A Plague Tale: Innocence (2019)

Original:A Plague Tale: Innocence
Ano:2019•País:França
Desenvolvedora:Asobo Studio•Distribuidora: Focus Home Interactive

Jogos narrativos não tem sido exatamente a maior das tendências nessa geração. Na verdade, encontrar jogos que contém uma boa e envolvente história tem ficado difícil, principalmente no gênero de horror, ainda que vez ou outra haja alguma surpresa. E dentro dessas pequenas surpresas, um pouco conhecido estúdio francês conseguiu se destacar ao nos apresentar A Plague Tale: Innocence, um jogo que preza essencialmente pela sua narrativa de forma tão dedicada, que o resultado na verdade se torna um pouco conflitante.

A Plague Tale é um jogo linear, em terceira pessoa, onde de cara somos transportados para a França do século XIV. Com um belíssimo gráfico e ambientações bem construídas, estamos no controle de Amicia de Rune, que mesmo vivendo um período desolador da Europa Medieval, tem a tranquilidade de uma família amorosa, um lar aconchegante e bastante vívido… algo que logo é completamente destruído quando um cavaleiro da Inquisição chega, mata seus pais e todos que vivem na propriedade na busca por seu irmão Hugo, de apenas cinco anos. Fugindo com o garoto e precisando se esconder para sobreviver, além de tentar resolver o mistério de por que a Inquisição deseja Hugo, é aí que o jogo começa de verdade.

Sim, a história de A Plague Tale é uma tragédia. Amicia e Hugo, duas crianças, logo se veem sem rumo, num país desolado que vive ao mesmo tempo a Grande Fome, a Inquisição, a Guerra dos Cem Anos e, principalmente, a Peste Negra, doença responsável pela maior pandemia da História, que devastou toda a Europa e que é a grande vilã do jogo, representada principalmente pelas gigantescas hordas de ratos, presentes o tempo todo no jogo e que o torna nada recomendável para quem tem fobia do roedor.

Ainda assim, é no meio de tudo isso que a beleza de A Plague Tale se constrói, principalmente em seus personagens extremamente humanos. É impossível odiar os irmãos de Rune. Pelo contrário, a relação de ambos se constrói de forma bela ao longo do jogo, sejam pelos comentários inocentes de Hugo vendo beleza onde há grandes desgraças, principalmente por meio de flores, ou no controle de Amicia, que mesmo sendo uma criança, é obrigada a lutar e matar seus perseguidores.

Aliás, a morte é um dos principais elementos do jogo. E diferente da maioria dos games onde matar é quase que uma atitude banal e vazia, em A Plague Tale ela tem um impacto. O primeiro assassinato que Amicia precisa fazer com sua baladeira é impactante para a garota e para o jogador. Algumas outras decisões de vidas que precisam ser tiradas também são bastante fortes. O auge definitivamente vai para uma das cenas mais épicas do jogo, onde somos obrigados a atravessar um campo de guerra tomado por pilhas e pilhas de corpos que, obviamente, logo atraem o mar de ratos.

Mas toda essa contemplação narrativa não se equilibra bem com sua jogabilidade. A Plague Tale nos obriga a variar constantemente entre ação e stealth. E se no stealth temos principalmente uma inteligência artificial bastante burra, onde desviar e enganar é fácil, na ação temos uma experiência limitada e cansativa, resumindo tudo entre matar soldados com pedradas. Tudo fica muito repetitivo e mesmo as novas habilidades ou são muito pontuais, ou você pode passar o jogo todo batido por elas.

Até mesmo os puzzles que envolvem as gigantescas ondas de ratos são simples e seguem basicamente a mesma fórmula de se manter na luz que os irrita. Há bons momentos claro, incluindo quando começa o famoso “furacão de rato“, mas A Plague Tale começa a ficar cansativo de sua metade pro final.

Um dos motivos é que a construção de personagens tão bem apresentada no começo fica caricata e simplista a medida que praticamente um mini orfanato é criado no jogo. Até mesmo os ótimos momentos entre os irmãos de Rune diminuem.

Mas é a guinada do enredo que fica mais difícil de aceitar. Do excelente início que contextualiza sutilmente uma França assombrada pela Peste Bubônica de forma bastante realista, passamos a um mistério sobrenatural que mistura uma ciência inexistente da época com fatos em relação a Hugo que não tem lá muita graça. A construção do grande vilão humano do jogo também deixa a desejar demais, ainda que no final A Plague Tale ainda consiga nos empolgar com seu desfecho. A boa trilha sonora e a excelente dublagem em francês contribuem muito para isso.

De fato, mesmo em alto desequilíbrio, A Plague Tale nos envolve. A narrativa boa de acompanhar está bem acima da média, com personagens com quem nos importamos, com a história guardando ainda surpresas de momentos belos e até mesmo marcantes.

A Plague Tale está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. 

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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