Weird Western: Horror e Fantasia no Velho Oeste vol. 1 (2021)

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Weird Western: Horror e Fantasia no Velho Oeste vol. 1
Original:Weird Western
Ano:2021•País:EUA
Autor:Robert E. Howard •Editora: Clock Tower

O autor americano Robert E. Howard é mundialmente reconhecido por ser o criador de Conan, O Bárbaro, cujas histórias ambientadas num mundo fantasioso de espada e magia transcenderam seus contos originais, sendo adaptadas por inúmeras editoras para os quadrinhos (com destaque maior para a época que a Marvel Comics detinha os direitos) e também para o cinema, com 2 filmes de sucesso que alavancaram a carreira de Arnold Schwarzenegger.

Poucos sabem, porém, que Howard também foi o responsável pela criação de um subgênero diferente na literatura de horror: o Weird Western, que em uma tradução livre pode ser chamado de Faroeste Estranho ou Faroeste Bizarro.

Por ter nascido e crescido no Texas, o autor é um profundo conhecedor das histórias e folclores do velho oeste e, sendo um grande amigo do nosso já muito conhecido mestre do horror cósmico, H. P. Lovecraft – que influenciou Howard diretamente nesse mundo macabro –, criou contos onde a realidade do faroeste e seus pistoleiros e disputa por terras se choca com o fantasioso sobrenatural. A editora Clock Tower fez um compilado dessas histórias, um tanto desconhecidas do público, e lançou o primeiro volume de Weird Western.

A introdução da edição tem um prefácio escrito por Daniel Iturvides Dutra, que nos explica mais detalhadamente como Howard criou seus contos, seguido por uma minibiografia do autor e um texto de Edgar Indalecio Smaniotto detalhando como o Weird Western encontrou seu lugar nos quadrinhos italianos em publicações como Tex, Zagor e Mágico Vento.

Abrindo as histórias dessa coletânea, “O Horror da Colina” nos apresenta Steve Brill, um jovem cowboy texano que se tornou um fazendeiro. Sua curiosidade é atiçada ao perceber que Juan Lopez, um trabalhador mexicano da fazendo vizinha, sempre evita passar perto de uma colina localizada perto de onde moram. Curioso, Steve decide tentar descobrir o porquê disso e, julgando a resposta recebida como mera superstição, começa a escavar a tal colina para saber o que se encontra ali. Mal sabe ele que o que está enterrado naquele local não é ouro, mas sim algo que não deveria ser descoberto. É um dos melhores contos da obra, apesar de alguns problemas de desenvolvimento, onde Howard constrói aos poucos o clima de mistério, despertando a mesma sensação de medo que Juan Lopez tem ao avistar aquela colina. Quando o que está enterrado é liberto, a narrativa fica um pouco acelerada demais, encerrando de um modo um tanto abrupto que não faz jus ao seu começo.

Em “O Vale dos Perdidos” temos John Reynolds, um homem envolvido numa contenda por territórios que já dura gerações entre sua família e os McCrill, com o clã rival perseguindo o protagonista no começo da história. Fugindo de seus inimigos, ele acaba ficando de tocaia num local chamado Vale Perdido, região que até os indígenas evitavam adentrar. Situações deveras esquisitas começam a acontecer seguidamente, fazendo com que as perseguições entre os rivais parem e o foco de ambos os lados passe a ser entender o que está acontecendo. Com um quê de bizarrice, a luta pela sobrevivência deixa de ser contra o clã rival e começa a ser contra o que há naquele vale. É interessante notar que neste conto temos uma conexão direta com o conto anterior, O Horror da Colina: John pega o cavalo do personagem Steve Brill. A presença do horror e sobrenatural é bem forte aqui, além da trama bem construída e referências ao universo de Lovecraft.

“O Coração do Velho Garfield” vem em seguida, onde um narrador não identificado conta como ajudou o médico local, doutor Blaine, nos cuidados de um homem chamado Garfield, que se feriu mortalmente tentando segurar um cavalo. Garfield, conhecido por ser um contador de histórias fantasiosas, diz que não irá morrer dos ferimentos, já que muitos anos atrás recebeu um coração místico em um ritual indígena, afirmando que sua morte virá apenas quando sua cabeça for destruída. Para a surpresa de todos, ele se recupera dos ferimentos e faz o doutor Blaine e também o narrador prometerem que, caso ele morra, retirem o coração de seu corpo, o que eles concordam apesar de céticos. Acaba que surge uma situação onde o cumprimento da promessa deve ocorrer mais cedo que imaginavam. Outro conto muito bem escrito, surpreendente e assustador.

