Não Fale o Mal (2022)

4.6
(33)

Não Fale o Mal
Original:Speak No Evil
Ano:2022•País:Dinamarca, Holanda
Direção:Christian Tafdrup
Roteiro:Christian Tafdrup, Mads Tafdrup
Produção:Jacob Jarek
Elenco:Morten Burian, Sidsel Siem Koch, Fedja van Huêt, Karina Smulders, Liva Forsberg, Marius Damslev, Hichem Yacoubi

Um dos destaques de 2022, Speak No Evil se fortalece pelo desconforto. O filme, de Christian Tafdrup, coloca seus personagens e o espectador em um espiral de situações constrangedoras, incômodas, como se os afogassem em um pesadelo. Lembra, em um grau inferior, o excelente Kill List, pelo nó na garganta proposto e o final amargo. Se não fossem alguns exageros e a catatonia dos personagens, o longa talvez alcançasse uma popularidade mais intensa, ocupando facilmente o pódio do gênero. Pode-se dizer que suas falhas se estabelecem no roteiro do próprio Christian com seu irmão Mads, ao evidenciar conveniências que servem apenas para a construção de seu cenário final. Ainda assim, é um grande filme.

O enredo trata das relações de confiança e estranheza. Às vezes, você pode encontrar pelo caminho pessoas que julga serem parecidas contigo, terem gostos e preferências parecidos, mas que se perdem numa convivência mais profunda. Para evidenciar essa ideia, o longa propõe logo um choque cultural: o casal dinamarquês Bjorn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) está viajando com a filha Agnes (Liva Forsberg) pela Toscana, tendo a língua como principal obstáculo da interação local. Conhecem no passeio o casal holandês Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders), além do filho mudo Abel (Marius Damslev), e, após um jantar e algumas conversas breves, são convidados a visitar a morada rural deles na Holanda.

Quais as chances de você realizar uma viagem longa de mais de oito horas para passar um fim de semana com um casal com quem você teve pouco tempo de convivência? Como Bjorn e Louise estão em busca de aventuras e parece que Abel gostou de Agnes, resolvem embarcar nessa insana proposta. É claro que, antes de aceitar, o roteiro propõe alguns minutos reservados à rotina do casal dinamarquês, à relação com a filha, que possui uma adoração absoluta pelo coelho de pelúcia Ninus, e aos devaneios de Bjorn. Em dois momentos, ele é visto refletindo enquanto observa por uma janela ou da mureta de uma ponte, deixando transparecer uma certa infelicidade. São sequências morosas, mas necessárias para o segundo e terceiro atos do filme.

Ao chegar à casa, alguns episódios estranhos já deixam um sinal de alerta: Agnes não dormirá numa cama, mas em um colchão; Patrick ignora o vegetarianismo de Louise, constantemente tentando fazê-la comer carne; ele, em algumas situações, briga de maneira bruta com Abel. Tais desconfortos se ampliam quando os dois casais saem para jantar fora, e as crianças são deixadas com Muhajid (Hichem Yacoubi), um homem desconhecido. E na mesma ocasião, Patrick e Karin se envolvem de maneira exagerada, esfregando seus corpos em longos beijos em um ambiente pouco particular. Além de deixar a conta da noite ficar por conta de Bjorn e não daquele que fez o convite, Patrick ainda volta dirigindo alcoolizado, não conseguindo manter o carro em linha reta, enquanto deixa o volume do som do carro bastante alto.

As diferenças entre os casais são gritantes. Vendo apenas o lado dos pais, Bjorn e Patrick, é possível notar uma certa repressão sentimental do dinamarquês, e a postura bomba-relógio do holandês, como se a qualquer momento ele fosse explodir de raiva e agressão. Bjorn não parece à vontade como um pai de família estruturado num relacionamento de comercial de margarina; Patrick transparece uma bipolaridade, uma pessoa de várias camadas, como se interpretasse um papel de amigo com intenções obscuras. Tais opostos elevam a tensão adulta e trazem mais incômodos do que a sensação de uma viagem segura e prazerosa.

Talvez o espectador crie uma narrativa particular a partir de então imaginando que o casal incomodado tentará fugir dos domínios dos anfitriões, mas será preso, torturado e o longa terá um terceiro ato de resistência e luta pela liberdade, certo? Pois não é bem assim, até porque o filme não se destacaria por uma proposta tão simples. O que acontece vai além do limite da imaginação, o que o torna completamente inverossímil. Por exemplo, em dado momento de tensão, após uma série de desconfortos, Louise decide chamar a família para ir embora sorrateiramente. O plano de fuga até dá certo, mas um novo desaparecimento de Ninus põe tudo a perder. Há o confronto entre os casais. A apresentação das diferenças é logo esquecida horas depois. A mesma Louise incomodada da cena anterior passa a agir tranquilamente como se nada antes tivesse acontecido.

