Terror no Trem: Passageiros do Medo e O Passageiro

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O medo se esconde além das plataformas escuras, seja nos túneis que engolem os trens ou nos próprios vagões do veículo. Uma viagem longa – e aparentemente tranquila – pode despertar criaturas horrendas, assassinos em série, suicidas e assombrações, dependendo do que os passageiros menos esperam. O Cinema Fantástico soube bem explorar esses ambientes em constante movimento para trazer arrepios e sangue em profusão antes e depois de cada estação, desde A Chegada de um Trem à Estação (L’Arrivée d’un Train à La Ciotat, 1896), dos irmãos Lumière, estreando o cinema de maneira arrepiante. Pode-se fazer uma lista rápida, mencionando os clássicos Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951), de Alfred Hitchcock (que também faria Intriga Internacional, em 1959); Expresso do Horror (Pánico en el Transiberiano, 1972), de Eugenio Martín, que contou com a ilustre participação dos lendários Christopher Lee e Peter Cushing; e Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, 1974), de Sidney Lumet, com um incrível elenco de astros para recriar um thriller de Agatha Christie; além de produções como O Trem do Terror (Terror Train, 1980), O Último Trem (Meat Train, 2008), de Ryûhei Kitamura, Expresso Transiberiano (Transsiberian, 2008), de Brad Anderson, Invasão Zumbi (Train to Busan, 2016), de Sang-ho Yeon,… entre tantos outros. Isso sem falar de cenas emblemáticas de produções do gênero como o lobisomem caminhando pelas plataformas (Um Lobisomem Americano em Londres, 1981), a correria dos meninos fugindo de um trem em Conta Comigo (Stand by me, 1986) e a morte surpreendente de um dos jovens de Premonição (Final Destination, 2000), incluindo a cena final da quarta parte.

Para este primeiro artigo sobre produções ambientadas em trens vale uma análise mais específica sobre dois longas curiosos que vi na sequência: Passageiros do Medo (Last Passengers, 2013) e O Passageiro (The Commuter, 2018). Além da claustrofobia envolvendo espaços reduzidos, ambos os filmes são thrillers de mistério, que colocam em risco a sanidade dos personagens, que apresentam sinais de desespero e fragilidade. Nesses casos, há um protagonista masculino que precisa decidir o que fazer para evitar uma catástrofe, tendo que enfrentar não apenas um inimigo inteligente, mas a desconfiança e a agressividade dos demais passageiros. Uma escolha errada e um descarrilamento torna-se inevitável.

Lançado em 2013, Passageiros do Medo (também conhecido como O Último Passageiro, na tradução literal) tem na direção e roteiro o nome de Omid Nooshin, em sua estreia na função. No enredo, o Dr. Lewis Shaler (Dougray Scott, de Exorcistas do Vaticano, 2015) está em uma viagem de trem para Londres com seu filho Max (Joshua Kaynama). No percurso, ele flerta discretamente com Sarah (Kara Tointon), enquanto fica sabendo que terá que deixar o pequeno com os avós para atender um grave acidente de trânsito. Ele observa – como o espectador – alguns passageiros estranhos como o mágico Jan (Iddo Goldberg) e o antissocial Peter (David Schofield, que, curiosamente, fez uma ponta em Um Lobisomem Americano em Londres, como um atirador de dardos do pub), antes de começar a perceber que algo está errado.

Demora um pouco, aliás. Nos primeiros vinte minutos, nada acontece, além do desenvolvimento dos personagens. Apenas traz a interação do pai na disciplina com o filho, e o interesse da simpática garota por eles. Lewis nota o desaparecimento do guarda, e também um homem se arrastando pelos trilhos. Ao tentar alerta o condutor e notar que o veículo não está parando nas estações, ele e os demais percebem que o trem está fora de controle, não obedecendo até mesmo às tentativas de freá-lo, prevendo um possível choque ao término da viagem. Assustado pela tragédia iminente, principalmente por estar no local com o filho pequeno, Lewis tem como primeiro desafio convencer os demais – são quatro adultos – do perigo que estão correndo.

A partir daí, com o corpo do guarda encontrado, eles precisam se unir para pensar em estratégias de sobrevivência, uma vez que parar o trem parece improvável. Mas, curiosamente, acontece: ao entrar em um túnel, após avisar a polícia do problema, a passagem é bloqueada e o veículo é obrigado a parar, porém eles não conseguem encontrar meios de sair dali pelo espaço curto da passagem e o pequeno Max não quer se afastar do pai. Outra ideia envolve o heroísmo de tentar desengatar o primeiro vagão, com um deles tendo que ficar do lado de fora, no frio intenso, com a velocidade e os obstáculos dificultando o procedimento.

