Natal Sangrento (1984)

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Natal Sangrento (1984)

Natal Sangrento
Original:Silent Night, Deadly Night
Ano:1984•País:EUA
Direção:Charles E. Sellier Jr.
Roteiro:Paul Caimi, Michael Hickey
Produção:Ira Barmak
Elenco:Lilyan Chauvin, Gilmer McCormick, Toni Nero, Robert Brian Wilson, Britt Leach, Nancy Borgenicht, H.E.D. Redford, Danny Wagner, Linnea Quigley, Leo Geter

Você se comportou bem durante o ano? Durante os anos iniciais de sua vida, você acreditava que o seu bom comportamento motivaria um homem barrigudo, trajando botas, um gorro e roupas vermelhas, a atravessar o Polo Norte para lhe trazer presentes. Antes de perder a magia das tradições natalinas e passar a usar a data para beber com os amigos e lembrar das aventuras realizadas no decorrer do ano, o Papai Noel era a materialização da bondade humana, produzindo brinquedos com a ajuda de duendes em sua fábrica de realização de sonhos. Baseado em contos hagiográficos sobre a figura de São Nicolau, o bom velhinho passou a adquirir suas características populares com a propaganda da coca-cola, a primeira a utilizar o personagem com suas roupas vermelhas. Alguns atribuem sua morada nas montanhas de Korvatunturi na Lapônia, Finlândia, enquanto outros realmente acreditam que sua residência seja no Polo Norte. De todo modo, os olhares ingênuos ainda respeitam suas atitudes e jamais imaginariam que algo ruim pudesse vir de uma pessoa tão doce, meiga, divina! Toda o encantamento foi quebrado em 1984, data de lançamento do controverso slasher Silent Night, Deadly Night, lançado no Brasil em VHS como Natal Sangrento.

Era fácil entender os assassinos que tinham motivações em datas populares como Sexta-Feira 13, Halloween e até Reveillon, mas quem ousaria imaginar que uma produção teria como argumento um Papai Noel cruel, sanguinário, capaz de cortar a cabeça de dos desavisados que cruzarem o seu caminho. Na época, críticos como Leonard Maltin condenaram o filme, dizendo frases como O que virá a seguir: um coelhinho da Páscoa molestador de crianças? Gene Siskel e Roger Ebert, que apresentavam o programa At the Movies, disseram na época que o longa era uma vergonha, realizado com dinheiro de sangue. Multidões foram à porta dos cinemas blasfemar contra quem fosse vê-lo, obrigando a distribuidora original, TriStar Pictures, a tirar todos os anúncios da produção seis dias após seu lançamento oficial. Já na Inglaterra, o filme nem chegou a ser lançado comercialmente, embora nunca tenha sido considerado um video nasty. A BBFC só permitiu que a produção chegasse por lá depois de muitos cortes, estampar um selo de censura, em 2009, a pedido da distribuidora Arrow Films.

Todo esse movimento contra o filme só serviu para ele se tornar ainda mais popular e procurado pelos fãs do gênero. E nem era para tanto: Natal Sangrento é um ótimo slasher, um dos melhores da década de 80, mas não possui cenas fortes, violência desenfreada, nem assassinato de alguma tartaruga. O motivo de tanto barulho é a simples ideia de ter um homem vestido de Papai Noel como vilão! Para os censores, era provável que o filme pudesse destruir a boa imagem que as crianças tinham da figura natalina, causar pequenos traumas e dores de cabeça para os pais. Que bobagem!

Natal Sangrento estreou nos EUA no dia 9 de novembro de 1984, no mesmo dia que A Hora do Pesadelo, de Wes Craven. O Papai Noel assassino desbancou Freddy Krueger já no final de semana de estreia, arrecadando quase um milhão e meio (num total de dois milhões e meio); enquanto o mestre dos pesadelos fez pouco mais de um milhão (conseguindo o total de 10 milhões). A diferença é que a censura arrancou o filme de Natal dos cinemas seis dias depois de sua estreia, enquanto A Hora do Pesadelo virou o ano em cartaz! É óbvio que toda essa polêmica transformou o filme em cult e gerou diversas continuações inferiores, como aconteceu com outros slashers-irmãos do período.

