![]() Miss Violence
Original:Miss Violence
Ano:2013•País:Grécia Direção:Alexandros Avranas Roteiro:Alexandros Avranas, Kostas Peroulis Produção:Alexandros Avranas, Vasilis Chrysanthopoulos Elenco:Themis Panou, Reni Pittaki, Eleni Roussinou, Sissy Toumasi, Kalliopi Zontanou, Constantinos Athanasiades, Chloe Bolota, Maria Skoula, Nikos Hatzopoulos, Minas Hatzisavvas |
O cinema grego contemporâneo, especialmente o movimento rotulado como Greek Weird Wave, construiu identidade através de distanciamento emocional radical e humor seco diante do absurdo. Dente Canino (2009), de Yorgos Lanthimos, tornou-se o emblema dessa estética: famílias disfuncionais filmadas com frieza entomológica, comportamentos robotizados, violência processada através de estranhamento que gerava desconforto e, crucialmente, riso nervoso. Era cinema que confiava na inteligência da audiência para decodificar alegorias, que utilizava artifício formal para criar distância crítica. Miss Violence (2013), segundo longa de Alexandros Avranas, emerge desse contexto, mas representa algo fundamentalmente diferente. Onde Lanthimos estiliza o grotesco, Avranas o naturaliza. Onde Dente Canino provoca riso nervoso que permite respiração, Miss Violence provoca paralisia sem alívio. É uma diferença que torna o filme corajoso e, ao mesmo tempo, profundamente problemático, obra que levanta questões éticas sobre quando a observação crítica cruza a linha para a cumplicidade, quando a austeridade formal se torna indistinguível de exploração.
O filme abre com uma festa de aniversário de onze anos filmada em plano fixo que imediatamente sinaliza filiação com Lanthimos. A família canta parabéns com entusiasmo mecânico, sorrisos performados, movimentos coreografados demais para serem espontâneos. Então, sem aviso, estabelece-se a tragédia que dará início ao drama da obra. A câmera não a segue, permanece observando as reações da família: choque contido, o patriarca assumindo controle com autoridade que sugere prática em gerenciar crises. É um prólogo magistral que estabelece tom e vocabulário visual, mas para espectadores familiarizados com Dente Canino ou com obras de Michael Haneke, também é possível telegrafar imediatamente a natureza do horror vindouro: uma família profundamente disfuncional onde a violência emana de dentro.
Essa previsibilidade não seria necessariamente uma falha. Violência Gratuita (1997) de Haneke funciona porque a audiência percebe cedo que algo está errado, mas permanece impotente. A Fita Branca (2009), também de Haneke, revela gradualmente que as crueldades são sintomas de um sistema perverso, mas o suspense reside em observar como ele opera. Miss Violence poderia funcionar similarmente, mas Avranas não possui a elegância narrativa ou imaginação formal de seus predecessores. O filme estabelece um padrão de revelações graduais, mas, ao invés de construir complexidade, simplesmente reitera a violência em variações ligeiramente diferentes.
O patriarca aparenta ser um avô bondoso aos olhos externos, mas no espaço doméstico revela-se um controlador absoluto. A comida é pesada em balança, as portas e fechaduras são arrancadas porque “nesta casa não há segredos”, os hobbies são restritos a quebra-cabeças escolhidos por ele, não há brinquedos porque a infância não é um conceito reconhecido. E atravessando tudo, a violência física súbita: tapas no rosto que chegam sem aviso, explosões de controle que mantêm todos em vigilância permanente. Esses tapas tornam-se quase um personagem adicional, uma presença que define o ritmo e a atmosfera. Avranas utiliza-os como pontuação brutal: cenas longas de normalidade tensa cortadas por violência que reestabelece a hierarquia. É uma ilustração eficaz de como a violência doméstica opera através de imprevisibilidade que impede estratégias de evitação.
Themis Panou, que ganhou a Volpi Cup em Veneza, entrega uma performance de controle assustador sem modulações extremas entre persona pública e privada. Mantém o mesmo tom de voz calmo, a mesma expressão facial neutra lidando com a assistente social ou administrando punições. É uma escolha que comunica algo crucial: os perpetradores não são monstros óbvios que se transformam ao cruzar a porta de casa. São figuras que performam normalidade tão convincentemente que conseguem ser simultaneamente mocinho e vilão sem necessidade de alterar o comportamento. Reni Pittaki como a esposa/mãe/avó entrega uma submissão controlada com frieza exata, uma participante ativa no sistema que eventualmente encontra prazer genuíno ao assumir o poder. O elenco infantil navega um território difícil com naturalidade que nunca parece exploratória, comunicando estratégias de sobrevivência variadas: obediência absoluta, dissociação, proteção mútua tímida, eventualmente internalização completa das regras.
