Little Joe (2019)

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Little Joe
Original:Little Joe
Ano:2019•País:UK, Áustria, Alemanha, França
Direção:Jessica Hausner
Roteiro:Jessica Hausner, Géraldine Bajard
Produção:Philippe Bober, Bertrand Faivre, Martin Gschlacht, Jessica Hausner
Elenco:Emile Beecham, Ben Whishaw, Kerry Fox, Kit Connor, David Wilmot, Phénix Brossard, Sebastian Hulk, Lindsay Duncan, Jessie Mae Alonzo, Andrew Rajan

Não é segredo nem novidade para os cinéfilos que acompanham o gênero fantástico, que, de uma forma mais ou menos consciente ou deliberada, o cinema de horror, fantasia e ficção científica sempre serviu como alegoria, metáfora ou representação de medos e problemáticas bastante calcadas na realidade de seu tempo. Portanto, não é incomum que entra ano, sai ano, sejamos brindados com obras marcantes que são estudadas nem tanto pelas imagens aterrorizantes ou efeitos especiais de ponta, mas justamente por refletirem temáticas caras e ambiciosas. Este é o caso de Little Joe, drama de ficção científica ainda inédito no Brasil, que, apesar de possuir elementos que remetem tanto a Invasores de Corpos quanto o conto de Stephen King, O Fim da Confusão Toda, ainda assim consegue se firmar como um longa autêntico e alegórico aos tempos atuais, seja no conceito de felicidade, seja na reflexão sobre o uso massivo de antidepressivos como nunca antes visto.

Primeiro trabalho britânico da austríaca Jessica Hausner, Little Joe acompanha a botânica Alice (Emile Beecham, melhor atriz em Cannes), criadora do projeto de uma planta cuja flor foi geneticamente modificada para exalar uma fragrância contendo um precursor do hormônio oxitocina, que geraria felicidade constante naquele que convivesse com a planta. A princípio entusiasmada com a inovadora ideia, Alice começa a ficar preocupada com os efeitos causados por sua criação quando leva uma das amostras para casa e seu filho, Joe (Kit Connor) passa a exibir mudanças de comportamento. Aliás, não só seu filho, já que seus colegas do Instituto de Pesquisas também parecem cada vez menos com eles mesmos.

Construído pelos detalhes, o roteiro escrito por Hausner e sua parceira habitual, Géraldine Bajard, aposta em diálogos curtos e aparentemente prosaicos que giram sempre em torno de Alice, especialmente nas conversas travadas com sua terapeuta (Lindsay Duncan), porém é quando as falas somem que o longa realmente mostra a que veio. Embalado por uma trilha sonora quase onipresente de composições do japonês Teiji Ito, os acordes, constantes de flauta, tambor, cordas e sons exóticos, remetem diretamente à natureza e ao oculto nela presente, contribuindo para o mistério da trama. Abusando do uso da steadicam e de planos estáticos, o filme visualmente evoca uma esterilidade através de cores predominantemente brancas e verdes a revelar uma assepsia que permeia todo o filme, e é justamente aí que reside tanto a principal virtude como também o que alguns considerariam seu principal “erro”.

Seu andamento absurdamente lento e a ausências de basicamente nenhuma cena de ação pode provocar no espectador a sensação de que essencialmente nada acontece na tela, porém no comportamento apático das personagens é que residem as grandes questões que o filme levanta: se ao final da projeção permanece um sentimento bastante ambíguo se, de fato, a planta modificou quem tomou contato com seu pólen, ou se tudo não passou de uma projeção dos medos de Alice, é porque, talvez, aquelas pessoas não eram assim tão diferentes antes de entrarem em contato com a flor.

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Marcus Augusto Lamim

Um seguidor fiel do cinema em todos seus formatos e gêneros, amante de rock e do gênero fantástico, roteirista amador e graduando em química.

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