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O Elevador da Morte
Original:Down/The Shaft
Ano:2001•País:EUA
Direção:Dick Maas
Roteiro:Dick Maas
Produção:Laurens Geels, William S. Gilmore, Dick Maas, Frank Thies, Heinz Thym
Elenco:James Marshall, Naomi Watts, Eric Thal, Michael Ironside, Edward Herrmann, Dan Hedaya, Ron Perlman, Kathryn Meisle

Atribuir características humanas a objetos inanimados é uma figura de linguagem muito utilizada na literatura, conhecida como prosopopeia. É interessante que, quando pensamos em cinema, sobretudo no cinema de horror, personificar e transformar objetos em vilões sobrenaturais é um recurso frequentemente empregado. Relembrando alguns exemplos conhecidos, assistimos carros e caminhões (Christine, 1983 e Comboio do Terror, 1986), máquinas de passar roupas (Mangler: O Grito do Terror, 1995), pneus (Rubber, O Pneu Assassino, 2010), preservativos (A Camisinha Assassina, 1996), refrigeradores (A Geladeira Diabólica, 1991) e é claro… elevadores (O Elevador da Morte, longa-metragem no qual se concentra esta crítica). Enfim, a lista é demasiada grande a ponto de permitir que arrisquemos aqui nomear este subgênero, talvez como prosoexploitation ou thingexploitation?

Brincadeiras à parte, como a maioria dos exploitations, estas produções costumam estar associadas aos chamados filmes trash ou B. Em comum, além das limitações técnico-orçamentárias e do evidente aspecto absurdo, às vezes constrangedor, elas costumam explorar questões associadas às relações entre o ser humano e o objeto personificado, convertendo sentimentos como dependência, obsessão ou desejo em medo. No caso de O Elevador da Morte, a aposta do enredo é explorar a dependência de um “meio de transporte” de uso rotineiro nos grandes prédios. Em tempo, é relevante comentar que a fobia de usar elevadores, embora não tenha nome, não é tão rara. Ela combina dois medos excessivos: a acrofobia (ansiedade extrema em lugares altos) e a claustrofobia (pavor de ambientes fechados).

Produção americana dirigida pelo holandês Dick Mass, O Elevador da Morte é uma refilmagem de um longa do próprio cineasta, conhecido por aqui como O Elevador Assassino ou O Elevador sem Destino (1983). Mass, que também é o autor do roteiro original, atualiza a trama incorporando poucas alterações, entre elas mover a ação para uma grande cidade localizada em território americano. No novo enredo, um enorme edifício chamado Millennium Building, atração turística com mais de 100 andares e uma das maiores construções de Nova York, começa a ser assombrado por uma série de acidentes inexplicáveis em seus elevadores. A repórter Jennifer Evans junta-se ao especialista em manutenção Mark Newman em uma perigosa investigação cujas revelações são tão inacreditáveis quanto mortais.

Contextualizando, para o leitor que questiona por que refazer uma produção quase esquecida e pouco relevante, vale lembrar que no início dos anos 2000 a indústria cinematográfica viveu uma forte onda de refilmagens, principalmente no gênero horror. Foi neste período que estrearam nos cinemas O Chamado (2002), O Massacre da Serra Elétrica (2003), Madrugada dos Mortos (2004) e Água Negra (2005), entre outros tantos remakes.

Uma curiosidade: Dick Mass disse em entrevista que teve a ideia para o roteiro de O Elevador da Morte após ler o conto A Máquina de Passar Roupa (The Mangler), do livro Sombras da Noite, de Stephen King. Vale reforçar que, diferente da qualidade questionável da adaptação estrelada por Robert Englund e dirigida por Tobe Hooper em 1995, o conto é excelente.

É uma pena que esta refilmagem siga aquele destino, quase sempre inevitável (e não seriam todos?), das releituras inferiores ao conteúdo original. No entanto, se porventura o espectador aceitar sem restrições um pacto ficcional singular, com algumas cláusulas discutíveis que vão desde ignorar a lógica (ou melhor, a falta dela) a abraçar um desfecho surpreendentemente amalucado, O Elevador da Morte pode trazer uma dose modesta de entretenimento.

Além de mortes criativas e sangrentas, que incluem decapitações, desmembramentos e quedas, O Elevador da Morte une um elenco interessante formado por nomes como James Marshall (de Twin Peaks) e Naomi Watts (que neste mesmo ano estaria em Cidade dos Sonhos, de David Lynch) vivendo o casal de protagonistas que assume a função de incansáveis investigadores. Chama a atenção igualmente a rápida participação dos veteranos Ron Perlman (futuro Hellboy nas adaptações de Guillermo Del Toro) e Michael Ironside (vilão de clássicos como Scanners: Sua Mente Pode Destruir, 1981 e O Vingador do Futuro, 1990).

Um ponto negativo que deve incomodar parte dos espectadores é a fotografia extremamente limpa e iluminada, com aquela aparência grosseira das produções made for tv, em uma configuração que raramente funciona para o gênero horror. Há também um certo “desperdício” do espaço e do cenário: Mass aproveita muito pouco dos potenciais efeitos causados pela altura, velocidade e tamanho reduzido do elevador. Em relação à trilha sonora, apesar da presença oportuna da canção “Love in an Elevator“, da banda de rock Aerosmith, as composições incidentais soam conflitantes com a ação em determinados momentos. Em síntese, aparentemente os realizadores menosprezaram as regras entendidas como as mais básicas para construção do suspense (e por consequência, do medo) desvalorizando o uso do espaço, do som e da iluminação.

O Elevador da Morte (Down, no título original, depois alterado para The Shaft, quando lançado em DVD) estreou oficialmente no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2001, meses antes do fatídico 11 de setembro. Por consequência, houve algum impacto negativo na recepção e divulgação do longa, já que o cenário era um edifício localizado na mesma cidade onde ocorreram os ataques terroristas que culminaram na queda das famosas Torres Gêmeas. Por coincidência, há uma fala sobre um atentado real anterior ocorrido no World Trade Center: “Eles quase pegaram as Torres Gêmeas dez anos atrás”. No Brasil, O Elevador da Morte foi lançado diretamente em DVD pela Focus Filmes em 2006; atualmente (enquanto este texto é escrito), está em cartaz no canal de streaming Looke.

Enfim, Elevador da Morte não é tão trash quanto sugere o título e nem o quanto gostaríamos. Entretanto, apesar de todas as suas imperfeições, não é descartável por inteiro e pode até ser divertido, caso o espectador ajuste adequadamente (para baixo) as suas expectativas.

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