Visualmente, a fotografia utiliza uma paleta de tons sépia, bege, cinza, cores drenadas de vida. Os planos são majoritariamente estáticos, os enquadramentos fragmentam rostos e corpos (troncos sem cabeças, mãos isoladas, pés caminhando), uma técnica que desumaniza e força atenção a detalhes que revelariam sinais de abuso. É um vocabulário emprestado de Haneke e Lanthimos, mas com menor sofisticação conceitual. Onde Haneke fragmenta os corpos para questionar a cumplicidade da audiência e Lanthimos para expor a constructedness social, Avranas parece fazê-lo porque reconhece que é “coisa que diretores sérios fazem” sem compreender a função dramatúrgica completa.
O design de produção manifesta os “50 tons de bege”, praticamente uma cultivated disaffection: o apartamento é impecavelmente limpo, organizado com precisão obsessiva, desprovido de toques pessoais ou evidência de vida vivida. Não há muitas fotografias, não há bagunça, não há acumulação indicando história. É um espaço que existe para ser controlado, não habitado. Avranas praticamente elimina a trilha não-diegética, apoiando-se em diálogos esparsos e silêncio. Contribui para o realismo, mas enfraquece os punches dramáticos. Onde a música poderia amplificar a tensão ou oferecer comentário irônico, a ausência significa que as revelações chegam sem suporte emocional, dependendo apenas da imagem e da performance.
A edição é esparsa ao minimalismo. As cenas se estendem além do ponto onde a informação foi comunicada: a família assistindo TV em silêncio, refeições sem conversa, tarefas mecânicas. É um slow burn eficaz na primeira metade, criando uma atmosfera sufocante onde a espera por violência gera mais tensão que a violência em si. Mas conforme o padrão se estabelece, as cenas contemplativas começam a parecer b-rolls de estranhamento sem adicionar compreensão, apenas testando a paciência.
O ritmo vacila especialmente porque Avranas eliminou completamente o que tornava Dente Canino suportável: o humor ácido e o absurdismo. Lanthimos compreende que para manter a audiência engajada com material perturbador, são necessárias válvulas de alívio, momentos em que o absurdo provoca riso que não diminui o horror, mas o amplifica ao forçar o confronto com a própria cumplicidade. Miss Violence é rigorosamente isento de ironia, austero ao ponto de severidade, recusando qualquer leveza. Torna o filme quase insuportável não no sentido produtivo de arte desafiadora, mas no sentido exaustivo de uma provação que confunde a duração de sofrimento com profundidade de insight.
ALERTA DE SPOILERS
A estrutura familiar é a mais perversa, dando sinais de gerações de abuso e incesto. A família existe como uma operação de exploração sexual geracional, um sistema onde as vítimas eventualmente se tornam cúmplices porque não conhecem outra realidade. O patriarca repete: “Nesta casa não há segredos“, justificando a eliminação de privacidade, mas é uma mentira óbvia pois a estrutura inteira existe para manter o segredo escondido externamente.
No clímax, ele quebra a própria regra ao abusar da neta antes dos onze anos. A mãe/avó o descobre e, numa das poucas violências não mostradas, o assassina. No epílogo, ela assume o controle e pede à filha mais velha que tranque a porta: o segredo continuará, o controle mudou de mãos, da porta para fora a fachada permanecerá. Não há libertação, apenas sucessão de poder.
Deveria ser devastador sobre os ciclos de violência, sobre as vítimas que internalizaram a lógica de abusadores, sobre as estruturas que sobrevivem mesmo quando o patriarca individual é eliminado. Mas Avranas o apresenta com uma ambiguidade que deixa um vazio não por design inteligente, mas por falta de elaboração. O filme não planta elementos que permitiriam à audiência especular produtivamente sobre possíveis interpretações (continuação, rompimento, ou mesmo tragédia final). Simplesmente termina, jogando ambiguidade como se fosse suficiente para profundidade.
Pior é a decisão de incluir uma cena explícita de abuso no terceiro ato: uma adolescente sendo abusada sequencialmente por dois clientes e pelo pai, filmada com a mesma frieza distanciada. Os defensores argumentariam que não glamouriza, apenas documenta a realidade horrível. Mas há uma diferença crucial entre mostrar a violência como crítica e mostrar a violência como procedimento. Nesse ponto, a audiência já compreende completamente a natureza e extensão do abuso. Não há informação nova, nenhuma camada adicional de compreensão. Existe apenas para chocar.
Aqui o filme cruza a linha entre denúncia e cumplicidade. A câmera não oferece um ponto de fuga, não há resistência que reorganize o olhar, não há deslocamento simbólico que transforme em reflexão. Compare com Violência Gratuita, onde Haneke usa a violência contra o próprio ato de consumir violência, ou A Fita Branca, onde ela é inscrita em um sistema histórico que permite compreensão de origens. Miss Violence apenas mantém a audiência ali, olhando, por tempo demais.
E aqui está o problema central: o filme está confortável demais em sua austeridade, satisfeito em permanecer no horror sem oferecer elaboração ou deslocamento crítico. O final revela gradualmente que o patriarca não apenas controla a família através de violência, mas explora sexualmente as meninas a partir dos onze anos, prostituindo-as enquanto abusa delas. É uma revelação que explica por que a aniversariante se matou ao completar a idade em que o abuso sistemático começaria. Mas Avranas não sabe o que fazer além de mostrar.