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Diferente dos filmes de assassinos em série, cujas famílias são o grande motivador de suas atitudes (Rob Zombie que o diga!), a trágica história de Billy Chapman é baseada em incidentes traumáticos, tornando-se até compreensível entender o que levou a cometer tantos assassinatos. Ele não foi abusado quando criança, não sofreu bullying, não matava animais e nem teve disfunção no fígado! Pelo contrário! Billy era um garoto saudável, inteligente e com pais amorosos, preocupados com a sua educação. Então, como ele poderia se transformar num monstro, tendo uma boa base de estudos e família? Para isso, o excelente roteiro de Michael Hickey, baseado num argumento de Paul Caimi, teve a paciência de contar a vida do garoto nos primeiro 45 minutos da produção, permitindo que o público acompanhe sua história e até entenda todo o processo de transformação.

Na cena inicial, em 1971, a família Chapman está num passeio de carro rumo à Clínica Mental de Utah, onde o vovô está internado há algum tempo. Além do garoto de 5 anos Billy (Jonathan Best, que depois só faria filmes bíblicos para pagar os pecados), estão seu pai Jim (Geoff Hansen), sua mãe Ellie (Tara Buckman) e o bebê Richard. No caminho, o garoto folheia um livro natalino e pergunta sobre a visita do Papai Noel naquela noite, sendo avisado pelo pai que a figura só iria aparecer depois que ele estivesse dormindo. Na Clínica, a família encontra o vovô (Will Hare, de De Volta para o Futuro) em estado de catatonia. Quando os pais se afastam, o velho desperta e no pior estilo Crazy Ralph alerta o menino sobre o Papai Noel, dizendo que ele poderia castigá-lo caso ele não tenha sido um bom garoto.

Enquanto isso, perto dali, um homem vestido de Papai Noel assalta um mercado e mata o caixa antes de roubar o dinheiro. Com problemas no veículo, ele pede carona na estrada, justamente para o carro da família Chapman, que se aproxima. Assustado com as palavras do avô, o menino pede que seu pai não pare, mas é tarde demais. O homem mostra um revólver, fazendo o pai acelerar repentinamente até ser baleado na cabeça. Sob o olhar de Billy, escondido numa moita, o bandido arranca a mãe do carro, rasga sua blusa e corta sua garganta.

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Três anos depois, morando no orfanato Lar para Meninos Órfãos Santa Maria, Billy (Danny Wagner) é um garoto normal o ano inteiro até a chegada do Natal, quando se torna agitado e agressivo. Seja nos desenhos sangrentos ou na fuga de seu quarto após um pesadelo com a fatídica noite, Billy ainda sofre nas mãos da Madre Superiora (Lilyan Chauvin, de Predador 2 – A Caçada Continua), com surras e frases que o apontam como um menino malvado. Seu único conforto está na irmã Margaret (Gilmer McCormick), que até tenta trazer boas coisas para o jovem, cujos traumas continuam aumentando: ele vê um casal fazendo sexo é a Madre avisa que aquilo é errado, colocando-o para sentar no colo do Papai Noel, resultando num belíssimo murro na fuça, numa cena hilária.

A situação piora em 1984, quando Billy, aos 18, interpretado por Robert Brian Wilson, é levado para trabalhar na loja de brinquedos Ira´s Toys, do Sr. Sims (Britt Leach). Durante meses, seu trabalho e posturas são elogiados, até mesmo por sua paquera, a jovem Pamela (Toni Nero), mas quando chega o Natal…decidem colocá-lo como Papai Noel do estabelecimento. Esse ato, somado a algumas doses alcóolicas e o fato de Pamela estar se engraçando com o chato Andy (Randy Stumpf), faz com que Billy mude seu comportamento na véspera da noite de Natal. Ao ver sua paquera sendo agarrada à força, o que remete ao que aconteceu com sua mãe, Billy se transforma numa máquina assassina, enforcando o colega de trabalho com luzes de Natal e esfaqueando Pamela.

