O Corvo (2018)

4.2
(5)
O Corvo
Original:The Crow
Ano:2018•País:EUA
Páginas:272• Autor:James O´Barr•Editora: Darkside Books

A despeito de toda a sua concepção artística e enredo de vingança sobrenatural, o que mais chama a atenção na obra O Corvo, de James O´Barr, lançada em uma Edição Definitiva pelo selo Darkside Graphic Novel, é o contexto trágico. Durante a adolescência, na década de 70, o autor perdeu a namorada, vítima de um acidente de trânsito, ocasionado por um motorista bêbado. Direcionou sua dor à arte, inspirado também no assassinato de um casal em Detroit devido a um anel de noivado de U$20 dólares, concebendo o que viria a ser sua obra-prima, publicada pela Caliber Comics em 1989. Com o imenso sucesso, uma adaptação foi realizada em 1994, e com ela outra tragédia: o ator Brandon Lee, que interpretou o protagonista Eric Draven, foi acidentalmente morto durante as filmagens, com uma arma de fogo que deveria estar sem balas. Uma publicação amaldiçoada, envolta em acidentes fatais, ou uma carta de amor de um artista inspirado na dor de uma perda imensurável? Cabe ao leitor, no vigor de seu deleite, decidir.

Como o autor descreve no prefácio, a moça sendo estuprada e morta, com a sugestão de um corvo atento para que, mesmo com uma bala na cabeça, ele olhe sua partida, é uma representação gráfica de sua dor, constantemente presente em sua memória. A perda da “menina que era a Shelly” trouxe um grande amadurecimento, uma outra forma de enxergar a realidade e as consequências que envolvem as grande perdas. Já o herói vingador, representante de sua raiva momentânea, parte em uma cadeia sangrenta de busca da gangue que o atacou violentamente, após encontrá-lo com a noiva numa estrada com o veículo quebrado. A fúria que o acompanha mescla poemas, de Rose Fyleman, Arthur Rimbaud e Baudelaire, e descrições de um passado repleto de momentos mágicos e inesquecíveis com o sangue em profusão do combate à T-Bird e seus comparsas.

A lembrança dos bons momentos, como o “Natal em agosto” (que O´Barr diz ter sido uma representação fidedigna), é o contraponto de sua resposta. Para não mostrá-lo apenas como um ave vingadora, a obra também traz personagens que resgatam o lado humano de Eric, como a pequena Sherri, que o chama de “sr.palhaço“, e é protegida e ajudada por ele. Nessa alternância, com rimas gráficas que dividem as páginas, a dor e o prazer caminham lado a lado, com algumas doses de erotismo no encontro dos corpos com o horror do assassinato da amada e das atitudes do Corvo contra os inimigos, proferindo sentenças como “a morte, tal como a virtude, tem graus. E ela vestia um manto salpicado de sangue.” e “aquele que luta com monstros deve atentar para também não se tornar um monstro.

Publicada em várias edições, entre as décadas de 80 e 90, O Corvo é uma obra-prima dentre as principais graphic novels. Em uma arte em preto e branco, detalhista e poética, a trajetória do anti-herói tem uma representação magnífica em quadrinhos e que supera a ótima versão cinematográfica, na transposição em desenhos do que poderia significar a dor de uma perda. A edição da Darkside Books é muito bem estruturada, caprichada, e com introdução, prefácio, posfácio, acréscimo de desenhos em cores e tudo o que os fãs de horror e quadrinhos devem esperar. Uma publicação indispensável para conhecer a fundo o personagem e a dor do artista.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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