0
(0)

Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno
Original:Return to Silent Hill
Ano:2026•País:EUA, França, UK, Alemanha, Sérvia, Japão
Direção:Christophe Gans
Roteiro:Christophe Gans, Sandra Vo-Anh, William Josef Schneider
Produção:Victor Hadida, Molly Hassell, David M. Wulf
Elenco:Jeremy Irvine, Hannah Emily Anderson, Robert Strange, Ljiljana Velimirov, Giulia Pelagatti, Evie Templeton, Pearse Egan, Eve Macklin, Emily Carding, Nicola Alexis, Martine Richards, Howard Saddler

As duas primeiras passagens cinematográficas por Silent Hill envolveram sentimentos opostos. Enquanto Terror em Silent Hill (2006) é considerada até hoje uma das melhores adaptações de um videogame ao propor uma atmosfera sinistra e incômoda, o seguinte, Silent Hill: Revelação (2012), já não conseguiu apresentar a cidade maldita como um personagem, destacando um enredo que parecia distante de uma imersão ao pesadelo imaginado. Desde então não houve mais intenção de retornar, mesmo com o avanço do cinema de horror na segunda década do século e a realização de outras adaptações questionáveis. Em 2020, o responsável pelo longa de 2006, Christophe Gans, começou a trabalhar em um novo filme, deixando claro que traria referências ao segundo jogo, Silent Hill 2, lançado em 2001, sem relação alguma com o seu próprio trabalho anterior ou com o defenestrado Revelação.

Gans sempre viu Silent Hill como o palco de uma antologia, acreditando que histórias independentes poderiam ser contadas no ambiente aterrorizante. Mesmo assim, também acredita que é preciso uma imersão ao game para que os fãs possam enxergar referências, desde que entenda as diferenças entre os formatos: ora, não dá para fazer algo como Doom fez em 2005 ao utilizar a câmera em primeira pessoa, faltando apenas entregar o controle ao espectador; e, ao mesmo tempo, é importante ter em vista que se trata de um filme de horror, com monstros e uma sensação intensa de claustrofobia. Com roteiro de Gans, Sandra Vo-Anh e William Josef Schneider, ele rodou o longa em 2024, no mesmo ano em que era lançado um remake de Silent Hill 2, e teve que escolher um dos seis finais do jogo para o filme, dizendo que escolheu o “mais emocionalmente ressonante“.

Com distribuição da Cineverse (a mesma de Terrifier 3), Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno — título longo e desnecessário — chegou aos cinemas no final de janeiro, embora estivesse previsto no Brasil para 12 de março. Passou sem a sirene de alerta da cidade, pois foram distribuídas, em sua maioria, cópias dubladas e ficou pouco tempo em cartaz devido às estreias de O Primata, Socorro!, Extermínio: Templo dos Ossos e a predominância de A Empregada. Em geral, até foi bem nas bilheterias, conquistando até o momento mais de US$ 40 milhões, ainda que as críticas sejam desfavoráveis. Confesso que me espanto por ter tantos interessados em um filme cujo trailer já evidenciava seus problemas.

O longa basicamente traz a jornada silenciosa e amargurada de James Sunderland (Jeremy Irvine) em busca de reencontrar sua amada Mary Crane (Hannah Emily Anderson) em Silent Hill. Começa com um flashback em fotografia de cores quentes exatamente para provocar o contraponto futuro com o ambiente morto. Mary pretendia deixar Silent Hill, mas, um incidente na estrada, a fez perder o ônibus de partida e se aproximar de James, iniciando um romance que os conduziu de volta ao local. Na verdade, o rapaz a perdeu, não mora mais por lá e agora é um beberrão, contando com o apoio da terapeuta Dra. M (Nicola Alexis) para descobrir o que realmente aconteceu no passado e aceitar sua perda.

Não se sabe como — correios, coruja, mensageiro? —, ele recebe uma carta enigmática de Mary chamando-o de volta a Silent Hill. Ele parte para o local passando pela emblemática placa “Welcome to Silent Hill“, agora um ambiente acinzentado, escondido por uma densa neblina e quedas de cinzas, em um chroma key sonolento. O “fundo falso” se intensifica quando conhece Angela (Eve Macklin), em um cemitério artificial de videogame, e ela o alerta sobre não continuar a excursão. Logo ele já se depara com uma criatura sem braços em um movimento intenso de loucura, precisando se esconder de seus vômitos, numa caracterização digital, mas condizente com a do game.

Sua busca o conduz a lugares onde ele estivera com Mary como o prédio de apartamentos Wood Side, o Hospital Brookhaven e o Hotel Lakeview. No caminho, ele conhece a menina Laura (Evie Templeton, que interpretou a mesma personagem no remake do jogo), que carrega uma boneca monstruosa viva, o louco e violento Eddie (Pearse Egan) e Maria, uma versão ousada e sedutora de sua amada e que também quer fazê-lo desistir da busca. Contudo, os monstros estão todos por lá como o clássico Pyramid Head (Robert Strange), um exército de enfermeiras sem olhos e outras aberrações como uma “mulher-aranha“, intensificados pelo som de transformação da cidade em um pesadelo vivo.

Spoilers no próximo parágrafo

Não precisa se familiarizar com o jogo nem caçar tumbas para entender que as moças ali são personalidades de Mary, assim como o “cabeça de pirâmide” é ele próprio em seus momentos de insanidade. Tudo ali se constrói como peças de sua mente distorcida e fragmentada por momentos experimentados. Quando os pesadelos e flashbacks se misturam, a narrativa fica confusa numa travessia por pesadelos imersivos, sem que o infernauta consiga identificar o que realmente aconteceu. Se a descoberta do ritual com “pessoas estranhas” contribuiu para o desenvolvimento do lado maldito da cidade, por outro saber como Mary e James se separaram carrega um melodrama de novela brega, com direito a mariposa gigante e outras bobagens.

Fim dos Spoilers

Talvez Gans tenha realmente pensado nos cenários do videogame e explorou esses efeitos para a versão cinematográfica. Combina para o jogo, com bonequinhos digitais, mas não para um filme. Tudo ali soa artificial, não permitindo que em nenhum momento transmita uma sensação de estadia nas ambientações propostas. Por vezes me remeteu àquele filme Stay Alive – Jogo Mortal (2006), com a terrível Condessa de Sangue como uma vilã de efeitos de instagram. Parece que a preocupação principal dos realizadores foi o fanservice, a despeito de sua execução pobre e tragicamente piegas. Nem mesmo a química entre James e Mary se mostrou convincente, nunca deixando transmitir um envolvimento real e duradouro entre os dois personagens.

Ter aguardado vinte anos por mais um envolvimento de Gans com a franquia, depois do que ele fez em Terror em Silent Hill, não valeu a pena. Ele conseguiu desenvolver algo quase no mesmo nível de Silent Hill: Revelação (2012), mas talvez mais sonolento e decepcionante, sem que a emoção ressonante seja capaz de justificar sua realização.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Sobre o Autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *