Torso (1973)

Torso (1973) (3)

Torso
Original:Torso
Ano:1973•País:Itália
Direção:Sergio Martino
Roteiro:Sergio Martino e Ernesto Gastaldi
Produção:Carlo Ponti
Elenco:Suzy Kendall, Tina Aumont, Luc Merenda, John Richardson, Roberto Bisacco, Conchita Airoldi

Eis o giallo em sua essência mais pura. Nada de firulas e rebuscamentos, o que temos aqui é simplesmente um exercício de sadismo direto, brutal e sensual. É o exemplar desse subgênero do exploitation italiano que mais se aproxima de seu filho bastardo americano: os slashers movies, mais até do que Banho de Sangue (Reazione a Catena, 1971) do Mario Bava, mesmo que pese o fato deste último ter servido declaradamente de matriz para os primeiros exemplares da série Sexta-Feira 13.

A trama chega a ser absurdamente ridícula de tão simples, e paradoxalmente notável de tão funcional: como muitos outros filmes (principalmente milhares dos já citados slashers que seriam feitos posteriormente) têm aqui um misterioso assassino mascarado (e usando luvas pretas, é claro, afinal estamos num giallo) aterrorizando a cidade ao assassinar jovens e indefesas universitárias.

Assim como Jason Voorhees, o nosso vilão mascarado aqui também parece ser onipresente e pronto para assassinar pessoas depois de cometer coisas feias como sexo e uso de drogas, mas ao contrário de seu similar yankee (que sempre foi dotado de um viés moralista), aqui, o serial killer não se contenta em apenas matar as pessoas; após o homicídio ele se aproveita e bolina os seios dos cadáveres para depois dar aquela esquartejada básica.

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A principal personagem feminina, a final girl da trama, é Jane (Suzy Kendall, que a essa altura já era um ícone do giallo ao estrelar o sucesso O Pássaro das Plumas de Cristal do Argento, e curiosamente a única garota que não tira a roupa no filme), que mesmo após suas amigas serem assassinadas, se juntam com outras três e vão passar uns dias bucólicos numa mansão no interior. É claro que o assassino se deslocará para lá (assim como outros personagens masculinos, para aumentar o número de suspeitos), o que proporcionará um clímax inesquecível.

Como podem ver, I Corpi Presentano Tracce di Violenza Carnale (este título italiano é simplesmente genial) não tem nada de original e amontoa clichês até dizer chega: não falta nem mesmo o trauma infantil do psicopata! Mas o que poderia cair na rotina acaba sendo sua maior força. Mérito total para o diretor Sergio Martino que aqui construiu sua opus, um diretor que sempre foi relegado para o segundo escalão do exploitation italiano que com uma sinopse simples e banal se esbalda criando um universo de pura violência e sensualidade.

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Se o giallo surgiu como uma versão cinematográfica macarrônica dos velhos contos de mistério da língua inglesa (mais notadamente inspirado em nomes como Edgar Wallace e Agatha Christie), só que ao contrário do clima pueril de sua fonte literária, teríamos uma dose maior de violência e erotismo. Aqui o diretor simplesmente pega essas regras básicas e os maximiza. Os assassinatos aqui são brutais e o sangue corre vermelho aos litros (com direito a desmembramentos feitos com uma serra). Quanto ao erotismo, o clima de sensualidade permeia quase todo o filme, com as garotas tirando a roupa constantemente – poucas vezes se viu vítimas tão lascivas quanto às daqui. E todos os personagens masculinos parecem tarados em potencial (sem contarmos que foi feito em plena época da ressaca do flower power e seu clima de amor livre). Martino nos brinda com dois momentos antológicos: o assassinato da moça (interpretada por Conchita Airoldi, aqui creditada como Cristina Iroldi) na floresta em meio a névoa, com movimentos de câmera inspirados, e a ótima trilha sonora de autoria dos irmãos Guido e Maurizio de Angelis, uma cena realmente genial.

A meia hora final, em que a personagem de Suzy Kendall tem que se esconder do assassino dentro da mansão, elevando o nível de suspense a picos incríveis, é realmente de tirar o fôlego. Isso sem contar da abertura com créditos, onde se vê ao fundo uma suruba desfocada.

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Não deixa de ser curioso também o fato do filme ser produzido pelo poderoso produtor Carlo Ponti (de obras como o épico Dr. Jivago de David Lean), aqui num claro momento de pura insanidade.

Censurado e mutilado ao longo do tempo, a versão uncut lançado pelo selo norte-americano Blue Underground, a exemplo de filmes como Profondo Rosso e outros tantos, tem cenas faladas na língua italiana simplesmente porque não existem as cenas com a dublagem inglesa, enquanto o resto fica dublado na língua do Tio Sam mesmo. Enquanto aqui no Brasil saiu uma cópia em dvd pela Continental das mais vagabundas, as cores são tão desbotadas que o filme todo fica quase em sépia! Para compensar essa presepada o selo Versátil lançou há pouco tempo uma versão digital decente que está no box Giallo vol. 2. DVD duplo em formato digipack que além de Torso, traz outros três biscoitos finos: Uma Lagartixa num Corpo de Mulher de Lucio Fulci, O que Vocês Fizeram com Solange? de Massimo Dallamano e A Breve Noite das Bonecas de Vidro, de Aldo Lado. Simplesmente imperdível.

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Não é a toa que Quentin Tarantino e Eli Roth pagam louvores de joelhos para essa obra. Rústico, bruto e viril, Torso é simplesmente o exploitation italiano em sua melhor forma. A obra-prima de Martino e com certeza um dos melhores exemplares do giallo. Um filmaço!

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Paulo Blob

Paulo Blob

Nascido em Cachoeirinha, editou o zine punk: Foco de Revolta e criou o Blog do Blob. É colunista do site O Café e do portal Gore Boulevard!

2 comentários em “Torso (1973)

  • 06/11/2016 em 13:26
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    Com certeza!
    Eu acabei de assistir, da coleção “Giallo vol. 2” da Versátil, e devo dizer: É um filme brutal! Nunca me senti tão tenso com um giallo, desde a cena do cachorro em “Tenebre” (1982), do Dario Argento, presente na primeira coleção da Versátil.
    Mas mesmo assim, é também um filme brilhante, e um dos melhores gialli de todos os tempos. A figura do assassino é simplesmente icônica, talvez até mais do que dos outros assassinos do gênero.
    Enfim, um Clássico absoluto; um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos!
    Super recomendado!

    Resposta
  • 27/05/2016 em 18:23
    Permalink

    Concordo com voce Paulo Blob á copia da Continental é uma porcaria eu mesmo consegui assistir a meia – hora de filme depois á imagem congelou e tecnicamente acho que essa midia já foi pro saco ,tentarei comprar essa copia da maravilhosa Versatil quando baixar de preço,pois para mim ainda esta caro compra-la.

    Resposta

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