
![]() Pânico 7
Original:Scream 7
Ano:2026•País:EUA Direção:Kevin Williamson Roteiro:Kevin Williamson, Guy Busick, James Vanderbilt Produção:William Sherak, James Vanderbilt, Paul Neinstein Elenco:Neve Campbell, Courteney Cox, Isabel May, Jasmin Savoy Brown, Mason Gooding, Anna Camp, Joel McHale, Mckenna Grace |
Imagine que você é um estúdio que, por ter agido feito uma ameba, conseguiu perder as duas novas estrelas de uma franquia de enorme sucesso e longevidade. Agora imagine que uma dessas estrelas é ninguém menos que a Wandinha. Imagine que você também conseguiu perder um diretor extremamente competente e que vem realizando trabalhos muito interessantes. Mas imagine que antes de tudo isso daí você já tinha conseguido perder a atriz que vivia a personagem mais importante de toda essa franquia. Então, o que você faz? No desespero, enche a caçamba da sua picape com uma coisa chamada “cachê milionário”, deixa na frente da casa dessa atriz, toca a campainha e sai correndo. Depois, faz o mesmo com o cara que criou essa franquia. E, se tudo der certo, você terá um novo filme, que você poderá promover como sendo um “bem-vindo retorno às raízes”.
Nessa situação de “voltamos à estaca zero”, existiam duas possibilidades: o diretor, roteirista e criador da franquia Pânico, Kevin Williamson, teria carta branca para entregar o filme que lhe desse na telha. Ou ele teria sua liberdade criativa extremamente cerceada pelo estúdio, que não permitiria mais nenhum risco em um projeto já tão problemático. Para nossa surpresa, não aconteceu nem uma, nem outra.
Pânico 7 (Scream 7, 2026) abre com uma sequência exuberante, que, como já vem acontecendo nos últimos filmes, abraça o literal “passeio pelo museu” que a franquia se tornou. Porém, ao encerrar a sequência ateando fogo no próprio museu, parece sinalizar um rompimento com o passado e com a nostalgia, essa ferramenta que pauta boa parte da produção de cultura pop atual.
Isso não é exatamente o que o longa faz no restante de suas quase duas horas de duração. Na verdade, Williamson parece mesmo é interessado em romper com o filme anterior da saga, o único sem Sidney Prescott (Neve Campbell) – mas não se preocupe, as piadas metalinguísticas sobre isso são espirituosas e bem colocadas, e soam mais como uma bela cutucada no estúdio do que nas pessoas envolvidas na produção em questão.
Falando em metalinguagem, ela não é presença tão constante aqui quanto em capítulos anteriores, mas sobram alguns comentários sobre sequências cinematográficas nostálgicas e a imbecilidade de certos retcons. Também aparece outra marca registrada da franquia, os comentários sobre alguma tecnologia ou tendência midiática do momento, nesse caso, as IAs e os deepfakes, dispositivos que ajudam a manter o suspense em torno da legitimidade do suposto retorno de Stu Macher (Matthew Lillard).
Afinal, é ele quem parece ser o Ghostface da vez, retornando dos mortos do primeiro filme para assombrar Sidney, que agora leva uma vida pacata em uma nova cidade do interior junto de seu marido, o delegado Mark Evans (Joel McHale, subaproveitado), e sua filha, Tatum (Isabel May). Como de costume, Gale Weathers (Courteney Cox) junta-se a Sidney na investigação, trazendo a tiracolo os “irmãos Randy Meeks”, Mindy (Jasmin Savoy Brown) e Chad (Mason Gooding).
É especialmente nos momentos mais intimistas e no desenvolvimento dos personagens que Williamson mostra que não perdeu a mão. Ele conhece (e ama) essas pessoas como ninguém, e isso transparece. Da retomada da franquia a partir de 2022, é talvez o filme que mais provoque aquela sensação calorosa de reencontrar velhos amigos. E é também, em toda a saga, aquele em que Sidney mais voa solo como protagonista. Gale é completamente esquecida no terceiro ato (o que considero um erro), e, diferentemente do quinto filme, não existe uma urgência em passar o bastão adiante (até porque os produtores não devem querer perder Campbell uma segunda vez). Somando isto à ambientação interiorana e ao alto nível de violência, podemos dizer que, dos filmes anteriores da saga, aquele ao qual o novo mais se assemelha é Pânico 4 (Scream 4, 2011).
Embora não seja uma ruptura completa com os filmes da retomada – entre outras coisas, James Vanderbilt e Guy Busick, roteiristas do quinto e do sexto capítulo, estão envolvidos -, esse velho novo começo se preocupa em recorrentemente mencionar acontecimentos pregressos, felizmente, de uma maneira orgânica que consegue disfarçar um pouco o didatismo.
Há coisas que incomodam muito mais, como a decisão estapafúrdia de Sidney em ir a pé até onde a filha se encontra em perigo e um clímax final bastante frustrante. Apesar disso, é um filme envolvente e gostoso de se assistir, mesmo que daqui a alguns anos possa ser lembrado apenas como “aquele em que a Sidney volta”.
É isso. Pânico 7 não é o alimento enlatado e superprocessado de estúdio que temíamos que pudesse ser, assim como também não é o voo alto de um criador sem amarras. Mas, também, se alguém procura inovação em uma franquia milionária com 30 anos de existência e sete filmes, sinto dizer, mas está procurando no lugar errado. Pânico já joga na liga dos clássicos. É como aquelas bandas feito os Rolling Stones ou o AC/DC: elas provavelmente nunca mais produzirão nada revolucionário, mas os shows ainda podem ser muito, muito divertidos.