O roteiro de Nooshin e Andy Love faz bem em concentrar as ações apenas no trem em movimento, evitando o acréscimo de personagens desnecessários como controladores de tráfego e a polícia. Transmite, assim, ao espectador uma sensação de isolamento e desespero, como se não houvesse outra possibilidade que não seja o acidente final. Também é válida a ideia de não expor o vilão, apresentando-o como uma pessoa doente, maléfica, que em algum momento irá justificar suas ações insanas. Não importa quem seja, nem a razão pela qual planeja dar um fim à própria vida e dos demais passageiros. Por outro lado, não há muito o que mostrar no filme, tanto que em dado momento os personagens se sentam para conversar sobre o passado, enquanto aguardam a oportunidade de agir. E o tempo previsto pela tragédia por alguns passageiros não é respeitado, tanto que a duração do filme ultrapassa-o sem que o prazo termine.

Anos depois, uma outra viagem tem grandes chances de dar errado. Nela está o vendedor de seguros Michael MacCauley (Liam Neeson, experiente em filmes de ação, mesmo beirando os setenta anos), que, durante dez anos, fez sempre a mesma viagem de trem até Nova York, encontrando as mesmas pessoas e estabelecendo uma curiosa rotina. Certo dia, após perder o emprego e tendo dívidas enormes e a confiança da esposa Karen (Elizabeth McGovern), ele encontra com uma aparente simpática passageira, que se apresenta como Joanna (Vera Farmiga). Como psicóloga e estudiosa do comportamento, ela lhe oferece um jogo de percepção: ele deve buscar no trem uma pessoa que não deveria estar ali, e colocar em seu bolso um rastreador.

Assim que consegue a confirmação da primeira parte do dinheiro oferecido, escondido no banheiro – e ele precisa muito desses valores -, Michael aceita parcialmente a proposta, embora não considere os termos apresentados envolvendo discrição. Aos poucos ele percebe que existe uma grande conspiração envolvida, com passageiros observando-o e alguns que parecem suspeitos, levando-o ao desespero ao ver o primeiro corpo e causar a morte de um velho conhecido. Novas ameaças, sensação de insegurança e incapacidade de reagir, Michael participa com o espectador desse jogo de mistério e morte, com cenas de tensão e aquelas típicas brigas coreografadas para tornar tudo ainda mais divertido.

Consciente do mistério proposto, os roteiristas Byron Willinger, Philip de Blasi e Ryan Engle propõem ao espectador um jogo de detetive: descobrir entre os passageiros restantes quem poderia ser a chave para a saída do lugar. E ainda traz uma perspectiva desanimadora, pois ainda que descubra quem é a pessoa misteriosa, você não consegue imaginar um meio dele conseguir resolver tudo o que foi proposto, sem provocar uma tragédia. MacCauley busca a ajuda do amigo policial Alex Murphy (Patrick Wilson), que foram colegas de profissão, e a desconfiança do Capitão Hawthorne (Sam Neill). O problema é saber em quem confiar.

Com esse elenco de rostos conhecidos, com destaque para a dupla de Invocação do Mal, Vera Farmiga e Patrick Wilson, a jornada torna-se ainda mais repleta de entretenimento. O roteiro dinâmico enche a trama de reviravoltas e surpresas, e leva realmente o infernauta a se preocupar com o protagonista, torcendo para que ele encontre os caminhos certos sem perder a sanidade. A direção do experiente Jaume Collet-Serra (de A Casa de Cera, A Órfã e Águas Rasas), que já trabalhou com Liam Neeson em outros três filmes (Desconhecido, Sem Escalas e Noite Sem Fim), é bem feita e saber dosar as cenas de ação com o desenvolvimento dos personagens. Talvez, pela idade do ator, tenham sido amenizadas as brigas com os vilões, sem um falso heroísmo exacerbado.

Tanto Dr. Lewis Shaler quanto Michael MacCauley vivem momentos de perigo e emoção a bordo de trens em alta velocidade. São duas viagens infernais, com poucas paradas em estações, que merecem ser acompanhadas pelo infernauta, promovendo suspense, mistério e claustrofobia. Entram tranquilamente para a galeria das produções similares, convidando o público a se tornar mais um passageiro sob os cuidados desses heróis involuntários.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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