Se a trama se arrastou até os 45 minutos sem sangue, tudo é compensando pelas formas criativas com a qual ele passa a matar todos que cruzam seu caminho. Daí temos martelada, flechada, machadada, empalamento e mortes diversas, com Billy proferindo poucas frases, apenas ou questionando o comportamento de alguma criancinha. Ele não poupa um casal de namorados, interpretados pela scream queen sempre nua Linnea Quigley (A Volta dos Mortos-Vivos) e Leo Geter (Quando Chega a Escuridão), nem uns rapazes que resolvem esquiar na fatídica noite.

Apesar da violência, o roteirista Michael Hickey acrescentou algumas doses leves de humor negro, tornando tudo mais divertido e eficiente. Não acredito que temos que prender o Papai Noel na noite de Natal!, diz um policial. E se prendermos o verdadeiro? Nosso chefe nunca está satisfeito e vai querer que a gente prenda também o Coelho da Páscoa. Logo após esse diálogo, eles veem um Papai Noel entrando numa moradia e invadem a casa no momento em que este se aproximava de uma criança. Ao acender a luz, a pequena vê a figura natalina e diz Papai?.

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Em outro momento, um Papai Noel é baleado em frente as crianças do orfanato. Por que você atirou no Padre?. O policial responde: Eu gritei para ele parar, mas ele continuou andando!É claro, ele é surdo!, responde a Madre Superiora. Noutra cena, Você foi uma boa garota?, questiona Billy a pequena Cindy. Sim. Então, o assassino presenteia a menina com um canivete, fazendo com que ela esboce uma careta.

Esse slasher não teria um resultado tão bom se não tivesse uma direção segura. Charles E. Sellier Jr. fez um trabalho correto, ao desenvolver rimas visuais entre cenas de violência e enfeites de Natal. Enquanto mostra um homem com a cabeça rachada por um martelo também traz brinquedos coloridos e luzes brilhantes. A cena em que o Papai Noel assassino arranca a cabeça de um boneco de neve tornou-se clássica para a produção ao apresentar um machado sujo de sangue num contraponto à neve branca. Após o lançamento de Natal Sangrento, ele dirigiria Os Aniquiladores (1985) e passaria a trabalhar apenas como produtor na empresa que criou, a independente Grizzly Adams Productions, até falecer em janeiro de 2011 aos 67 anos.

Natal Sangrento é um filme divertido e bem feito. Soube desenvolver adequadamente os personagens – principalmente o caráter duvidoso da Madre e do processo de transformação de Billy – e dosar com muito sangue e mortes criativas. Não merecia toda a censura sofrida, mesmo sabendo que ela contribuiu para o sucesso da produção! É, sem dúvida, o filme que melhor retrata a data em associação com o gênero terror, tornando-se produto obrigatório para os fãs de slashers e de boas produções da década de 80. Se tiver a oportunidade, tenha um mau comportamento e peça para o Papai Noel. Quem sabe ele não te visite à noite, com seu machado…

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

10 thoughts on “Natal Sangrento (1984)

  • 08/02/2016 em 03:49
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    Um dos melhores slashers que eu já assisti!!!

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  • 25/04/2015 em 16:02
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    Eu já vi este filme, é legal, eu tenho o 2, também é bom.

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  • 30/07/2014 em 19:45
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    Eu sou meio chato(exigente) com muitos filmes, mas esse merece nota 10. Só estranho ele não ser tão famoso como o…arghh… Sexta-Feira 13, entre outros.
    Natal Sangrento é pra ser reverenciado. 🙂

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  • 24/12/2013 em 15:04
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    Vou assistir esse filme na net com certeza…

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  • 24/12/2013 em 14:14
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    adoraria assisti-lo,vou caçar na net.

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  • 24/12/2013 em 12:23
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    ouvi bons comentários sobre o filme, a critica me convenceu assisti-lo heuaheuah
    merry christmas

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