Palhaço Assassino (1989)

Palhaço Assassino
Original:Clownhouse
Ano:1989•País:EUA
Direção:Victor Salva
Roteiro:Victor Salva
Produção:Michael Danty, Robin Mortarotti, Victor Salva
Elenco:Nathan Forrest Winters, Brian McHugh, Sam Rockwell, Michael Jerome West, Byron Weible, David C. Reinecker, Timothy Enos, Karl-Heinz Teuber, Frank Diamanti

Uma referência entre os coulrofóbicos, Clownhouse é ainda mais conhecido por sua polêmica. O primeiro longa de horror do cineasta americano Victor Salva – e que depois faria a celebrada franquia Olhos Famintos – conquistou elogios da crítica especializada na época ao mesmo tempo em que atraiu a atenção para um terrível crime ocorrido durante as filmagens. O ator-mirim Nathan Forrest Winters, de apenas 12 anos, em sua única produção para o cinema (devido aos problemas judiciais e psicológicos que envolveram os bastidores da obra), foi molestado sexualmente pelo diretor, que, inclusive, fez gravações de seu ato. Salva ficou preso apenas três anos, conseguindo liberdade condicional mesmo sob os protestos públicos de Winters. E o que deveria ser lembrado como um interessante thriller envolvendo palhaços assassinos não conseguiu ir além da obscuridade, ainda que tenha seus méritos.

O jovem Casey (Winters) sofre de um temor absoluto de palhaços. Constantemente assombrado por pesadelos, com aquela atmosfera característica dos anos 80, ele ainda tem que resistir às provocações do irmão mais velho, Randy (Sam Rockwell, sua estreia no cinema), apesar das tentativas de defesa do complacente Geoffrey (Brian McHugh). No pesadelo do prólogo, Casey desperta durante uma madrugada de tempestade intensa, que destaca um boneco enforcado em frente à casa, e se assusta ao olhar pela janela e ver o flyer de um espetáculo circense na região. Após despertar e tentar encobrir que urinou na cama, para gozação de Randy, os jovens são vistos em roupas mínimas, o que já evidencia o interesse doentio pela exposição dos corpos de menores de idade.

Depois de descobrirem na caminhada à escola que houve movimentação policial em um hospício próximo à residência, eles comentam sobre a possibilidade de fuga e o interesse em participar das brincadeiras do Circo Jolly. Com o aviso da mãe (Viletta Skillman) sobre a ausência à noite, eles vão ao carnival, atendendo ao interesse de Randy de ficar com Melissa (Sondra Utterback). Lá, eles visitam a tenda de uma sinistra vidente (Gloria Belsky), que se assusta ao perceber que a linha da vida de Casey está cortada. Terror maior o garoto passará durante o espetáculo, quando os palhaços Cheezo (Timothy Enos), Bippo (Frank Diamanti) e Dippo (Karl-Heinz Teuber, de A Maldição dos Zumbis, 1989) tentarem convencê-lo a participar de uma brincadeira.

Assim que retornam para casa, com a perspectiva de ver um bom filme de terror na televisão, perto dali, no circo, três loucos, fugidos do hospício, matam os palhaços e roubam suas roupas e maquiagem. É claro que é preciso desconsiderar o fato dos loucos conseguirem facilmente se maquiar e usar as fantasias, assim como copiar algumas brincadeiras dos palhaços; assim como também deles matarem rapidamente qualquer pessoa que cruze seu caminho mas demorar uma eternidade para se revelar aos garotos. Além disso, Salva é bastante discreto nas mortes, sem expor sangue ou violência, o que contraria a tônica dos slashers.

A partir de então, Clownhouse trabalha um suspense módico ao esconder os vilões nos arbustos e cômodos da morada. Os jovens caminham livremente pela casa, sendo que apenas Casey sabe que “o seu pesadelo” está nas redondezas. Em dado momento, Randy e Casey saem para comprar pipoca numa vendinha próxima, seguidos por dois palhaços que chegam a correr atrás da dupla sem que sejam notados, ainda que o ambiente seja repleto de galhos e folhas secas. O passeio acaba servindo apenas para aumentar o número de corpos e ampliar a tensão pela capacidade agressividade dos inimigos. Quando a luz acaba e um deles desaparece, resta aos sobreviventes encontrar um meio de escapar dos assassinos e avisar a polícia.

Trabalhando com uma ótima atmosfera de terror, pela noite escura e a casa repleta de ambientes, Clownhouse propõe ao infernauta alguns bons arrepios. Seja na brincadeira envolvendo o corpo pendurado para o Halloween e a possibilidade de que possa ser algum deles, ou na sequência em que os três invasores entram pela porta da frente na casa, com o ranger da porta sendo ouvido pelos garotos. Ignora-se o fato dos assassinos já terem sido vistos pela casa anteriormente, e não ser aquele o primeiro momento da invasão.

Este primeiro longa de Victor Salva foi feito com o apoio do cineasta Francis Ford Coppola. Depois dele assistir ao curta de Salva, Something in the Basement, ele viu no novo diretor uma boa possibilidade de evolução na carreira e deu dinheiro, equipamentos e ainda cedeu sua morada para as filmagens. Após a revelação do crime cometido por Salva, Coppola só deixou o nome do filho, Roman, como produtor executivo, e somente voltaria a se associar com ele com a produção de Olhos Famintos. Clownhouse, então, teria um breve lançamento nos cinemas, depois chegaria aos VHS pela RCA/Columbia, para somente em 2003 ser lançado em DVD com distribuição da Metro-Goldwyn-Mayer. Devido aos protestos novamente contra o diretor, o longa foi recolhido nas prateleiras.

No Brasil, Clownhouse foi lançado em VHS pela Top Tape com o errôneo anúncio do diretor ser um tal Richard Favaro, talvez numa tentativa da distribuidora de esconder o nome de Salva. A capinha pouco atraente com a tagline “Nunca a morte esteve tão perto” não fez tanto sucesso para o filme como o título usando em algumas exibições pela TV: Máscaras dos Terror – com a mais assustadora vestida pelo próprio cineasta, revelada como um terror real e perturbador.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

Um comentário em “Palhaço Assassino (1989)

  • 09/09/2019 em 18:23
    Permalink

    Parabéns ao Autor por ser um dos poucos, poucos mesmo, a tocarem no tabu do que o diretor fez fora dos seus filmes, infelizmente, é algo que mesmo o foco sendo analise dos seus filmes fica difícil não notar, ou ocultar, pois em “Olhos Famintos 2”, seu trabalho mais bem sucedido (minha opinião) também vemos um certo interesse do Monstro por corpos de adolescentes masculinos.

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