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Juntos
Original:Together
Ano:2025•País:EUA, Austrália
Direção:Michael Shanks
Roteiro:Michael Shanks
Produção:Dave Franco, Alison Brie, Mike Cowap, Andrew Mittman, Erik Feig, Max Silva, Julia Hammer, Timothy Headington
Elenco:Dave Franco, Alison Brie, Damon Herriman, Mia Morrissey, Karl Richmond, Jack Kenny

por Renato Droguett

Nas últimas temporadas, o subgênero de horror corporal (body horror) saiu do underground para ocupar espaço de destaque no mainstream. Títulos como A Substância (2024), de Coralie Fargeat, escandalizaram Cannes com suas transformações grotescas e conquistaram público e crítica graças ao perfeccionismo em maquiagem e efeito prático. Antes dela, Brandon Cronenberg já fizera barulho em Piscina Infinita (2023), em que o corpo é moldado por desejos e paranoia. Soma-se a isso a audácia de Re(Nascer) (2023), em que a ciência faz a ressuscitação ganhar contornos de pesadelo materno. Nesse cenário de carne e medo, Juntos (Together, 2025) chega como mais um capítulo dessa fase ávida por sangue, vísceras e metáforas físicas que arrancam aplausos — e enjoos — das plateias.

Tim (Dave Franco) e Millie (Alison Brie) são um casal que decide recomeçar a relação mudando-se para o interior. Durante uma trilha, eles encontram uma caverna e bebem água de um lago subterrâneo que, misteriosamente, faz seus corpos se atraírem fisicamente, criando episódios de fusão dolorosa e confusão psicológica. Enquanto tentam manter a vida cotidiana — escola, trabalho e lazer — descobrem que algo sobrenatural os pressiona a permanecer unidos de um jeito que beira o insuportável. A atmosfera se adensa quando o vizinho Jamie (Damon Herriman) revela ligações sinistras com rituais antigos, lançando o casal num pesadelo que mistura amor e asfixia.

Em Juntos, a dependência afetiva ganha forma literal: cada cena de contato físico exagera o desconforto, transformando o lugar-comum do casal grudado num monstro visceral que personifica a co-dependência e explora temas de identidade e sacrifício emocional de modo chocante e explícito. Michael Shanks equilibra humor ácido e medo genuíno — dos sustos repentinos às piadas ácidas sobre a situação do casal “grudadão” — numa alternância que evita monotonia e mantém o espectador na ponta da poltrona.

A química real entre Brie e Franco, casados na vida real, confere naturalidade impressionante a olhares, toques e desespero, reforçando a imersão: você acredita na afeição antes de sentir o horror físico. Para um diretor estreante, Shanks demonstra controle narrativo e visual invejável; cenas de fusão usam cortes precisos e enquadramentos certeiros, sem denunciar o nervosismo de quem nunca comandou um longa. Ainda que o filme deslumbre, alguns pontos enfraquecem sua proposta: traumas secundários de Tim são apenas insinuados e ficam sem desdobramento, deixando subtramas inacabadas que poderiam aprofundar o conflito interno; e o terceiro ato introduz explicações sobrenaturais de forma abrupta, sem construir as regras do fantástico, o que resulta num desfecho menos satisfatório do que o clímax até então.

Alerta de spoilers

Em Juntos, a subtrama do trauma de Tim surge em flashes breves — ele revive o dia em que encontrou o pai morto ao lado da mãe — mas esses momentos ganham apenas pinceladas superficiais, sem sequência dedicada que aprofunde seu conflito interno, o que faz com que essas motivações psicológicas pareçam meros gatilhos descartáveis. A omissão de sequência dedicada a esse trauma torna o drama pessoal raso; passa a impressão de que o poder da água sozinho causa tudo, mas a base psicológica fica subdesenvolvida, prejudicando a empatia.

Já o clímax sobrenatural, que deveria coroar toda a tensão construída, chega como um soco de conveniência narrativa: Jamie revela-se líder de um culto que venera a fusão corporal e, sem aviso prévio nem construção gradual das suas regras místicas, um ser “realista” em CGI funde Tim e Millie em uma criatura cuja transição dos efeitos práticos para o digital quebra a imersão e torna o desfecho abrupto demais para a proposta visceral até então.

Fim dos spoilers

Se você curte horror corporal — aquele que suja o estômago de gore e explora o pior da pele humana —, Juntos é manicure no estômago e catapulta na mente. Com atuações comprometidas (a química de Brie e Franco é combustível puro), humor sarcástico que corta como bisturi e direção que engana ao fingir veteranismo, o filme acerta em visceralidade.

O filme raspa a zona de conforto visceral — como se, em vez de limar calos dos pés ou das unhas, ele fizesse um tratamento doloroso no estômago, deixando você enjoado e incomodado com o grotesco na tela. É aquele sentimento de “não quero ver, mas não consigo desviar o olhar”. Mas o resultado final é o oposto desse desconforto físico: depois de toda a carnificina e do nojo, o filme joga você longe, explodindo pensamentos e reflexões sobre dependência, identidade e relacionamentos tóxicos. É como se, após a sequência de gore, sua cabeça fosse arremessada para pensar em tudo o que viu; você vai se pegar pensando muito mais nas camadas dos significados do que no body horror em si.

Mas, se você espera terror psicológico costurado com profundidade dramática e um desfecho que amarre cada fio narrativo, prepare-se para sentir uma desconexão no terceiro ato: as conveniências sobrenaturais brotam e os dilemas internos dos personagens ficam em segundo plano. Ainda assim, vale cada respingo de sangue no celuloide — ainda que a última lâmina escorregue na emulsão.

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