta fazer contato com o mundo dos mortos acompanhada de Seu Madruga e Dona Florinda. Por acidente, Chaves e Kiko estão na casa e se escondem como podem.

O episódio fez tanto sucesso que ganhou uma nova versão que é praticamente igual com Chaves e Kiko novamente conversando durante a noite e a Bruxa do 71 entrando em cena como a “chorona”.

Em 1982, já sem Ramón Valdés e Carlos Villagrán no elenco, Bolanõs gravou uma terceira versão dos espíritos zombeteiros desta vez com a presença de Jaiminho, o carteiro (Raúl ‘Chato’ Padilla), como o sonâmbulo e Nhonho (Edgar Vivar) repetindo as falas de Kiko. Este acaba sendo o menos engraçado visto que Jaiminho não se mostrou tão icônico na série como Seu Madruga.

Apesar destas três aparições, o que muita gente não sabe é que a primeira vez que a entidade sobrenatural apareceu no universo criado por Bolañnos foi em 1973 em um episódio de Chapolin, que permanece inédito até hoje no Brasil. No episódio em questão, Seu Madruga interpreta um coveiro quando é surpreendido pela Chorona, desta vez vivida por Maria Antonieta de las Neves, a Chiquinha.

A Chorona apareceu até na versão animada de Chaves, no episódio A Noite dos Espantos, da terceira temporada.  Na animação, as crianças estão em vigília para ver se a Chorona realmente existe. Seja interpretada pela Bruxa do 71 ou por Chiquinha, quem já assistiu ao filme da Chorona, dirigido por Michael Chaves, concorda que a entidade da vila do Chaves é bem mais interessante e até assustadora do que a que está atualmente em cartaz no cinema.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

4 comentários em “A Chorona da vila

  • 28/04/2019 em 08:49
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    Felipe,
    parabéns!!! Você é um legítimo fã do CHAVES. Adorei o seu texto, muito legal e bem conciso. Uma correção: a primeira versão dos ESPIRITOS ZOMBETEIROS é de 1974, na fase sem a CHIQUINHA. Todos que assistiram ao CHAVES (principalmente quando crianças) lembram de diversos episódios que flertaram com o sobrenatural, que foram muito bem feitos e que dão mais medo que muitos filmes (RIDICULOS) atuais. Acho que isso se deve a longa tradição do cinema fantástico mexicano, com certeza CHESPIRITO era fã e tinha pessoas em sua equipe de produção que conheciam o tema. ADOREI o seu texto, continue escrevendo sobre o CHAVES!!!

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  • 27/04/2019 em 22:10
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    Eu até havia comentado recentemente em outra matéria sobre a Chorona esse episódio dos espíritos zombeteiros do Chaves! Realmente é um dos melhores episódios da série e um dos mais assustadores, principalmente com a cena antológica da sessão espírita no final! Não conhecia as outras versões citadas, vou procurar em alguma fonte! Essa Chorona sim é que me assusta até hoje :). Há episódios de terror da série do Chapolin que parecem até que foram dirigidos por Stephen King, tamanho os elementos de terror apresentados!hahaha

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  • 27/04/2019 em 22:06
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    Escrever ou falar de “Chaves” já virou icone ate em comentários de filmes de terror ,essa serie sempre estará nos nossos corações mesmo quando nos estamos ficando mais velhos e aborrecidos com á vida ,o negocio é esquecer os problemas vendo á TV e assistindo essa serie, não como não rir desse programa que com um humor simples e sem apelações conquistou os corações de varias gerações de brasileiros,viva o eterno Chaves e Chapolin !

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