Mamãe é de Morte (1994)

4.6
(7)

Mamãe é de Morte
Original:Serial Mom
Ano:1994•País:EUA
Direção:John Waters
Roteiro:John Waters
Produção:John Fiedler, Mark Tarlov
Elenco:Kathleen Turner, Sam Waterston, Ricki Lake, Matthew Lillard, Justin Whalin, Patricia Dunnock, Walt MacPherson, Scott Morgan, Mink Stole, Mary Jo Catlett, John Badila, Doug Roberts, Traci Lords, Jeff Mandon

Imaginem um bairro tipicamente tradicional e residencial estadunidense, com aquelas grandes casas, com grandes varandas e grandes jardins bem cuidados, ruas arborizadas, calçadas largas, e vizinhos atenciosos. Agora imagine uma família residente desse bairro, com seus desejos e ansiedades pequeno-burguesas, igualmente típicas, padronizadas, nos moldes daquelas que vemos em comerciais de margarina. Agora imagine que no seio dessa família reside um curioso e mórbido segredo: a mãe é uma assassina fria e objetiva, que elimina qualquer um que destoe de seus princípios.

Esse poderia ser o argumento de um filme slasher comum, ou mesmo a descrição de um caso real (o que parece ser, de fato, conforme os créditos iniciais), mas estou falando de uma comédia macabra e nada convencional criada pelo igualmente estranho John Waters, cineasta e artista visual, entre outras coisas, que é expoente no campo do cinema trash e transgressivo.

Em Mamãe é de Morte, John Waters nos apresenta Beverly Sutphin, mãe atenciosa, esposa ardente, e vizinha espirituosa, que nas horas vagas se delicia passando trote obscenos para as amigas e fazendo uma “limpeza” nos conhecidos da família que considera “nocivos” aos seus ideais domésticos e de educação.

Beverly, na verdade, é uma assassina fria e dissimulada, ultra racional, e assim como seu ídolo Ted Bundy, com quem troca correspondência às escondidas, é inteligente o suficiente para parecer normal em meio à massa. Em um rompante de fúria, Beverly comete um assassinato e levanta suspeitas sobre si. Essas suspeitas levam a mais assassinatos e a situações excêntricas demais (algumas até inverossímeis) para serem descritas aqui.

O roteiro de John Waters trabalha muito bem a personagem de Bervely.  A atuação de Kathleen Turner como a protagonista é de atordoar: ao mesmo tempo que arranca risadas com sua “espirituosidade” e humor nada convencional, ainda nos deixa atentos a todos os trejeitos psicológicos típicos de serial killers que ela manifesta em vários momentos, para quem tiver atento. Na última cena, sem grande esforço, ela chega a assustar de verdade ao ressaltar “o seu pior lado” (uma cena que ganha peso quando captada como metáfora).

O elenco conta também com a presença de Matthew Lillard, fazendo um personagem muito parecido com o Stu, que viria a interpretar dois anos depois em Pânico, mas claro, com um grande laivo de ironia em sua composição.

Essa ironia, aliás, é constante em Mamãe é de Morte. A obra faz diversas considerações sobre a figura do serial killer na sociedade, algo particularmente pertinente à sociedade estadunidense, que produz esses tipos em escala industrial e ainda eleva alguns à condição de celebridade. John Waters cutuca com humor e fina ironia nosso gosto pelo mórbido e nossa identificação com esse tipo de criminoso – principalmente quando se trata de uma pessoa branca, cis, hetero, etc.

Beverly Sutphin é mais uma personagem excêntrica da imensa galeria de personagens excêntricas de John Waters. Com um espírito de loucura que sutilmente preenche todas as suas ações, ela nos faz rir no começo e temer no final, além de nos deixar o alerta: será que isso é mesmo “divertido”?

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Média da classificação 4.6 / 5. Número de votos: 7

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Pedro Emmanuel

Cearense, jornalista, quase geógrafo (ainda cursando), meio praieiro e ligeiramente antissocial. Minha viagem é aprender o máximo possível sobre a vida e sobre a morte, e assim ir assimilando alguns mistérios da existência. Vivo como se fosse um detetive, mas minha mente vagueia muito. Sou fã de Star Trek, Jefferson Airplane, e do Massacre da Serra Elétrica original.

5 thoughts on “Mamãe é de Morte (1994)

  • 10/05/2022 em 13:51
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    Esse filme é simplesmente sensacional!!! Kathleen Turner no auge. E de “bônus”, a deliciosa e estonteante Traci Lords , eterna Deusa

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  • 08/05/2022 em 17:01
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    Incrível como esse Pedro Emanuel vira e mexe fala algo preconceituoso, como por exemplo: pessoas brancas e héteros, ratos de igreja e etc. Pelo jeito as pessoas acham que podem combater preconceito sendo preconceituosas.

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    • 08/05/2022 em 23:32
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      No texto em questão, não me pareceu preconceito. Vale ressaltar que, era (talvez ainda seja) muito comum autores de críticas ressaltarem que algum personagem era “negro” ou “gay”, partindo do pressuposto que o normal é ser “branco” e “hétero”. Mas creio que seu ponto seja válido, eu também não entendo a lógica de quem faz isso, talvez alguma compensação… sei lá. Creio que a real essência do filme seja essa, não atoa John Walters também dirigiu Pink Flamingos!

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    • 09/05/2022 em 16:33
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      Cara, tá faltando um tanto de visão de mundo aí, viu? Te convido a levar esse papinho de “preconceito reverso” pra bem longe da caixa de comentários desse site 😉

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    • 13/05/2022 em 12:57
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      Hei, sai da bolha um pouquinho vai…dê um bom mergulho na sociedade, dica, ande por 2 quarteirões do seu entorno, já estaria bom. Olhe, observe, respire e transpire a sociedade ao seu redor. Ah, sinta o cheiro também. Depois reflita, pense e antes de tirar qualquer conclusão, rascunhe e só depois, escreva o que tu concluiu. Tu perceberá que feito tudo isso, tu terás evoluído 👍

      O crítico do filme foi até muito comedido, tendo apenas coçado a ferida. Eu teria apertado, quiçá arrancado a casca inteira e feito a mesma sangrar.

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