Aterrorizados (2017)

Aterrorizados
Original:Aterrados
Ano:2017•País:Argentina
Direção:Demián Rugna
Roteiro:Demián Rugna
Produção:
Elenco:Maximiliano Ghione, Norberto Gonzalo, Elvira Onetto, George L. Lewis, Julieta Vallina, Demián Salomón, Agustín Rittano, Natalia Señorales, Matias Rascovschi, Lorenzo Langer

Uma das primeiras manifestações sobrenaturais numa residência envolve batidas fortes nas paredes. Aprendemos isso com a literatura didática de Ed e Lorraine Warren, e com o Cinema de Horror em filmes como Poltergeist – O Fenômeno, A Casa das Almas Perdidas e até Atividade Paranormal. A impressão deixada é que a entidade perversa precisa de tempo para ações mais poderosas como a levitação de móveis e objetos e até mesmo o toque nos corpos. No caso de Juan (Agustín Rittano), os estrondos podem ter alguma relação com a reforma do vizinho inquieto ou quem sabe com o “voo” de sua esposa Clara (Natalia Señoriales) durante o banho, arremessada constante e violentamente contra as paredes numa deformação lenta e sangrenta. Essa impressionante cena já faria de um curta-metragem uma das produções mais aterrorizantes dos últimos tempos, mas é só o começo de uma cadeia de eventos que trarão ainda mais momentos perturbadores no longa argentino Aterrorizados (Aterrados, 2017), dirigido impecavelmente por Demián Rugna.

Aquele mesmo vizinho que poderia estar martelando contra a parede em um horário impróprio está sofrendo uma experiência ainda mais pavorosa. Walter (Demián Salomón) está tentando buscar evidências de que ele não mora sozinho, mas com uma entidade que passeia pela residência durante a madrugada e ainda o observa, como um espírito errante. Do outro lado da rua, uma mulher recebe a visita macabra de seu filho morto, que, em estado inicial de composição, mantém-se imóvel na mesa da cozinha na espera do café da manhã. Esses três contos se relacionam numa combinação assustadora e ousada, intrigando um trio de investigadores paranormais e a própria polícia, quando todos percebem que o bairro parece ser maldito.

O que mais chama a atenção em Aterrorizados é o modo como os pequenos núcleos dialogam com o incômodo. E não é só isso: cada conto de horror – e não estamos falando de uma antologia – mantém o dinamismo de suas sequências sem dar tempo para o público abrandar sua taquicardia. Não há alívio cômico (o mais próximo disso é o tenso Funes, interpretado por Maxi Ghione), um personagem engraçadinho ou cenas de romance que não levam a lugar algum; as coisas acontecem com o ritmo da frequência cardíaca do espectador, mantendo uma constante sensação de insegurança com a perspectiva de um inevitável final depressivo e pessimista.

Demián Rugna, do também criativo Malditos sean! (2011), demonstra uma inteligência narrativa que surpreende, sem vestir sua película com clichês americanizados. Aqui não há espaço para um padre, com cruzes e água benta, realizar um exorcismo; não há religiosidade ou explicações óbvias para os acontecimentos; e os personagens morrem das formas mais violentas e chocantes, com destaque para a cena do buraco na parede. Talvez o infernauta atento vai encontrar similaridades com a cadeia de eventos de The Grudge/Ju-On pela divisão em capítulos, porém os de Aterrorizados não precisam fugir do cronológico e a conexão é imediata, uma vez que logo no primeiro ato o público já vai conhecer cada criatura fantástica e onde elas habitam.

E o que dizer dos monstros que aterrorizam tanto os personagens quanto o público. Os efeitos especiais, concebidos por Marcos Berta, constroem o grotesco, moldam o indizível e o perturbador, como se tivessem sido estudados para o propósito único de incomodar. Não há exageros em seus desenhos e eles aparecem a todo momento, mas nunca com a intenção de permitir que suas falhas sejam visíveis. A fotografia noturna, em paletas de cores frias, de Mariano Suárez, condiz com o terror mostrado, destacando outros nomes como o do editor Lionel Cornistein e até o desenho de produção de Laura Aguerrebehere.

Se existe alguma falha em Aterrorizados pode-se dizer que está na interpretação fraca de Agustín Rittano quando ele encontra a esposa em seu voo pelo banheiro. O que deveria ser um choque imediato, uma expressão de horror, acaba soando artificial pela demora na reação do ator. Uma pequena correção aqui e o longa figuraria entre as obras-primas do gênero. Ainda assim, trata-se de um trabalho bem feito e macabro e que cumpre com o que o título diz ao deixar tanto os espectadores quanto os personagens inevitavelmente aterrorizados.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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