![]() Grizzly, a Fera Assassina
Original:Grizzly
Ano:1976•País:EUA Direção: William Girdler Roteiro:Andrew Prine, David Sheldon, Harvey Flaxman Produção:Harvey Flaxman, David Sheldon Elenco:Christopher George, Andrew Prine, Richard Jaeckel, Joan McCall, Joe Dorsey, Charles Kissinger, Tom Arcuragi, Victoria Johnson, Kathy Rickman, Mary Ann Hearn |

O ataque de um tubarão branco à cidade litorânea de Amity fez mais barulho do que a trilha criada por John Williams. Como se sabe, o sucesso do longa de Steven Spielberg gerou (e continua gerando) inúmeras imitações, variando apenas o animal assassino. Uma das primeiras “cópias” do filme foi o sangrento Grizzly, a Fera Assassina (Grizzly, 1976), mais uma produção que foi metralhada pela crítica da época e acabou se tornando cult com o passar dos anos. Diferente de Duna (Dune, 1984), este foi bem nas bilheterias, conquistando US$38 milhões de dólares em seu lançamento nos cinemas, tornando-se uma lucrativa produção independente. Mas, o que chama mais a atenção nesse filme de ataque de um urso pardo é a ousadia de seus realizadores.
Grizzly partiu de uma ideia do produtor e roteirista do filme, Harvey Flaxman, que se deparou com um urso durante um acampamento em família. Ele apresentou o conceito ao coprodutor e co-roteirista David Sheldon, que ajudou na elaboração do enredo e o deixou sobre sua mesa. Quando o diretor William Girdler (de Animais em Fúria) viu o material, saiu em busca de financiadores para assumir o comando. Em menos de uma semana, conseguiu US$750 mil dólares da Film Ventures International, empresa de distribuição cinematográfica de Edward L. Montoro, um nome que trouxe mais dores de cabeça do que poderiam imaginar. Após o filme alcançar os valores de bilheteria, Montoro resolveu ficar com o dinheiro só para ele, sem pagar elenco, os produtores e roteiristas e até mesmo o diretor. Estes precisaram entrar com uma ação para ter acesso a alguma fatia do lucro. Depois de Grizzly, Montoro, através de sua produtora, investiu em vários filmes de baixo custo de horror, incluindo Herdeiros da Morte (The Visitor, 1979) e Embalsamado (Mortuary, 1983). Contudo, em 1984, quando a Film Ventures International estava tendo problemas financeiros, incluindo o processo envolvendo O Último Tubarão (L’ultimo squalo, 1981), e Montoro estava atravessando por um divórcio, ele desviou um milhão de dólares da conta da produtora, registrada nas Ilhas Virgens, e fugiu. Dizem que foi para o México em 1987, usando um nome falso, e até hoje seu paradeiro é desconhecido.
Contando no elenco com o veterano Andrew Prine (de Mandroid e Anjos Assassinos), que também ajudou no roteiro, Grizzly o apresenta como Don, um piloto de helicóptero e militar que faz a vigilância de um parque, seja para avistar incêndios ou encontrar mochileiros perdidos. Depois que duas trilheiras, Maggie (Mary Ann Hearn) e June (Kathy Rickman) — esta última atuou no filme por residir na região, tendo aparecido antes numa ponta em Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972) — foram mortas de forma violenta por um animal ainda não identificado, o Chefe dos Guardas do parque nacional Michael Kelly (Christopher George) e a fotógrafa Allison Corwin (Joan McCall) descobrem corpos mutilados, sendo que um deles parcialmente enterrado. Embora já imaginem se tratar do ataque de um urso, acham estranho como a criatura findou as jovens.
Além da necessidade de encontrar esse animal assassino, Kelly ainda precisa aturar o supervisor do parque, Charley Kittridge (Joe Dorsey), culpando-o pelas mortes, incluindo a de uma guarda-florestal, atacada numa cachoeira. Ele pede que o parque seja fechado, com a saída de todos os visitantes, enquanto conta com a ajuda do naturalista esquisito Arthur Scott (Richard Jaeckel), que conhece todos os animais do local e têm intenção de capturá-lo por ser uma espécie rara pré-histórica de urso-pardo (um Arctodus ursus horribilis fictício da época do Pleistoceno), que mede cerca de 4,6 metros de altura e é considerado hipercarnívoro. A caça mobiliza não somente os guardas-florestais mas diversos caçadores, enquanto o urso serial killer continua fazendo vítimas.
As semelhanças com Tubarão são até gritantes: Kelly, atuando como o chefe Brody (Roy Scheider), pede que o parque seja fechado, mas o supervisor não autoriza isso, tal qual o prefeito Vaughn (Murray Hamilton), que só pensava no lucro com o turismo em Amity. Scott emula o personagem Hooper, interpretado por Richard Dreyfuss; e Don poderia representar um Quint (Robert Shaw), mas sem o egocentrismo. Há comparações com o tamanho do urso e a dificuldade em caçá-lo; os três mencionados saem pela mata, seguindo rastros e colocando uma isca para atrair o urso. Quaisquer semelhanças passam longe de meras coincidências, como se nota. Até mesmo a ideia de esconder o urso durante o primeiro ato do filme e a câmera se posicionar como os olhos do animal também está longe de ser um diferencial.
Se Grizzly não é inovador, não se pode dizer o mesmo sobre seus exageros gráficos. Há cenas de desmembramentos, cabeças voando, uma vítima sendo batida várias vezes em uma árvore… e aquela que considero mais ousada: em dado momento, uma criança é vista brincando com um coelho no quintal, enquanto sua mãe está dentro de casa. Girdler provoca o suspense com o garoto abrindo o portão para perseguir o animalzinho, mas retorna sem maiores problemas. Contudo, o urso aparece. Quando começa a atacar o menino, a mãe surge para ajudá-lo, sendo violentamente morta. O pequeno sobrevive, levado em estado grave para o hospital, sendo visto mutilado e sem uma perna!
Com um número significativo de vítimas, sendo que boa parte mulheres, pode-se comparar Grizzly à febre dos slashers. Ainda que não tenha surpresas, é um eco-horror que se destaca pela ousadia. Tornou-se cult e até provocou uma continuação improvável, ruim e com grandes pontas: Grizzly II: The Predator foi filmado em 1983 por André Szöts, a partir de um roteiro escrito por David Sheldon e sua esposa Joan McCall, com Suzanne C. Nagy como produtora executiva. O longa permaneceu inédito, acreditem se quiser, até 2020, quando começou a ser exibido em festivais e teve lançamento em VOD e DVD em 2021. Mas o mais incrível é que o longa marca as primeiras atuações de George Clooney, Laura Dern e Charlie Sheen, e ainda conta no elenco com Louise Fletcher e John Rhys-Davies, enfrentando a mãe do urso do primeiro filme! Como não amar o cinema B bagaceira?







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