O Soro Maldito (1971)

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O Soro Maldito
Original:I, Monster
Ano:1971•País:UK
Direção:Stephen Weeks
Roteiro:Milton Subotsky, Robert Louis Stevenson
Produção: Max Rosenberg, Milton Subotsky
Elenco:Christopher Lee, Peter Cushing, Mike Raven, Richard Hurndall, George Merritt, Kenneth J. Warren, Susan Jameson, Marjie Lawrence, Aimée Delamain, Michael Des Barres

Produzido pela “Amicus” em 1972 e estrelado por Christopher Lee e Peter Cushing , O Soro Maldito (I, Monster) é uma raridade sem precedentes para fãs e colecionadores – e o mais incrível de tudo é que foi lançado em vídeo VHS no Brasil (só não me lembro por qual distribuidora, me desculpem, e há muito fora de catálogo). Trata-se de uma versão livre da clássica história de terror e ficção científica “O Médico e o Monstro” (“The Strange Case of Dr. Jakyll end Mr. Hyde”), escrita por Robert Louis Stevenson e publicada em 1886.

Essa famosa história, assim como tantas outras da literatura fantástica, teve inúmeras adaptações no cinema e na TV, sendo as mais notórias: a rara versão muda dirigida por John Robertson e estrelada por John Barrymore em 1920; a também pouco conhecida (por nós…) versão feita pela “Paramount” e estrelada por Fredric March (que ganhou até um Oscar pelo papel duplo), sob direção de Rouben Mamoulian, em 1932; o clássico refinado feito pela “MGM” em 1941, desta vez com Spencer Tracy à frente do elenco (que também contou com a belíssima Ingrid Bergmam) e Victor… e o Vento LevouFleming na direção; e esse impagável O Soro Maldito, de Stephen Weeks, da produtora que “disputava” com a “Hammer Films” a atenção do público inglês no período que vai da segunda metade da década de 1950 até meados dos anos 1970. E se alguma vez a “Amicus” teve uma “idade de ouro“, esta, sem dúvida, ocorreu nos anos 70. É nessa fase que foram produzidas pequenas obras-primas do horror e do suspense clássicas, como, por exemplo, o espetacular A Casa que Pingava Sangue (1971), além de outros como Contos do Além (1972), Asilo Sinistro (1972), Os Gritos que Aterrorizam (1973), entre mais alguns outros, em sua maioria com Lee ou Cushing, ou ambos, nos papéis centrais.

Em O Soro Maldito, Lee é o Dr. Marlowe, um pacato médico londrino que desenvolve uma fórmula capaz de trazer à tona o lado perverso, negativo, dos seres vivos. Depois de realizar experiências com um gato – que, de dócil e tranquilo, passa a ser agressivo – o médico resolve aplicar a fórmula em si mesmo. E com isso, é claro, ele deixa aflorar sem culpa ou vergonha o seu lado naturalmente perverso. Não contente com a experiência única e isolada, ele passa a utilizar a droga frequentemente, sendo que em pouco tempo não precisa mais dela para se transformar num monstro; algo parecido com o que ocorre com o Dr. Xavier (Ray Milland), em O Homem dos Olhos de Raio-X (1963), de Roger Corman. Marlowe passa, então, a aterrorizar a vida da população londrina, cometendo assassinatos brutais e misteriosos à sombra do seu “eu” que julgamos ser o verdadeiro. Como todos os indícios levam ao horrendo e desfigurado Blake, que, curiosamente, tem livre acesso ao quarto dos fundos do Dr. Marlowe, Uterson (Cushing), o advogado do médico, desconfia que este esteja sendo vítima de chantagem e resolve investigar; não demora muito e ele descobre, de fato, que Marlowe e Blake são, na verdade, a mesma pessoa. No inevitável conflito final entre ambos, o Dr. Marlowe, transfigurado no horrível paralelo de seu alter-ego negativo, encontra seu fim ao rolar escada abaixo com o corpo em chamas, e, ao morrer, metamorfoseia-se de volta à normalidade.

Já perdi a conta de quantas vezes Lee e Cushing se atracaram até a morte na cena final, com o primeiro geralmente representando o mal, e o segundo, o bem, ainda que seja sisudo e circunspecto à sua maneira, mas nesse filme em particular o conflito atinge as raias da realidade: Lee parece inteiramente tomado pelo personagem, e, talvez devido à competência com que explora a eficiente maquiagem, chegamos a temer verdadeiramente por Cushing. Aliás, a maquiagem é o ponto forte do filme; é fácil perceber que é uma produção modesta (assim como todas as demais produções da “Amicus“), nitidamente datada, mas tem seus bons momentos e traz carimbada a legítima essência do que foi o terror britânico na década de 70, época, inclusive, em que a “Hammer Films” já estava começando a dar sinais de desgaste. O roteiro se perde bastante no começo, e, por isso, o filme segue aos trancos e barrancos, mas do meio pra lá a coisa melhora assustadoramente e o suspense é quase que abandonado para mostrar a violência em seu estado puro, na caracterização impressionante de Lee, que consegue, apenas com o uso primário de certos truques faciais e seu olhar brilhante e arquetípico, explorar a malignidade completa de seu personagem; a exemplo do que Spencer Tracy havia feito na brilhante versão de 1941, ele vai pouco a pouco se metamorfoseando em própria bestialidade; quando, enfim, chega aos processos finais de transformação – tanto física, como psicológica – além dos quais já não existe mais o que explorar, está total e completamente desprovido de qualquer vestígio de humanidade. Blake vence, e Marlowe sucumbe. O mal parece mesmo que está sempre mais fácil ao alcance da mão, já nos advertia Stevenson, sabiamente.

N.E.: Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine “Juvenatrix” # 74 (Maio de 2003).

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E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

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