FIM DOS SPOILERS
O filme quer denunciar a normalização da violência, expor como o patriarcado opera através de controle não apenas físico, mas psicológico e econômico, demonstrar como a crise econômica grega (no auge em 2013) cria condições em que a exploração prospera. A alegoria sobre a crise funciona: o desespero em fazer as contas fecharem, a exploração ecoando o trabalho infantil, as estruturas de poder que persistem mesmo quando insustentáveis. Mas trata o patriarcado como uma estrutura estabelecida sem tecer crítica sistêmica, apresentando aquela família como monstruosa pela violência especificamente, implicando que sem o abuso talvez se justificasse o controle paterno. É um conservadorismo que reafirma a ordem patriarcal: o problema não é o patriarcado, é esse patriarca que foi longe demais.
Comparado com Dente Canino, a diferença é gritante. Lanthimos constrói um microcosmo artificial onde a violência é mediada por regras absurdas e distanciamento performático. Há algo lúdico mesmo no horror, uma estilização que cria espaço de reflexão. Miss Violence elimina o jogo: o controle é brutal, direto, cotidiano em uma normalidade corrompida, mas reconhecível. Onde Dente Canino provoca riso nervoso que permite respiração crítica, Miss Violence provoca paralisia. Dente Canino estiliza o grotesco; Miss Violence o naturaliza.
A naturalização sem elaboração crítica suficiente gera um problema ético. Não é exploitation tradicional buscando sensacionalismo através de violência gráfica exagerada, mas um tipo mais insidioso: adota uma estética de contenção sinalizando “cinema sério“, mas por baixo há uma repetição sistemática de trauma como motor dramático. Não explora pelo choque explícito imediato, mas por exposição prolongada. A degradação vira procedimento. É exploitation que troca o sensacionalismo por ascetismo. Não grita, mas esgota.
A cumplicidade surge quando o filme transforma a revelação em mecanismo de progressão narrativa, exige resistência emocional contínua sem elaboração, confunde silêncio com profundidade e austeridade com responsabilidade. Não aprova o que mostra, mas se beneficia do desconforto produzido. O mal-estar vira capital simbólico. Quanto mais insuportável, mais “importante” parece se declarar.
O paradoxo: quer denunciar a normalização da violência, mas corre o risco de normalizá-la esteticamente. Quer mostrar como o horror se esconde na rotina, mas, ao não deslocar o olhar, aprisiona o espectador na mesma lógica de silêncio que critica. Não é moralmente irresponsável, mas eticamente ambíguo: caminha entre expor um sistema perverso e reproduzir sua lógica de apagamento, onde tudo acontece, nada é dito, o sofrimento permanece como espetáculo austero.
Quando Avranas ganhou o Silver Lion em Veneza, o júri reconheceu o controle formal e a coragem de abordar o tabu. São méritos reais. Mas os prêmios também podem sinalizar aprovação de um cinema que confunde severidade com seriedade, que assume que a recusa de elaboração equivale a respeito pela gravidade.
Para espectadores que valorizam atuações excepcionais e direção tecnicamente controlada, Miss Violence oferece ambos. Panou e Pittaki entregam performances memoráveis demonstrando como a normalidade coexiste com a monstruosidade. Para admiradores de fotografia austera e design que comunica através de ausência, o trabalho merece reconhecimento. Para quem busca uma representação unflinching de realidades que a sociedade ignora, o filme não desvia o olhar.
Mas para quem espera que o cinema sobre trauma ofereça mais que documentação de sofrimento, que a arte sobre violência estrutural forneça análise além de exposição, que os filmes difíceis recompensem com insight proporcional, Miss Violence decepciona. É um filme que parece acreditar que a severidade formal e a recusa de conforto são suficientes para importância, que a permanência no horror equivale a crítica do horror, que o testemunho sem elaboração é uma postura ética adequada.
No fim, Miss Violence expõe as possibilidades e os limites de um certo tipo de cinema austero. Demonstra como a estética de distanciamento pode ser aplicada a material extremo sem sensacionalismo barato. Mas também revela como a mesma estética, sem imaginação formal ou elaboração conceitual adequadas, pode inadvertidamente reproduzir as lógicas que pretende criticar. É um filme que merece ser visto, discutido, debatido, mas também questionado rigorosamente sobre a ética de sua própria forma.
Não é o que se conta, mas como se conta. Miss Violence conta uma história de abuso geracional e controle patriarcal com frieza formal impressionante, mas sem o deslocamento crítico suficiente para transformar observação em análise. É como se conta que torna o filme simultaneamente admirável em execução técnica e problemático em implicações éticas, uma obra que provoca não apenas pela severidade, mas pela questão fundamental: o que acontece quando o cinema que expõe violência para denunciá-la cruza a linha para o cinema que a expõe porque a audiência para o desconforto existe e premia a austeridade com prestígio cultural?








