Watcher (2022)

4.7
(6)

Watcher
Original:Watcher
Ano:2022•País:EUA, Emirados Árabes, Romênia
Direção:Chloe Okuno
Roteiro:Chloe Okuno, Zack Ford
Produção:Derek Dauchy, John Finemore, Aaron Kaplan, Roy Lee, Mason Novick, Sean Perrone, Steven Schneider
Elenco:Maika Monroe, Karl Glusman, Burn Gorman, Tudor Petrut, Madalina Anea, Gabriela Butuc, Cristina Deleanu, Bogdan Farcas, Daniel Nuta, Stefan Iancu

Ao voltar para casa à noite, como sempre, o ônibus que você pega é lotado. Há tantas pessoas ocupando o mesmo metro quadrado que chega a ser similar a um cárcere, e como é o último ônibus, não lhe resta opção a não ser ir apertado mesmo. Conforme seu caminho segue, você se dá conta que não tem muito lugar para olhar: de um lado se vê um emaranhado de braços e cabeças e do outro apenas o espelho circular que o motorista usa para ver quem desembarca. Como a segunda opção é mais atrativa, você se olha pelo reflexo para matar o tempo, e é assim que você nota que outro passageiro teve a mesma ideia. Seus olhos se cruzam e você dá um breve sorriso de cumplicidade ao ver que ele continua lhe olhando. Ele não sorri de volta, mas parece que agora te olha mais demoradamente, como se estivesse te analisando. Sua aparência é sisuda; olheiras profundas e uma expressão séria denotam que ele seja bem mais velho que você.

Por bom senso seu olhar se desvia, mas com o passar do tempo você volta a olhar pelo espelho e ele continua te olhando de maneira fixa. Conforme o ônibus esvazia, você sai daquela posição desconfortável e consegue o tão sonhado lugar para se sentar, descansar a cabeça na janela e seguir sua viagem. Pouco tempo depois você percebe que alguém senta ao seu lado e quando você olha para ver quem é, o mesmo homem estranho te olha. Dessa vez ele chega a virar o rosto para lhe encarar, sem falar nada, apenas te estudando calmamente. Suas mãos ficam suadas, você pega a chave de sua casa e coloca entre os dedos como uma arma e decide descer alguns pontos antes do seu habitual. Deixa o passageiro estranho para trás e aperta o botão para descer, assustado. Para seu assombro a última coisa que você vê pelo espelho sobre a porta do ônibus é que atrás de você o mesmo passageiro está em seu encalço.

Situações como essa podem ocorrer em ônibus, em ruas escuras ou até mesmo em corredores longos da universidade. O que há em comum entre elas é a sensação incômoda de ser perseguido por um desconhecido que pode ser perigoso, ou pode ser alguém que está com tanto medo quanto você. Começo minha crítica trazendo essa situação aleatória para tentar te ambientar na sensação principal que esse filme quer imprimir, que é a de olhar a todo momento para trás com a impressão mordaz que alguém te persegue.

Em Watcher, da diretora Chloe Okuno, vemos em seu primeiro trabalho em longa-metragem uma direção precisa e segura que fala sobre perseguição, paranoia, insegurança e, acima de tudo, fala sobre o silenciamento das narrativas femininas.

Julia (Maika Monroe) é uma atriz que abandona a carreira para acompanhar seu marido em um novo país. Chegando ao local é recebida por uma língua nova, pessoas estranhas e uma rotina cansativa sem conhecidos e sem atividades para ocupar seus dias. Eis que em seu apartamento, ao olhar pela janela, dá-se conta que alguém a observa do prédio em frente ao seu, de início apenas uma silhueta escondida pelas sombras para posteriormente se tornar algo mais ameaçador. Ao contar para o seu esposo Francis (Karl Glusman), ela acaba vendo seu relato se esmiuçar por não ter supostamente uma base concreta, entretanto, conforme os dias vão passando, ela também se sente perseguida nas ruas, nos cinemas e até dentro de seu próprio prédio. Somado a isso, surgem nos noticiários relatos de que um serial killer assassino de mulheres está à solta.

Julia estaria sendo apenas paranoica devido ao tédio do dia a dia, assim como todo mundo insiste em dizer, ou realmente seus instintos estão certos e ela corre perigo?

Fiquei muito surpreso com esse filme, pois fui sem esperar muita coisa. Achei a sinopse fraca e já imaginei mais um filme pretensioso que tenta emular o sucesso de Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, entretanto fui capturado por um texto simples, mas eficaz que conseguiu me assustar em muitas cenas, principalmente naquelas que são corriqueiras.

Maika Monroe já se mostrou uma excelente atriz no seu protagonismo em Corrente do Mal, e aqui ela brilha ao mostrar uma mulher que não é frágil, mas está numa situação que a fragiliza. Imagine chegar em um país onde todos falam uma língua que você não entende, entrar em conversas que te deixam de fora, mesmo podendo ser sobre você, ter como única referência de apoio alguém que mostra uma compreensão fraca, que te enxerga quase como uma criança em perigo e que exagera a todo tempo.

Ao lado de seu protagonismo temos Francis, interpretado muito bem por Karl Glusman, que ousou muito em Love, de Garpar Noé, e aqui se mostra com uma atuação de escada para Maika. Ele aparece como a figura incômoda que se mostra compreensivo no início, mas sempre ouvindo os relatos sem dar muita relevância. Enquanto Julia se sente deslocada, ele se mostra muito confortável, afinal ele fala a linguagem do lugar, conhece pessoas, trabalha, e isso causa um vazio ainda maior aos dias de Julia.

Quando a paranoia do perseguidor começa, o trabalho tanto de direção quanto de fotografia mostra sua precisão. Há imagens onde Julia se localiza no meio da tela, sendo diminuída pelo próprio cenário; cenas onde ela se perde em corredores escuros e em metrôs vazios. Tudo isso acentua a sensação de que ela realmente não faz parte daquele lugar, além de trazer o desconforto de imaginar que se ela estiver realmente em perigo, não terá ajuda.

A figura do perseguidor logo é mostrada com Burn Gorman, que consegue realmente estar no meio-termo entre alguém ameaçador e um vizinho estranho comum que foi apenas pego em meio a um episódio paranoico. Ele nunca olha diretamente nos olhos da protagonista, e nos momentos em que ele contracena com outros personagens a câmera sai de cena, para termos apenas a ótica dela como referência. Há uma aproximação da obra de Hitchcock por essa ideia de roteiro trabalhado na paranoia de um personagem, mas, olhando com mais atenção, consegui ver mais aproximação no filme e no livro O Inquilino, escrito por Roland Topor, e roteirizado e dirigido em 1976 por Roman Polanski. Nessa obra é similar a sensação de estar num lugar estranho onde ninguém te vê como igual, ao mesmo tempo em que há uma sensação de perigo iminente no ar.

Não vou te contar se é apenas uma paranoia de Julia ou se ela realmente está em perigo, mas posso te dizer com toda certeza que o filme é ótimo, daqueles que te fazem olhar para trás mais de uma vez ao andar sozinho e te dá um incômodo ao ver um vizinho diferente entrando com você nos elevadores. Deixo minha crítica em vídeo abaixo e aposto que Chloe Okuno ainda será lembrada por outras ótimas histórias de suspense.

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Diego Ferraz

Perdido na escuridão universitária vaga um escritor amante do obscuro, apaixonado pelo oculto e que possui um apetite voraz pelo terror. Sua biblioteca aterrorizante inspira sua vida e seus vídeos, que você pode acompanhar em seu canal Cripteca no Youtube.

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