E a passividade diante de algumas ameaças passa a irritar o espectador. É evidente que a proposta é essa mesmo, tanto que a frase que responde a uma pergunta importante justifica a intenção do roteiro: “Porque vocês deixaram.” Deixa a entender simbolicamente algumas mensagens sobre a postura dos filhos e dos pais diante de situações adversas, em que muitas vezes nada é feito para mudar o que parece simples. Talvez você se imagine em situação similar e pense que faria diferente, e então, numa justificativa por determinada atitude, seja obrigado a ouvir: “que atire a primeira pedra, se você for capaz de agir diferente.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

9 thoughts on “Não Fale o Mal (2022)

  • 03/05/2024 em 12:38
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    Não sei o porquê dessa desconfiança com o gênero suspense, como se ele não tivesse seu público ou não fosse tão atrativo. Ultimamente muitos filmes vêm sendo vendidos como “terror”, mesmo com sua proposta sendo explicitamente um suspense. E se a nova vertente do “horror psicológico” ainda está em alta, não é por isso que necessariamente TODOS os filmes que utilizam desse lado mais psicológico sejam desse subgênero. O “suspense psicológico” também existe, e há um bom tempo já.

    É inevitável falar de “Speak No Evil” sem essa introdução sobre a diferença entre o suspense e o terror. Querendo ou não, ele acaba trazendo um certo frescor pro gênero e isso está atrelado justamente à sua característica dentro do “psicológico” e a forma como consegue conduzir o seu suspense de forma gradativa e refinada. O filme não apenas traz o inovador, como o executa de forma eficaz, elevando-o assim até certo grau. Não que dê pra considerá-lo como algo intenso, mas a forma inteligente como a história nos apresenta os seus perigos aos poucos…é bem interessante.

    Se existe algo de assustador aqui é como o diretor dinamarquês Christian Tafdrup consegue aproximar o espectador de seus personagens, usando de situações simples e por vezes constrangedoras do cotidiano, escancarando a reflexão e necessidade de algo que todos nós precisamos aprender um dia (além de socializar e fazer novos amigos): o de dizer “NÃO”.

    O roteiro coescrito por ele e por seu irmão Mads Tafdrup é todo arquitetado nessas circunstâncias desconfortáveis envolvendo o comportamento de pessoas diferentes e casuais, em meio aos desafios e estranhezas do relacionamento interpessoal. Por incrível que pareça, “Speak No Evil” consegue tornar isso ameaçador, fazendo seus protagonistas reféns de sua própria educação, enquanto acompanhamos seus limites pessoais sendo invadidos e quebrados, em contraposição às épocas que isso acontece (ou não) entre seus personagens: na fase da infância ou já na adulta.

    A direção, juntamente do roteiro, consegue construir tudo isso de forma sutil, muitas vezes utilizando do implícito para nos surpreender. É um filme que possui uma mensagem forte, mesmo que fique algumas pontas soltas e tudo se mantenha dentro de uma vaga simplicidade. Christian Tafdrup é um diretor que deve se sair muito bem no drama também, não conheço seus outros trabalhos, mas nesse suspense ele conseguiu expressar algo bem elevado.

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  • 26/12/2023 em 00:58
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    [ESSE REVIEW CONTEM SPOILERS DO FILME, LEIA POR SUA CONTA EM RISCO]

    É simplesmente algo insanamente ridículo o fato dos personagens desse filme não terem instinto de sobrevivência, eles literalmente ficam parados com cara de tacho esperando as coisas aconterem… E o que mais me irritou foi o fato de eles serem simplesmente submissos a tudo e não fazem questão de impor limites nas coisas.
    A proposta do filme é bem legal e ele é bem feito, mas é impossível assistir sem ficar com raiva do consagrado pai do ano que não faz nada enquanto sua família é ameaçada, pra no final ser morto da maneira mais tosca possível junto com a esposa.
    Pra nós brasileiros que somos naturalmente escaldados e desconfiados das coisas esse filme causa uma indignação muito grande, pois constantemente os personagens tem a oportunidade de fugir mas preferem continuar brincando de casinha com 2 estranhos que eles nunca viram na vida.
    E pra piorar mesmo estando nítido que os anfitriões são agressivos e esquisitos, o casalzao do ano continua lá querendo fazer amizade :).
    Enfim, é vergonhoso um cara desse se chamar de pai quando fica se cagando de medo de um cara baixinho e uma mulher esquisita e não consegue nem proteger a própria filha.
    Agradecemos seu feedback.

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  • 04/05/2023 em 14:42
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    Como baixo ou encontro o filme pra ver se é bom mesmo?

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  • 16/03/2023 em 03:06
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    O Filme em si é muito bom, mas voltar atrás pra buscar um urso de pelúcia depois de tudo que aconteceu não tem lógica alguma.

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  • 27/12/2022 em 15:48
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    Deixaram pra lá várias coisas que incomodavam-os. Aquela atitude de “não querer chatear”. Se lascaram.

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    • 27/12/2022 em 15:49
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      Outra coisa, não sabiam falam não para a própria filha…

      Resposta

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