“O Homem no Chão” aborda novamente rixa entre famílias, onde temos Cal Reynolds e Esau Brill se enfrentando num duelo mortal de pistoleiros. Com os elementos tradicionais desse tipo de confronto sendo estabelecidos no início, os homens duelam por mais de uma hora, terminando com ambos se acertando. As coisas ficam estranhas quando Cal percebe que Esau, caído ferido no chão, está sorrindo e por algum motivo não parece reconhecê-lo. Esse conto possui uma trama um tanto previsível, mas a escrita fluida compensa esse fato.

 “Os Mortos Lembram” relata como um vaqueiro racista, chamado Jim Gordon, assassina um casal negro que estava em um saloon. A mulher, pouco antes de morrer, amaldiçoa Jim, afirmando que antes do dia acabar ela irá voltar e levá-lo direto para o inferno. Com uma estrutura um pouco diferente, o texto mais parece uma investigação criminal, sendo formado pelos depoimentos de diferentes personagens presentes no local que, além de se encaixarem, formam uma ordem cronológica dos fatos e de qual será o destino de Jim Gordon naquele dia.

“Pelo Amor de Bárbara Allen” tem inspiração na música/balada folclórica da língua inglesa chamada “Barbara Allen”. Na narrativa, situada durante a Guerra Civil americana, Rachel Ormond anos atrás perdeu a vontade de viver após a morte de seu amor, Joel Grimes. Cada vez mais adoecida devido a sua depressão, perto da morte Rachel começa a clamar pelo retorno de seu amado, enquanto um de seus familiares começa a ter sonhos estranhos que envolvem Joel. Um conto emocionante com aquela pitada de fantástico necessária.

“O Cavaleiro do Trovão” se passa no presente e nos apresenta John Garfield, um Comanche. Com um bom emprego em um escritório, tem sérios problemas com pensamentos e impulsos violentos e vive tentando controlá-los. Após buscar ajuda com um ancião de seu povo, John acaba participando de um ritual que lhe dá a habilidade de reviver suas vidas passadas, descobrindo que foi o “Coração de Ferro, vingador, Cavaleiro do Trovão”, um chefe de guerra Comanche. Após violentos confrontos contra indígenas Tonkawas e Wichitas, Cavaleiro do Trovão se refugia na Terra Sombria, um local envolto numa espessa névoa considerado maldito para vários povos indígenas. Lá, ele encontra dentro de enormes tendas os corpos de seres gigantescos. Esse conto possui elementos semelhantes a Conan, não é à toa que é bem conhecido entre os fãs do bárbaro cimério.

O último conto, “A Sombra da Besta“, se inicia com uma caçada a Joe Cagle, um canalha que assassinou o irmão de Joan, uma mulher a qual ele desejava possuir sexualmente. O protagonista do conto, Steve, é noivo de Joan, indo procurar Cagle numa casa abandonada que muitos dizem ser um local assombrado. Cauteloso ao adentrar a residência pensando que poderia encontrar armadilhas, Steve se assusta ao descobrir Cagle morto com uma expressão de horror em sua face. De forma súbita, Steve vê uma das portas da casa se abrir e, apesar de não enxergar ninguém, percebe que há uma estranha sombra se movendo em sua direção, sombra essa que pode ter sido a responsável pelo destino do homem morto. Uma bela história de horror com fantasmas para encerrar a obra.

No apêndice do livro temos o artigo O Estranho Caso de Josiah Willburg, que relata um fenômeno paranormal onde um homem, após ser escalpelado pelos Comanches, sobrevive por mais tempo do que deveria. Dizem que foi um caso verídico. Logo depois temos uma carta de Howard ao também autor e antologista August Delerth, chamada O Clássico do Sudoeste, descrevendo histórias de homens brancos criados por indígenas. Por fim, temos um poema sobre o Velho Oeste denominado A Terra Sombria e, finalizando, um artigo de H.P. Lovecraft homenageando a vida e as obras de seu falecido amigo chamado In Memorian: Robert Edwin Howard.

Fica clara a adoração de Robert E. Howard pela terra que o criou, o respeito pelas suas tradições e histórias e, é claro, pelo “estranho”, cuja influência de Lovecraft é bem notável em seus textos. Misturando suas paixões, criou esse peculiar subgênero não muito explorado, mostrando que tem muito potencial e horrores a serem descobertos em uma terra já tão manchada por mortes e sangue.

Recentemente, a editora Clock Tower anunciou o lançamento do volume 2 de Weird Western, que deve ser publicado em fevereiro de 2024.

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Louise Minski

Um experimento de Schrödinger entediado.

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