Boca do Inferno: 21 Anos com Sangue nos Olhos

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Antes de 2003, você alcançava a maioridade no Brasil aos 21 anos, tendo acesso a todos os direitos civis. Apesar do Boca do Inferno estar chegando hoje à antiga maior idade, não foram precisos 18 anos de existência para que o site mostrasse a que veio. Desde suas primeiras postagens, no dia 10 de maio de 2001, a página não tinha censuras, falava de produções teens com a mesma disposição que abordava o grotesco através de críticas referentes ao horror extremo em todas as suas épocas. Mesmo assim, não se pode dizer que o site seja o mesmo de outrora. Muitas coisas mudaram, desde sua própria linguagem – foi construído inicialmente através da linguagem html quase como o Porquinho Cícero fizera a sua casa de palha – até as abordagens (postávamos contos e lendas urbanas nos seus primórdios) e críticos.

Fazer parte da equipe dos autores que escrevem notícias e críticas sempre foi o sonho de muitos infernautas que visitam a página. Porém, nem todos se mostram realmente fiéis aos seus domínios, desistindo de colaborar por qualquer razão. Alguns por motivo de falta de tempo (não vejo como desculpa até porque quem é fã de terror consegue arrumar tempo para ver filmes, porque não dedicar uma meia-hora para falar sobre?), outros talvez porque esperavam um sucesso imediato ou faziam de suas participações apenas um hobby, como alguém que corre para se exercitar até encontrar alguma outra coisa para se distrair no horário. Tanto que somente dois autores, além deste editor, acompanharam o site durante todo o seu percurso; há alguns também que foram entrando na equipe e se mantendo no decorrer dos anos, ainda que possam ter se afastado durante algum tempo.

No começo deste ano, foi realizado um concurso para o ingresso de novos autores. Deste processo, e vocês devem estar acompanhando nas postagens, vieram os críticos: Ricardo Gazolla, Pedro Emmanuel, Diego Ferraz, Daniel Medeiros e Bianca Bezerra. Cada um com seu estilo, eles trouxeram muito valor ao site, permitindo que fizéssemos mais postagens por semana, abordando filmes clássicos, atuais, bagaceiras e produções de streaming. Do mesmo modo que tivemos essas adições importantes, também tornamos alguns autores inativos como “Autor Convidado“, enquanto alguns estão tendo suas críticas substituídas por textos de críticos efetivos. É um processo de substituição daquele que esteve presente mas não reconhece sua participação por aquele que veste a camisa como infernauta com orgulho, ainda que não esteja mais ativo.

Também pode-se apontar como mudança a própria relação do infernauta com o site. Se antes ele via a página como um espaço de divulgações e consultas, agora já reconhece a sua importância para o horror brasileiro. E é muito maior do que se imagina. Mesmo nesta época em que o público deixou de ser leitor e passou a buscar vídeos com análises de filmes – e o Boca do Inferno também aborda essa mídia através das Horreviews -, há quem ainda vasculhe no site por algum texto que fale sobre alguma produção que tenha visto, um jogo que tenha experimentado ou simplesmente queira acompanhar o gênero. E graças ao Boca do Inferno muitos autores, cineastas independentes e produtores de conteúdo por estas bandas conseguiram a devida notoriedade – ainda que alguns não reconheçam o processo. O site esteve lá a todo momento, prestigiando o sucesso e lamentando as frustrações.

O Boca do Inferno se transformou numa entidade viva com o passar dos anos. Atravessou tendências (zumbis maratonistas, found footage, casas assombradas, refilmagens e reboots…), franquias imensas (Jogos Mortais, Atividade Paranormal, Pânico na Floresta…), mudanças políticas e até sobreviveu a uma pandemia – uma persistência que chega a ser sobrenatural! Resistiu às dificuldades financeiras, tentativas de exclusão de seu conteúdo, invasões e vírus. Foi crescendo como o monstro que representa sempre com a mesma vontade de espalhar o horror por todas as vertentes, seja na criação de uma HQ, um livro próprio ou na realização de festivais.

E deve se manter assim, com o sangue nos olhos, como um site que vive da produção escrita, mesmo com outras mudanças que possam ocorrer por aí. Com mais idade e experiência.

Parabéns a todos nós por mais essa marca!

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Boca do Inferno: 21 Anos com Sangue nos Olhos

  • 10/05/2022 em 23:23
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    É uma grande honra estar presente nessa data e como um dos críticos. Lembro que quando adolescente era um dos que sonhava em estar entre vocês, contando os segundos da hora tão estimada lan house da época. Vida longa ao gênero do terror e vida longa ao boca

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