You Are Not My Mother (2021)

4.5
(4)

You Are Not My Mother
Original:You Are Not My Mother
Ano:2021•País:Irlanda
Direção:Kate Dolan
Roteiro:Kate Dolan
Produção:Deirdre Levins
Elenco:Hazel Doupe, Paul Reid, Carolyn Bracken, Jade Jordan, Katie White, Ingrid Craigie, Miriam Devitt, Aoife Spratt, Martin O'Sullivan

O cineasta Guillermo Del Toro disse certa vez que “para que o terror funcione é preciso que ele seja absolutamente prosaico”. Ou seja, por mais que trabalhe com temáticas fantásticas, o gênero precisa ser composto por elementos ordinários e reconhecíveis pelo público. Escrita e dirigida por Kate Dolan, a produção irlandesa You Are Not My Mother (2021) segue essa cartilha, apresentando-nos a uma narrativa sobrenatural acerca de demônios e doppelgänger, mas envolvendo-a em temas realistas como maternidade, sanidade e amadurecimento.

Logo na cena inicial, vemos uma mulher mais velha (Ingrid Craigie) levando um bebê até o meio da rua e ateando fogo na criança. Passado algum tempo, acompanhamos Char (Hazel Doupe), uma adolescente que carrega uma cicatriz no rosto em consequência da queimadura. Ela vive numa casa simples ao lado da avó e da mãe (Carolyn Bracken), que está sempre doente. Na escola, Char se fica isolada dos demais colegas, não mantém amizade com nenhum deles e ainda sofre bullying constantemente.

Certo dia, a mãe de Char desaparece sem qualquer motivo aparente. A família chama a polícia, faz buscas pela região, mas não a encontra. De repente, ela retorna para casa como se nada tivesse acontecido. Porém, ela volta transformada. Ao contrário da sua aparência adoentada de antes, ela agora está vívida e alegre. Diante de tantas mudanças (incluindo também uma conduta estranha durante a noite), Char começa a duvidar se aquela pessoa é, de fato, a sua mãe.

Dolan aposta em um ritmo lento e, por vezes, enfadonho. Apesar do impacto daquele início, a chama logo se apaga e demora a acender de novo. Parte disso se deve a algumas escolhas um tanto datadas feitas pela diretora. A sua abordagem acerca do bullying, por exemplo, parece ter saído de uma produção da década de 1980. Já a mudança de atitude da menina que pratica o bully soa abrupta e forçada, funcionando apenas para o desenvolver da história, e não a personagem.

Ainda assim, a realizadora acerta ao investir pesado no desconforto. Isso é notável tanto na expressividade de Char quanto na ambientação em torno dela. A casa onde ela mora é um local opressivo, recheado de cores pastéis que extraem qualquer traço de personalidade (e de vida) daquele ambiente. Completando a ambientação macabra, a direção de fotografia procura deixar a casa constantemente envolta na penumbra.

Igualmente louvável é o fato de o filme não oferecer qualquer esclarecimento a respeito daquilo que presenciamos. A proximidade do Halloween até sugere uma explicação para as visões fantasmagóricas da protagonista, mas nada é mastigado para o espectador.  Ao final, You Are Not My Mother mistura elementos de diferentes subgêneros do terror, explorando mudanças psicológicas e corporais, ao mesmo tempo em que nos convida a acompanhar a jornada pessoal da personagem enquanto ela se transforma naquilo que mais temia.

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Daniel Medeiros

Daniel Medeiros é membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e pesquisador sobre o cinema de terror. Graduado em Cinema e Vídeo e mestre em Ciências da Linguagem. Atualmente cursa o doutorado, tendo como objeto de pesquisa o cinema de terror contemporâneo. É editor do blog/podcast/canal 7 Marte.

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