Cam (2018)

Cam
Original:Cam
Ano:2018•País:EUA
Direção:Daniel Goldhaber
Roteiro:Isa Mazzei, Daniel Goldhaber, Isabelle Link-Levy
Produção:Greg Gilreath, Adam Hendricks, John H. Lang, Isabelle Link-Levy
Elenco:Madeline Brewer, Patch Darragh, Melora Walters, Devin Druid, Imani Hakim, Michael Dempsey, Flora Diaz, Samantha Robinson, Jessica Parker Kennedy, Quei Tann

Cam é um tipo de filme que eu não gosto de primeira, pois ele termina e deixa a sensação de que faltou alguma explicação. Tive que revê-lo para realmente conseguir formar uma opinião sobre. A história não é complexa nem nada disso. A necessidade de assistir duas vezes aparece para ruminar a trama e as atuações. E o saldo foi positivo.

Alice (a excelente Madeline Brewer, de The Handmaid’s Tale) é uma camgirl com o codinome Lola. Seu perfil está em ascensão no site em que atua e espera chegar entre as 50 garotas mais visualizadas, como meta pessoal e também para ganhar segurança suficiente para contar a sua mãe sobre sua profissão. Alice é organizada e leva seu trabalho muito a sério, mantendo planilhas de ideias para os vídeos e buscando sempre a originalidade. Aqui já temos um primeiro ponto em que o filme se destaca: a naturalização do trabalho com sexo. Quando finalmente consegue entrar no top 50 de perfis mais acessados do site, Alice tem sua conta roubada. Alguém está se passando por ela, assumindo o perfil da Lola e conquistando novas visualizações em cima do trabalho executado anteriormente pela protagonista. Sem conseguir a assistência necessária do pessoal do site (afinal de contas, ela não tem mais acesso ao portal, e como se Lola e Alice nunca tivessem tido nenhuma relação), Alice parte para uma investigação solitária.

Em nenhum momento Cam tenta passar a mensagem que o trabalho com sexo é errado ou que a internet é um grande meio demoníaco. O filme aborda algo que pode acontecer com qualquer pessoa a partir do momento em que colocamos nossas informações online: sermos roubados. A exposição, em qualquer grau, pode trazer tal consequência. E Cam aproveita o gancho para dar alfinetadas sobre a postura de algumas pessoas quanto a Alice e seu trabalho: o seguidor que se acha dono dela, o policial que acha que isso aconteceu por ela trabalhar com sexo, os amigos do irmão e o bullying, e sua amiga Katie, que ao descobrir com o que Alice trabalha vira os olhos com ar de desdém.

O filme segue um ritmo instigante. Assim que nos afeiçoamos por Alice, seu perfil é roubado, então sofremos junto com ela na busca pelos culpados. Além da postura de Madeline Brewer mudar completamente na sua versão fake. Quando Alice fazia a Lola, ela tinha movimentos mais retidos, ponderava sobre o que os seguidores pediam antes de executar. E agora, essa Lola independente tem uma naturalidade maior diante da câmera, como se não pensasse em consequências daquilo que lhe pedem para fazer. E essa é a grande jogada para o clímax de Cam.

O filme traz referências a Alice no País das Maravilhas, mas não fica muito clara a profundidade de tais alusões. Acho que qualquer mergulho maior em associações entre as duas narrativas pode soar um pouco como teoria da conspiração. Mas o filme deixa pontas dessas camadas, e cabe ao público julgá-las relevantes. As referências começam pelo nome da protagonista e pelos perfis fakes que usa para entrar no site (MrTeapot e Mad_Hatter). Além disso, quando Alice se transforma em Lola, existe um mundo à parte criado para isso. Ela deixa um quarto especial em sua casa para tais ações, único espaço que mostra ao público (com exceção daqueles que pedem o chat privado). O ambiente é composto por uma mistura de cores e decoração lúdica. O roxo, rosa, azul e vermelho definem esse espaço e a caracterização da personagem dentro dele. Para ser Lola, Alice mergulha em outra realidade.

E no final das contas, o filme deixa um final aberto quanto à solução do mistério da conta roubada. Na primeira vez que assisti, isso me incomodou muito. Me senti traída! Como assim esse final aberto? Mas dando uma segunda chance a narrativa, percebi que a intenção do filme é criar o suspense, mas principalmente mostrar a perspectiva da Alice. Pontas também ficam abertas para ela, mas o que importa no final das contas é o amor que sente pelo seu trabalho.

Cam pode não agradar todo mundo por seu final aberto, mas é um bom suspense que desmistifica a temática do trabalho online, com algumas camadas de interpretação e excelente escolha de atores. Vale a visita.

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Luana Caroline Damião

Luana Caroline Damião

Graduada em museologia, fã de faroestes e Christopher Lee, deseja que o mundo acabe com um apocalipse zumbi, onde, certamente, será um dos mortos-vivos.

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