
![]() Você Só Precisa Matar
Original:Ôru Yû Nîdo Izu Kiru / All You Need is Kill
Ano:2025•País:Japão Direção:Yukinori Nakamura, Ken'ichirô Akimoto Roteiro:Hiroshi Sakurazaka, Yûichirô Kido Produção:Eiko Tanaka Elenco:Ai Mikami, Natsuki Hanae, Mô Chûgakusei, Kana Hanazawa, Hiccorohee |

Em um futuro, numa Terra dominada por alienígenas, Rita, uma soldada, fica presa em um looping temporal: toda vez que morre, retorna ao mesmo dia. Tudo muda quando ela conhece Keiji, outro combatente preso à mesma anomalia. Juntos, eles buscam uma forma de quebrar o ciclo e salvar a humanidade.
Adaptado do romance japonês homônimo de Hiroshi Sakurazaka, que também ganhou uma versão em mangá, acompanhamos a narrativa pelo olhar de Keiji, aprendendo a cada loop na mesma medida em que ele se afoga no desgaste emocional e físico. Esse mesmo caminho foi seguido na adaptação hollywoodiana estrelada por Tom Cruise e Emily Blunt, No Limite do Amanhã. A versão americana, no entanto, simplificou a narrativa e abraçou mais a ação e o humor do que a introspecção e os conflitos internos presentes na obra original. Ainda assim, a essência permanecia ali, mesmo que de forma mais tímida.

O anime utiliza o looping temporal não apenas como recurso narrativo, mas como um estado mental. A cada retorno, aprofunda-se a sensação de isolamento da protagonista que, mesmo cercada de pessoas, é a única a lidar com a anomalia e, ao mesmo tempo, com os próprios fantasmas.
Você Só Precisa Matar inicia de forma direta, sem ambientação ou muitas explicações. Assim como Rita, o espectador é lançado em um looping de mortes pouco estilizadas ou guerras épicas. Pelo contrário, o anime aposta pesado em uma atmosfera aprisionadora, deixando claro que se trata de uma experiência que tenta fazer você sentir o peso de cada falha. Nada ali parece feito para empolgar, e sim para cansar, exatamente como acontece com a personagem. Isso muda somente quando somos apresentados a Keiji, e os loops passam a apresentar variações.
No segundo ato, o ritmo pode dividir opiniões, já que desacelera e aposta na relação entre Rita e Keiji, funcionando menos como romance e mais como uma necessidade humana. Essa escolha mostra como a aproximação dos dois acontece não porque existe tempo, mas porque não existe mais ninguém que compartilhe aquele fardo. Ao mesmo tempo, saímos do campo da solidão e passamos a compreender melhor o passado de Rita, seus traumas e, sobretudo, suas vulnerabilidades. Ainda assim, essa opção narrativa é bastante monótona em certos blocos.
Keiji, por outro lado, é um dos pontos frágeis do filme. Mesmo servindo como espelho emocional para Rita, sua presença funciona mais como ferramenta narrativa do que como indivíduo, o que enfraquece parte do impacto emocional da relação entre os dois. Em alguns momentos, o personagem parece existir apenas para reagir à jornada de Rita, e não para construir a própria.
Em seu ápice, o anime opta por subverter expectativas e o faz com uma resolução que ecoa mais como um suspiro do que como um rugido. Com isso, o desfecho é morno e enfraquece a tensão construída ao longo dos loops.
O cuidado estético da animação é um destaque, e a paleta de cores contida e frequentemente dominada por tons frios e dessaturados reforça a sensação de desgaste e repetição. Quando surgem cores mais vibrantes, elas não aliviam o peso da narrativa, mas funcionam como contraste emocional. É uma escolha visual coerente com o que o filme quer provocar.
O anime fala sobre continuar mesmo quando o esforço não é reconhecido e quando o mundo insiste em resetar sem aprender nada. O looping funciona como metáfora para exaustão emocional, para rotinas de violência e para sistemas que esmagam indivíduos. E ao colocar Rita no centro, o filme também fala sobre solidão, sobre o peso dos traumas e sobre como a guerra não destrói apenas corpos. Você Só Precisa Matar é uma adaptação que assume o risco de se afastar de seu material-fonte. Essa liberdade, apesar de corajosa e de ter seus méritos, como o protagonismo de Rita, nem sempre funciona. Ao optar por um tom mais introspectivo e menos explosivo, o filme se torna cansativo, e embora essa escolha dialogue com a proposta temática do looping e da exaustão, ela também dispersa a atenção do espectador. Cria-se uma expectativa por instantes de maior impacto, seja emocional ou narrativo, que simplesmente não chegam com a força esperada. Ainda assim, a obra imprime melancolia e é uma experiência muito mais sensorial do que espetacular, tornando-se um filme que permanece mais pelo que faz sentir do que pelo que faz vibrar.


Ótimo texto! Fiquei curiosa para assitir 🙂
Ótimo texto! Não fazia ideia que o filme de Tom Cruise era inspirado em um mangá. Vou procurar ler o material original e ver essa animação.
Adorei! Fiquei curiosa pra ver!