Escravas da Vaidade (2004)

4.8
(4)

Escravas da Vaidade
Original:Dumplings
Ano:2004•País:Hong Kong
Direção:Fruit Chan
Roteiro:Pik-Wah Lee
Produção:Peter Ho-Sun Chan
Elenco:Pauline Lau, Po-Lin Lau, Tony Ka Fai Leung, Bai Ling, Meme Tian, So-Foon Wong, Miki Yeung, Miriam Chin Wah Yeung

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2005, fiz uma seleção dos filmes que me pareceram mais relevantes, dando prioridade ao Cinema Asiático contemporâneo e sua configuração muito particular do horror cinematográfico. Minha maior surpresa nessa seleção de filmes acabou sendo a produção de Hong Kong Dumplings, 2004, dirigida por Fruit Chan. Sua construção de um pesadelo contemporâneo protagonizado por duas mulheres ambiciosas apenas evidencia a força do gênero feminino dentro do Cinema Fantástico. Sem a obviedade brutal de histórias violentas protagonizadas por homens, Dumplings tece desde seu início uma teia macabra singular como poucas vezes vimos no cinema. A vaidade, tempero favorito do Diabo, é a espinha dorsal dessa trama perturbadora.

Tudo começa com a visita da sofisticada Sra Li, interpretada pela bela Miriam Yeung Chin Wah, a uma espécie de “Consultora de Beleza” chamada Mei, na pele de Ling Bai, que atende suas clientes em um apartamento dentro de um cortiço. O encontro de uma mulher da elite, a Sra Li, com uma mulher pobre e vulgar, Mei, fica muito claro no gestual e no figurino de cada uma e reafirma o hábito de membros das classes altas que vão até a periferia em busca de resoluções não muito ortodoxas para seus problemas. O grande horror da Sra Li é o de envelhecer e perder a atenção do marido para uma mulher mais jovem. Como parte do tratamento de rejuvenescimento de Mei, está a preparação dos populares bolinhos chineses cozidos, conhecidos como Dumplings. Os ingredientes secretos dos tais bolinhos são um mistério que perturba a Sra Li, mas seu desejo de eterna juventude sobrepõe todas as barreiras éticas. O preparo dos tais bolinhos é mostrado no filme de forma aterradora, onde a música aliada à montagem e a fotografia sublime criam imagens angustiantes e hipnóticas. Um detalhe importante da Direção de Fotografia: ela ficou a cargo do esteta extremo Cristopher Doyle, responsável pelas imagens ultra-estilizadas dos filmes recentes de Wong Kar Wai, além de colaborar também em filmes importantes como Herói, de Zhang Ymou, e da produção tailandesa Last Life in the Universe. Com essa apurada estilização visual o filme aos poucos atinge graus cada vez mais elaborados de uma dicotomia Beleza/Horror digna das clássicas produções da Era de Ouro do Horror Cinematográfico Italiano.

A grande ruptura dramática da história surge quando fica evidente que a Sra Li precisa de um ingrediente mais poderoso para surtirem os efeitos rejuvenescedores dos Dumplings. O horror então se instaura no filme de maneira definitiva e irreversível. Mei não é apenas uma especialista em técnicas alternativas de manipulação de ingredientes naturais ligados a cosmética. Seu apartamento de decoração vulgar tem um altar bastante ecumênico com imagens de santos e figuras pagãs que criam em torno dela uma aura de bruxa, catimbozeira. Numa tarde ela recebe a visita de uma mãe com a filha adolescente que suplica para que Mei faça um aborto na menina. Mais um lado sombrio de Mei vem a tona: ela pratica abortos. O prédio onde a cirurgia clandestina será feita é assustador. Sua arquitetura cilíndrica parece um caminho de sombras para o Inferno. Surge então uma das sequências mais assustadoras do filme onde enquadramentos precisos mostram a realização do aborto com direito a planos estilizados ao extremo da retirada do feto. Agora Mei pode oferecer a Sra Li bolinhos muito especiais, recheados com pedaços picados do feto abortado de uma adolescente.

É perturbador o fato de que em nome da beleza e do poder de sedução que garantem a sobrevivência e a segurança econômica de um casamento, as pessoas são capazes de qualquer coisa, passando por cima de tudo. Essa questão da ingestão de fetos com fins terapêuticos aparece na cena onde o Sr Li come o ovo semi-chocado com o embrião de uma ave para aumentar sua potência sexual e satisfazer uma amante muito jovem. A chocante cena de ingestão de um feto humano aparece na antológica produção de Joe D´Amato, Antropophagus, 1980. Em Dumplings, porém, a falta total de sutileza de D’Amato cede lugar a sugestão, fazendo o espectador imaginar sem ver explicitamente a ingestão do feto dentro dos bolinhos. Mesmo assim o diretor nos choca ao mostrar o feto em meio aos ingredientes caseiros da preparação dos Dumplings.

Ao ceder a tentação de Mei e saborear os bolinhos, a Sra Li passa a viver um jogo perverso e macabro de muitas reviravoltas que conduz a história para um desfecho apocalíptico que desde já entrou para a antologia da história do cinema de horror. Inicialmente Dumplings fazia parte do filme Three Extremes composto de três episódios: Cut do sul-coreano Park Chan Wook, Box do japonês Takashi Miike e Dumplings do chinês Fruit Chan. Nesse filme em episódios Dumplings tem uma duração menor, de cerca de trinta minutos, que faz o filme perder o impacto e a densidade de sua versão de aproximadamente 90 minutos analisada nessa resenha. A cópia mostrada nos cinemas de São Paulo exibida durante a Mostra Internacional de Cinema de 2005 acabava com uma perturbadora e sangrenta sequência. Já em algumas edições de DVD existe uma pequena sequência em P/B como complemento. Mesmo assim o filme não perde seu impacto e parece que o diretor quis sobrepor na edição a tal cena sangrenta final seguindo na montagem com uma outra que serviria para amenizar o horror extremo ao qual os espectadores estiveram expostos nos últimos 90 min.

Na sessão da Mostra em que eu vi Dumplings uma mulher surtou no final do filme e aos gritos foi retirada da sala de exibição com tremores pelo corpo. Um filme não recomendado para fãs de filmes de horror óbvios e vulgares. Absolutamente imperdível e obrigatório.

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Marcelo Carrard

Marcelo Carrard é Jornalista, Pesquisador e Crítico de Cinema e Editor do Blog: Nudo e Selvaggio.

One thought on “Escravas da Vaidade (2004)

  • 08/03/2022 em 14:17
    Permalink

    Perturbador eu amei esse filme, sou a favor de mais criticas de filmes asiáticos aqui principalmente os coreanos é um melhor que o outro e sempre memoráveis, vou citar alguns aqui Bedevilled, Miss Zombie, Beautiful, Beasts Clawing at Straws, Coin Locker Girl.

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