Caveat (2020)

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Caveat
Original:Caveat
Ano:2020•País:UK
Direção:Damian Mc Carthy
Roteiro:Damian Mc Carthy
Produção:Justin Hyne
Elenco:Ben Caplan, Jonathan French, Leila Sykes, Inma Pavon, Conor Dwane, Siobhan Burton, Sam White

Há aspectos que devem sempre ser observados na composição de uma obra do gênero como ambientação, contexto, atmosfera e elementos de terror. Quando bem equilibrados e somado às boas atuações e efeitos técnicos, o resultado tem grandes chances de ser satisfatório. E o roteiro? É claro que o argumento e a construção de um enredo assustador são também peças fundamentais para os méritos, ainda que atualmente o que se tem visto são releituras e lugares-comuns, deixando a impressão de que há pouca ou quase nenhuma criatividade no cinema fantástico. O longa inglês Caveat pode se enquadrar em muitas das categorias que favorecem a boa apreciação de uma obra de terror, ainda que não tenha se dedicado a nenhuma delas em absoluto.

Caveat significa “embargo“, com o sentido de obstáculo, empecilho. É como se encontra o protagonista, o recém-saído do hospital Isaac (Jonathan French), depois de ser contatado pelo conhecido Moe Barrett (Ben Caplan, de O Passageiro, 2018). Este lhe faz uma proposta de cunho irrecusável, aproveitando que o rapaz está desempregado: atuar como babá de sua problemática sobrinha Olga (Leila Sykes). A jovem reside em uma velha casa, isolada em uma ilha, e sofre de inúmeros distúrbios mentais desde que a mãe (Inma Pavon) desaparecera e o claustrofóbico pai (Conor Dwane) cometera suicídio. “Você não precisará fazer nada. Somente acompanhá-la por aproximadamente cinco dias“. E será bem pago para essa aparente simples função.

Contudo, além do isolamento absurdo e a quase ausência de contato externo, Isaac terá que vestir uma espécie de coleira, uma roupa que o prende a uma enorme corrente afixada no porão, mas que permite a locomoção por quase todos os cômodos, exceto o quarto da garota, justificado pela necessidade de preservação da jovem. A despeito dessa situação desconfortável, ainda pesa sobre o rapaz as ações imprevisíveis de Olga, a falta de muitas informações que poderiam evitar a aceitação da proposta e uma incômoda presença sobrenatural no lugar, identificado com os toques do tambor de um boneco de coelho, um daqueles elementos que tornam a experiência bastante inquietante, ainda mais quando se sabe que não há como fugir de lá.

Desse modo, os tais aspectos mencionados no começo deste texto se fazem presente, ainda que exista um porém. Vejamos:

a) ambientação: uma casa velha, isolada em uma ilha deserta, e circundada por raposas cujo uivos aparentam o de “adolescentes gritando“. Não se sabe exatamente a época em que se passa a história, mas imagina-se que seja algumas décadas atrás, sem aparelhos celulares.

b) contexto: rapaz desempregado e com problema de memória recente aceita a proposta de cuidar de uma garota com distúrbios psicológicos. Há uma obscura mensagem sobre incesto, uma vez que a roupa com correntes era utilizada pelo pai, talvez para evitar visitas noturnas. Suicídio, desaparecimento da mãe.

c) atmosfera: mesmo que não tenha cenas noturnas, a casa sinistra com buracos pela parede, traz um clima de perturbação de modo que você jamais seria capaz de se imaginar ali. Os uivos da raposa, a movimentação da corrente como se o rapaz fosse um fantasma de um casarão também contribuem para a construção do medo.

d) elementos de terror: as já mencionadas raposas, o boneco de coelho, o sangue que verte pelo nariz, o quadro assustador, a movimentação da corrente e de um corpo, a sensação de constante ameaça.

Porém….nenhum deles é adequadamente explorado, seja a ilha, as raposas e até mesmo coelho estão lá como ferramentas que poderiam despontar muitas possibilidades, mas atuam como detalhes. Optando por explicar pouco, o roteiro de Damian Mc Carthy também traz tantos furos quanto a parede da casa: se encontraram o corpo do pai e atestaram suicídio, como que optaram por deixar a garota com problemas residir sozinha no lugar? E será que ninguém estranhou a roupa com correntes (acharam que era fetiche?) e a impossibilidade de sair do local (como ela iria se alimentar e cuidar do cachorro?)? E que modo de resolver as coisas pelas escolhas de Moe, hein? O rapaz poderia ter recuperado a memória, chamado a polícia….várias chances de dar errado.

Com uma direção adequada e um ritmo lento em boa parte da narrativa, Caveat não tende a ser a melhor do que outras obras do gênero e fica no quase pela criatividade e os elementos apresentados. Há boas atuações, principalmente de Leila Sykes,  e uma produção bem desenvolvida. Pena que os tais obstáculos sugeridos pelo título também tenham impedido uma avaliação mais satisfatória.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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